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Monroe Price, académico norte-americano, escreveu em 1996 a teoria daquilo que denominou por Market for Loyalties. Por tal, Price ambicionava descrever a forma através da qual determinados agentes de poder – Estados soberanos, por exemplo −, se relacionam entre si e os modos como actuam sobre os diversos públicos que procuram influenciar.

Price parte de uma leitura tradicional do pensamento económico, que aplica depois aos fenómenos da comunicação, como arenas de poder. Por outras palavras, a teoria propõe olhar para a comunicação como transacção, já não de bens ou serviços, mas sim de uma identidade (património cultural, associação a um grupo, identificação com uma causa ou aspiração, sistema de valores, etc.), identidade essa garantida pelo pagamento da lealdade (o respeito por um sistema de leis, a submissão a um Estado, o cumprimento de obrigações fiscais, serviço militar, etc.) Exemplificando toscamente, a troca faz-se entre um Estado que pretende vender a ideia de liberdade e um povo que deseja filiar-se nela, pagando assim em lealdade a esse Estado, cumprindo a sua lei, pagando-lhe impostos, entre outros. Essa é a natureza da transacção.

E é assim, claro, que ganham sentido os momentos de comunicação, de declarações públicas de um Estado sobre a actuação de outro Estado. Por que razão fazê-lo publicamente, rodeando-se de jornalistas e luzes e câmaras? Porque com as luzes e com as câmaras se dá, efectiva e cinematograficamente, a acção. A acção que a visibilidade da comunicação pública, social, produz; a influência que não têm os canais próprios de que todos os Estados dispõem para comunicar entre si, nos bastidores da vida. O que está em jogo, claro, é a lealdade dos cidadãos a uma ideologia dominante: o melhor desempenho possível num mercado ideológico. A ideia não impõe dificuldades cognitivas, e torna-se alarmantemente óbvia quando invertida: o que o nascimento da censura, nas suas múltiplas ocorrências, pretende, não é senão impedir ameaças a uma posição dominante, monopolista das lealdades de um grupo.

Soldados da polícia anti-motim ucraniana na Praça da Independência, Kiev. (Foto: Reuters)

Soldados da polícia anti-motim ucraniana na Praça da Independência, Kiev. (Foto: Reuters)

A Ucrânia está a ferro, e espera-se que não irrompa em fogo. No dia 21 de Novembro, Viktor Ianukovich, Presidente ucraniano, anunciou que não subscreveria o acordo de associação e comércio livre com a União Europeia, cuja assinatura se encontrava marcada para daí a uma semana e que permitiria ao país entrar no mercado livre europeu, integrando a “Parceria Oriental” da União. Milhares de pessoas têm convergido, desde então, para a Praça da Independência, morada de vários edifícios governamentais, onde assentaram verdadeiros acampamentos, ergueram fortes barricadas para prevenir o avanço da polícia e destruíram uma estátua de Lenine, anterior à dissolução da União Soviética, em sinal do seu pro-europeísmo. Os manifestantes pretendem a demissão do executivo, que acusam de perseguição política à oposição (a ex-primeira-ministra Iulia Timoschenko encontra-se a cumprir pena de prisão) e de desprezar os Direitos Humanos, bem como de trair os desejos dos seus cidadãos, que um pouco por todo o país se têm manifestado em favor de uma clara aproximação à Europa – em parte, para sair da grave crise económica em que o país vive, devendo pagar 6 mil milhões de euros em 2014 a diversos credores −, numa Ucrânia mais livre e aberta, uma Ucrânia mais distante da Rússia, a quem em 1991 conquistou a sua soberania, mas de quem ainda depende grandemente em termos económicos – e Putin sabe-o, como sabe da importância de manter sob a sua esfera de influência os países do leste europeu; motivo pelo qual, já no próximo dia 17, pretende enquadrar a Ucrânia na sua aliança aduaneira, onde já estão, entre outros, Bielorússia e, mais recentemente, a Arménia (país que a UE pretendia ver também na Parceria Oriental).

Manifestantes numa barricada na Praça da Independência procuram suster o avanço da polícia. (Foto: AFP)

Manifestantes numa barricada na Praça da Independência procuram suster o avanço da polícia. (Foto: AFP)

A Ucrânia é, portanto, o mais central Market for Loyalites actual, no Ocidente. Os seus 603 628 km² são hoje salão de uma leiloeira ideológica, de um jogo de corda entre Este e Oeste que mimetiza um clima de Guerra Fria. É assim que convergem para a Praça da Independência, pelos manifestantes simbolicamente rebaptizada Praça Europa, as presenças e declarações de líderes ocidentais e seus representantes, do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, a John Kerry, Secretário de Estado norte-americano, à embaixadora da Lituânia no país ou a Catherine Ashton, chefe da Diplomacia Europeia; mas também as lembranças em tom de aviso de Vladimir Putin. Porque no jogo da Ucrânia joga-se mais do que à primeira vista se poderia pensar, ao ver os manifestantes nas ruas gritando por transparência e liberdade atrás de barricadas de ferro e neve. Kiev está, ela própria, na encruzilhada da lealdade, forçada a escolher entre a Europa, mercado no qual tem o seu primeiro destino de exportação, e a Rússia, de quem o Inverno rigoroso faz o país refém – mensalmente, a Ucrânia gasta cerca de mil milhões de dólares em gás natural oriundo da Rússia −, cabendo aos russos a decisão de aumentar preços ou de, simplesmente, começar a fechar as torneiras dos seus gasodutos.

Manifestante bate em tambor com fotografia do presidente ucraniano Viktor Ianukovich. (Foto: AFP/Getty Images)

Manifestante bate em tambor com fotografia do presidente ucraniano Viktor Ianukovich. (Foto: AFP/Getty Images)

Putin, que parece especialmente dotado da capacidade para se ir afirmando e reafirmando como persona non grata nesse pequeno pedaço de mundo que vai das fronteiras da Bielorússia, passando por Bruxelas, cruzando o Atlântico e só parando na praia mais avançada de Miami, pode estar mesmo perto de fazer a Europa cair de borco no chão, com as mãos ensanguentadas pela corda, vendo a Ucrânia fugir-lhe para mais perto dos Urais. Reentra então, e ainda que por momentos – mas o momento é a chave −, em cena o Market for Loyalties. Da raposa política que é Putin nunca seria inconsequente coincidência que, precisamente na semana em que manifestantes e polícia negoceiam distâncias – e por vezes proximidades bruscas −, o Kremlin anuncie que vai amnistiar acusados crimes de hooliganismo, não por acaso os delitos pelos quais foram presas duas das três cantoras do conjunto Pussy Riot e os membros do navio da Greenpeace que invadiram, em protesto, uma plataforma petrolífera russa, no Árctico.

A política, nacional ou internacional, goza da complexidade dos muitos factores que nela têm corpo: dos seus agentes e dos seus interesses, conflitos e disputas aos seus tempos, momentos e requisitos da sua geografia, mas o seu objectivo é de fácil percepção, e sempre o mesmo, em qualquer relação entre poderes: conseguir a boa-vontade, a lealdade dos seus cidadãos. É também essa grande fatia do confronto ucraniano: a força da UE posta em xeque na mesma medida em que se joga a reeleição de Ianukovich e o poder de Putin sobre o leste europeu.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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One thought on “O Mercado da Lealdade

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