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Hoje não me demorarei em grandes efabulações. O caso que trago ao leitor é por si só um tão grande delírio da realidade que não carece de acompanhamento nem de retoque nos temperos; e não será por isso que se escarmentará o leitor. Fica a promessa feita. Trata-se, como verá nas próximas linhas, de um prato principal com uma costeleta de loucura bem servida — daquelas grandes, com osso e tudo.

A Rússia é um país que me fascina. Para o bem e para o mal. Do bem posso falar um dia, mas vai das mulheres aos monumentos, dos monumentos às mulheres — por vezes coincidem –, pode até passar por um copo de vodka gritando na zdrowie nas margens do lago Baikal, ou mesmo, quem sabe, por tudo isso ao mesmo tempo. Mas como diz o outro, vodka é vodka, e trabalho é trabalho. O que me traz aqui, já adivinhou, é, ainda que espiado de outra janela, o mesmo tema da semana que nos antecedeu: a justiça russa como extensão do braço do Kremlin, governo encastelado de onde Putin e Medvedev mexem os cordelinhos dos títeres, súbditos ou cidadãos anestesiados, que assim entram na corrente sanguínea que alimenta o poder.

Sustenha por momentos a incredulidade, prepare-se para a apneia do bom-senso e da racionalidade, e mergulhemos, então, no caso:

Em 2003, Mikhail Khodorkovsky, então o homem mais rico do país e 16º mais rico do mundo, dono da Yukos (diminutivo de Yuganskneftegaz), à data a maior petrolífera privada da Rússia, foi acusado de fraude e evasão fiscal. Viria a ser condenado a uma pena de oito anos de prisão efectiva na Sibéria. Em 2009, a menos de dois anos do fim da sua pena, Khodorkovsky foi novamente chamado a tribunal, então acusado do desvio de petróleo da sua própria empresa, tendo sido novamente condenado e  continuando preso pelo menos até 2014.

Por que merece o caso a nossa especial atenção? Pois, vejamos: o tribunal exigiu o pagamento do montante que afirmava ser devido em impostos da Yukos (3.4 biliões de dólares), mas simultaneamente congelou todas as contas e activos da empresa, como se para garantir o valor da empresa. Truque de magia: a maior e mais rentável petrolífera do país tornava-se assim incapaz de saldar a sua (aparente) dívida e o tribunal, lesto, declara a sua insolvência. Como acontece em casos de falência, a empresa é posteriormente colocada em leilão. Ao leilão da Yukos, então responsável por 2% da produção mundial de petróleo, comparecem apenas dois candidatos: o Baikal Finance Group, uma empresa criada apenas duas semanas antes do leilão, registada sobre um bar de vodka numa pequena cidade de província a norte de Moscovo e com um capital social de apenas 350 dólares. Não obstante, poucos dias antes do leilão, a modesta empresa conseguiu um empréstimo de 1.7 biliões de dólares do Sberbank, o banco do Estado, exactamente o valor necessário para entrar no leilão. Além do Baikal Finance Group, marcou presença no leilão a Gazprom, a gigante companhia energética russa detida pelo Estado. Curiosamente, a Gazprom ter-se-à escusado a fazer qualquer lance, pelo que o Baikal Finance Group arrematou o leilão com a sua primeira e única oferta, de apenas cerca de 30% do valor em que a Yukos estava avaliada. Poucos dias depois, o Baikal Finance Group foi adquirido pela Rosneft, a petrolífera do Estado, que assim, de forma insuspeita, se tornou dono da Yukos. E como são ainda poucas as coincidências em todo o caso, é de lembrar ainda o interessante dado de, à data, o Presidente da Gazprom ser também o CEO da Rosneft, com estreitas ligações ao Kremlin. Até aqui, e daqui em diante, se tudo parece coincidência, caro leitor, é porque nada o é.

Todos estes detalhes contribuem para o clima de suspeição que envolveu este caso, mas as reticências agravam-se quando conhecemos o contexto. Não será, certamente, coincidência que Khodorkovsky tenha sido acusado poucos meses após financiar grandemente a oposição contra Putin, e de questionar publicamente os excessos do Governo autoritário do actual Primeiro-Ministro, confrontando-o na televisão em Fevereiro de 2003. E o próprio momento da segunda acusação, aparentemente infundada, é igualmente suspeito, uma vez que Khodorkovsky, importante figura da oposição ao Governo e com grandes apoios em alguns sectores da sociedade, tenso sido novamente acusado, esteve encarcerado durante as eleições de 2012 (ao invés de ser libertado em 2011), às quais Putin se recandidatou e venceu.

Esta é a trama. Talvez agora o leitor pergunte «O que quero eu saber deste tal Khodorkovsky?», ou inclusive se dê o caso de a leitora exclamar: «Mas os russos estão lá tão longe!» É verdade que a distância nos torna abstractos os russos, do domínio do cinema e da literatura, as mais das vezes, mas é preciso que a consciência dos outros ganhe corpo em nós. Porque os outros somos sempre nós, e porque a lição que o caso Khodorkovsky nos dá é mais uma repetição, por meio de exemplo, do ensinamento que, por esta altura, sobretudo no Portugal de 2013, já todos deveríamos ter interiorizado e saber recitar de cor, em ordem inversa e salteado: a economia e o poder são faces da mesma moeda, e contra a sua sede voraz a justiça é pequena pedra no sapato que facilmente se pode tornar engrenagem ao serviço do motor em movimento perpétuo que é sempre o dinheiro e que só pode acumular-se. Esse é o prazer do agiota, e o orgasmo não tem para ele barreiras. Aos cidadãos, a noção da justiça não pode bastar. A justiça não pode ser nuvem sobre o país, em quem encontramos conforto por sabê-la lá e para quem olhamos com os olhos húmidos, nos momentos de dúvida. As leis não são nada sem os homens por detrás delas. A prova está na Rússia. Espero que a resistência esteja aqui.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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