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Se há falta de civismo, e que realmente a há, a estrada é um local onde a populaça desembargada arregaça as mangas e cospe o Schumacher que há em si: tomando o asfalto como quotidiano parque de diversões, o pequeno médio Barrichello solta-se e ganha, no corpo do condutor citadino, o protagonismo que nunca teve na pista da velocidade furiosa. É vê-los, quais Fittipaldi das rotundas e avenidas, sorvendo o vil petróleo na combustão da inércia pensante, engolindo o alcatrão tracejado com a rapidez atabalhoada de quem tem pressa de chegar a lado nenhum, bicho-carpinteiro incomum, seduzido pela magia ancestral da veloz corrida à volta da passerelle que estes julgam ser a estrada. Ludibriados pelo vómito marketista e pelo glamoroso ideário Hollywoodesco, a gentalha lança-se à estrada com a pujança sobranceira com que muitos pilotos de Fórmula 1 não abordam sequer uma chicane: o condutor da estrada nacional é um autêntico às do volante, seguro da sua hábil condução domingueira, que faz questão de passear todos os dias da semana pelas vias do nosso acidentado Portugal.

O comportamento do povo português na estrada apenas reflecte aquilo que nós somos enquanto ente colectivo: uma massa infantil de gente mal-educada, que encara com laivos de recreação uma responsabilidade que deveria ser enfrentada com a maior das cautelas – conduzir um automóvel é uma tarefa que, além de perícia, exige respeito mútuo, compreensão das regras de trânsito, civismo, precaução e um entendimento sério e maduro do perigo que uma condução desleixada pode representar, tanto para si como para todos os outros utentes que com ele partilhem a via, sejam condutores ou simples pedestres. Mas uma vez encafuados no «cockpit» do seu Clio Tuning, os portugueses ziguezagueiam pelos trilhos alcatroados munidos do etéreo charme da compulsiva aceleração raivosa, genuíno síndrome de viação hiperactiva que os impulsiona mais além, como se, ao virar da esquina, passando o último milésimo do amarelo e cruzando a passadeira antes da velha de muletas se abeirar do primeiro centímetro de tinta branca no pavimento, estivesse, desfraldada e ondulando ao sabor do vento, uma bandeira axadrezada que os coroasse vencedores. O resultado lógico desta nula pedagogia cívica e desta cultura criminosa é a transformação da condução num dos maiores flagelos de que há memória na sociedade portuguesa: estimam-se que já tenham morrido nas estradas nacionais mais portugueses numa década que em todo o período do Ultramar.

Excitados pelos estímulos consumistas de uma mercenária cultura publicitária, que promove a velocidade como um aprazível bem de fruição individual, os jovens crescem na ânsia emancipatória da vertigem veloz, onde ser-se «acelera» é ser-se gingão, tenaz, confiante e, em certa medida, poderoso – esta ridícula cambalhota mental é alimentada pelas desconchavadas películas de Hollywood, onde até mulheres semi-nuas servem para sinalizar a partida de uma «drag race», quais semáforos equipados com «airbags» de silicone e lábios insuflados que mais parecem as jantes de um Land Rover em saldo. Vivemos uma era onde, mais do que nunca, aquilo que se quer incitar é precisamente aquilo que, à posteriori, nos vemos obrigados a condenar – somos marionetas desconexas de uma dissonância cognitiva que nos sensualiza a proibição e criminaliza o subjacente acto proibido. A sociedade de consumo em que vivemos acende a reserva primária do desejo ao mesmo tempo que a estrutura paradigmática do nosso ideal social promove a transgressão da lei, abafa o civismo e condescende perante as más práticas ao volante, que tantas vidas ceifam. Este país insiste em brincar às corridas, brincando com a vida dos outros como um menino brinca com miniaturas que se chocam para gáudio do petiz manipulador das marionetas automobilísticas, que somos nós, aço adentro da carne, tripas e sangue borda fora, dia após dia.

Quando vi nos noticiários que um actor do filme «Velocidade Furiosa» tinha morrido esmigalhado dentro do carro que um tipo chamado Rodas guiava, lembrei-me deste artigo. Lembrei-me, independente de ambas as mortes – que certamente terão muita gente que as chorem – que a ironia dificilmente poderia ser maior. A uma velocidade furiosa, os tipos desfizeram-se contra um poste que tinha um limite de velocidade afixado como aviso: 45 milhas por hora permitidas, não mais. A arregaçar pelo meio de uma localidade, o glamoroso Porsche dos tipos foi beijar o limite de velocidade e, furiosamente, ambos foram desta para melhor, sujeitos a ceifarem a vida de outros que, por azar, pudessem estar nas imediações. Dos destroços do acidente, não se vislumbrava nenhum do glamour que a velocidade promete oferecer: apenas fumarada e gente desfeita. De uma vez por todas: querem acelerar, façam-no nos locais apropriados. A estrada, via comum a todos os cidadãos, é somente um caminho para se chegar a outro destino, que não a morte.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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