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Make Love, not War. Assim diziam os hippies na década de 60.
Make Tea, not Love. Isto diziam os Monty Python, na pele de radicais velhotas britânicas, num dos seus sketches.
Make War, not Tea. Não o tendo formulado, é provavelmente algo como isto que o grupo de radical art russo Voina poderia hoje dizer-nos.

(Reuters)

Vladimir Putin, Presidente russo, bebe de uma chávena durante um programa na televisão estatal do país, em 2005. (Reuters)

O grupo, cujo nome significa «guerra», em russo, foi fundado em 2006, e os seus objectivos expressam-se na mesma linguagem clara e explosiva que tomam as suas acções: «Our concept is to screw the authorities until they fall. Voina screws them in an artistic position.» Fundado por Oleg Vorotnikov e Leonid Nikolayev, e contando com dezenas de membros que vão e vêm, além de um núcleo duro composto, entre outros, por Nadezhda Tolokonnikova e Yekaterna Samustsevich, duas das três integrantes do célebre grupo punk Pussy Riot, o grupo é um dos mais fortes e incómodos opositores do governo de carrossel onde cavalgam Putin e Medvedev, à vez e ao mesmo tempo, num círculo apertado de influências, abusos de poder, opressão, censura e impunidade das forças policiais e militares que se insinuam, como pontas-da-lança que gira, centrífuga, desde o Kremlin, para se estender sobre toda a sociedade.

Pénis pintado na ponte levediça Liteyny, em São Petersburgo, frente à sede do FSB. Obra intitulada «Giant Galactic Space Penis» (Voina).

Pénis pintado na ponte levadiça Liteyny, em São Petersburgo, frente à sede do FSB. Obra intitulada «Giant Galactic Space Penis» (Voina).

Os Voina notabilizaram-se, entre nós, por uma acção em Junho de 2010, quando pintaram um pénis de 65 metros numa ponte levadiça de São Petersburgo, que, uma vez levantada, fica de frente para a sede dos Serviços de Segurança Federal, sucessores do temivelmente célebre KGB. Mas o portfolio performativo dos Voina é vasto e faz-se de inúmeros alvos e estratégias, desde que os apparatchiks de Putin ou os seus rostos de repressão, bem como veículos do capitalismo desenfreado ou qualquer outro sistema ou organismo que ponha em causa liberdades individuais ou direitos humanos sejam integrados na equação. Por exemplo, no Dia Internacional do Trabalhador (1 de Maio) de 2007, alguns membros do grupo entraram num McDonald’s de Moscovo e atiraram gatos vadios por cima do balcão, sob pretexto de quebrar a rotina cinzenta, quase esclavagista dos trabalhadores do gigante de fast food, enquanto gritavam palavras de ordem contra a cadeia norte-americana. Noutra ocasião, em 2008, no dia anterior à eleição de Dmitry Medvedev para a presidência, cinco casais do grupo entraram no Museu Estatal de Biologia de Moscovo, onde tiveram relações sexuais publicamente. A acção, intitulada Fuck for the heir Puppy Bear! (no russo, Medvedev é um apelido derivado da palavra «urso»), teria duplo propósito. Por um lado, e nas palavras de Alexei Plutser-Sarno, seria uma caricatura da Rússia pré-eleitoral, onde, e citemos, «everybody fucks each other, and the puppy bear looks at that with an unconcealed scorn» e simultaneamente uma paródia ao programa estatal de incentivo à natalidade, da responsabilidade do próprio Medvedev.

«Fuck for the heir Puppy Bear!», acção no Museu Estatal de Biologia, 2008 (Voina).

«Fuck for the heir Puppy Bear!», acção no Museu Estatal de Biologia, 2008 (Voina).

2008 foi, de resto, ano particularmente rico em acções do grupo, entre as quais merece ainda especial destaque o enforcamento encenado de três imigrantes asiáticos e de dois homossexuais no maior supermercado de Moscovo, mais precisamente, com ironia a gosto, na zona de iluminação, na sequência de declarações racistas e homofóbicas do Presidente da Câmara de Moscovo, Yuri Luzhkov. A título de interesse pode ainda referir-se, no mesmo ano, a projecção gigantesca do símbolo dos piratas — caveira sobre tíbias dispostas em «X» –, a laser verde, na fachada da sede do governo russo, ou, em 2009, a interrupção de um sessão do tribunal, onde Yury Samodurov e Andrei Yerofee, curadores de uma exposição sobre arte proibida, eram acusados de incitar ao ódio religioso, em mais uma clara tentativa de intimidação infundada. Os membros do Voina entraram na sala com guitarras e amplificadores e cantaram uma música intitulada «All Cops are Bаstards», enquanto lutavam para afastar os polícias que irrompiam pela sala.

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Enforcamentos encenados de homossexuais e imigrantes num supermercado de Moscovo, em protesto contra declarações homofóbicas e racistas do Presidente da Câmara da cidade, 2008 (Voina).

Desde a intervenção no Museu de Biologia de Moscovo, que chamou a atenção dos Serviços de Segurança russos e do Tsentr E, centro policial especialmente designado para o combate ao extremismo, que o Voina ficou sob mira do governo russo, mas isso não os demoveu de continuar as suas acções, e só após a pintura na ponte Liteyny a polícia russa apertou o cerco ao grupo. Seguiram-se agressões por parte de agentes policiais à paisana a membros do Voina, e em 2010 foram presos os seus fundadores, Oleg Vorotnikov e Leonid Nikolayev. Depois destes incidentes, e mesmo após a libertação dos dois homens ao fim de quatro meses de prisão, sob fiança, o grupo passou a viver na clandestinidade, na região de São Petersburgo, estando muitos dos seus membros, como Natalia Sokol, mulher de Vorotnikov, impedidos de deixar a Rússia, após a apreensão ilegal dos seus passaportes por agentes do Tsentr E.

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Operação «Palace Revolution». Membros do Voina viram carros da polícia, sob pretexto de estarem à procura da bola do filho de Natalia Sokol e Oleg Vorotnikov, 2010 (Voina).

Os esforços do governo russo têm-se, porém, revelado grandemente infrutíferos, uma vez que, desde 2010, e mesmo apesar da divisão do grupo nas facções de Moscovo e de São Petersburgo por desentendimentos entre membros, o grupo tem dado corpo a novas e mais agressivas acções. Exemplo disso são o incêndio de uma carrinha da polícia e o virar de sete carros-patrulha vazios, ou a operação Kiss Garbage, onde algumas das mulheres do Voina beijaram, de surpresa e sem consentimento, mulheres polícia em várias zonas da capital.

Perdoem-me a lista — que pela minha vontade seria ainda mais exaustiva –, mas estes exemplos parecem-me de extrema relevância e significado, pois nenhum esforço será de menos no exaltar da coragem deste grupo de cidadãos russos, num país onde, como um dia o disse o jornalista britânico Johann Jari, é preciso não esquecer que os críticos de Putin têm o estranho hábito de aparecer mortos a tiro, esfaqueados ou envenenados; e a lista que o prova é longa, de públicos opositores políticos a activistas que denunciam as sombrias práticas totalitárias do governo de Putin e dos seus sequazes: Anna Politkovskaya, Natalia Estemirova, Stanislav Markelov, Sergei Yushenkov, ou Sergei Magnitsky. Estes são apenas alguns dos nomes mais famosos de entre as vítimas que pereceram — são milhares os presos políticos no país, torturados e obrigados a trabalhos forçados — às mãos de uma Rússia ainda devedora do fechamento canibal dos indivíduos, das perseguições sectárias e ideológicas, da intolerância religiosa, do culto do líder, da contaminação das forças judiciais pelos políticos de quem se tornaram garante no seu combate contra a sociedade, e da retumbante impunidade de quem com a lei faz a ginástica que mais lhe convém, de quem escreve e subscreve narrativas ficcionais, mas altamente performativas, que tudo tornam possível para o topo da pirâmide ou para quem percorre as ruas em seu nome — na Rússia, os polícias são automaticamente inocentados se e quando, em marcha de emergência, provocam acidentes dos quais resultam prejuízos materiais, feridos ou mesmo mortos.

A Rússia vive mergulhada e viciada nos defeitos e abusos que insiste em herdar do passado, apoiando-se num Estado judicial, militar, que controla pela repressão, que ameaça com a prisão e com os campos de trabalho que reformulou mas nunca desmantelou, nas mãos ásperas de um conjunto de oligarcas sequiosos cuja pequenez intelectual e escola do KGB, emulsionada por um certo salve-se quem puder pânico aquando da desestruturação da União Soviética vem resultar — e como não? — numa sociedade eminentemente dinamitada e atirada em todas as direcções sobre a taiga morta e gelada onde nada cresce a não ser quem em bicos dos pés aponta ao céu, com os ramos pontiagudos afastando a competição — e com os media estatais a dar um pequeno impulso na condução de uma opinião pública cuja escolaridade, passado recente e dispersão por territórios onde as realidades são tão diferentes convertem, as mais das vezes, em alvos fáceis para a argúcia afilada da máquina de Putin.

Nadezhda Tolokonnikova (Pussy Riot), beija uma agente da polícia russa no metro de Moscovo, no âmbito da operação «Kiss Garbage», 2011 (Voina).

Nadezhda Tolokonnikova (Pussy Riot), beija uma agente da polícia russa no metro de Moscovo, no âmbito da operação «Kiss Garbage», 2011 (Voina).

Talvez seja que grandes males exijam grandes remédios, mas aqui, em Portugal, o mal, se de contornos tenuemente diferentes, não é tão pequeno assim, e seja qual for a sua dimensão, exige um remédio que ainda ninguém, aqui, foi capaz de realmente tentar. Há, portanto, nos Voina, uma lição que nos veio do frio, e que os brandos latinos, vácuo e contraditório reflexo em que vemos esclarecimento de espírito — porque assim o engolimos mais pacificamente –, não aprenderam. Talvez olhando para os Voina, ao invés de querermos ser os bons alunos com orelhas de burro na sala de aulas da troika, o resultado social de hoje pudesse, aos poucos, começar a ser outro. Vejo já críticos acicatados insurgindo-se contra a ilegalidade das acções do grupo ou algumas das suas práticas mais violentas, mas recebo-os já com duas pedras na mão e coloco-os na obrigação de dialogarem de frente com o espelho e decidirem como responder: o que se pretende, de facto, quando se defende um governo assassino, censor, corrupto e que demonstra a mais violenta repulsa pelos Direitos Humanos e pelas Liberdades Civis quando se criticam as acções de um grupo que tenta combatê-lo? O que é isso, afinal, que se pretende justificar no Estado russo quando se condenam as formas de luta escolhidas por aqueles a quem nenhuma outra opção viável se depara? Os russos, infelizmente, já experimentaram a morte pelo Estado; a morte, esse episódio trágico que nós, deste lado da Europa — porque nem eles nem nós, de formas diferentes, estamos bem dentro dos ideais do continente –, felizmente ainda não provámos, mas que será talvez a única coisa que nos separa dessa explosão social que Mário Soares tão bem nomeou e que todos têm receio de perceber. A explosão, ou o terrorismo, parafraseando Baudrillard, é simplesmente essa promessa adiada de que tudo finalmente rebente e nos liberte deste pânico da segurança, da esterilidade, da inoperância do querer e do agir, do dicionário das inverdades e da dança do ventre política, dos discursos desamigados da realidade, dos números a martelo e de todos os ai ais que nos amarram à liberdade de ser livre com restrições. Não podem haver restrições na luta contra um governo assim, contra um governo que mente e destrói, contra um governo que não é a súmula dos seus cidadãos e das suas vontades, mas sim infiltrado que pretende sabotar. Contra o sistema é preciso usar as regras que estão fora dele, aquelas que ele não pode admitir.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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