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Se há coisa que me irrita profundamente nos portugueses, é a maneira deslavada como temos dois pesos e duas medidas para determinadas situações, mediante os nossos interesses.

O mesmo tipo de acção de um político, dependendo do partido, pode ser “correctíssima” como uma “desonestidade” com uma facilidade tremenda. No futebol as coisas não são diferentes. Há semanas Bruno de Carvalho, presidente leonino, fez um graçola com as cores da bandeira nacional que muito ofendeu os adeptos encarnados. As infelizes declarações do presidente do Sporting, levaram mesmo à criação de uma petição a exigir a sua prisão por desrespeito à bandeira nacional! Os fundadores deste movimento ficam ofendidos com este tipo de piada futebolística mas estão-se nas tintas se por algum acaso o seu presidente lesar o estado em 17 milhões de euros, em alguma marosca BPNianesca. Serve este exemplo, para atestar o nosso grau de preocupação  nestas questões que realmente interessam em contra ponto com idiotices que valem peanuts.

No mundo do desporto rei outra situação que muito me incomoda, tem a ver com o funcionamento da FIFA. Desde os tempos de João Havelange que a entidade máxima que gere o futebol, está manchada por casos de corrupção, compadrio e tráfico de influências, em instâncias que envolvem milhões de euros e o enriquecimento ilícito de dirigentes federativos, políticos e desportistas. Foi com este currículo de sonho que a Argentina atingiu a final do Mundial de 78, que a o Coreia brilhou em 2002, que a França esteve no último europeu e estará no próximo mundial e que o Qatar acolherá o Mundial de 2022. Em Portugal, todos nos marimbamos para isso, até ao dia em que Blatter imitou de forma ridícula Ronaldo. Aí passou a ser o pior embuste da história do futebol – papel que já desempenhava com sucesso há imenso tempo.

ALLO prémio de melhor jogador do mundo, que CR7 tanto ambiciona voltar a vencer, é o maior paradigma da nossa hipocrisia desportiva. Quando Figo bateu a concorrência e o levantou, todos nós nos enchemos de orgulho e honra ao saber que um prémio tão prestigiado seria entregue a um português. Ronaldo repetiu a proeza e, nós, perante a dimensão do feito arregalámos os olhos de felicidade e festejamos mais uma enorme vitória do desporto nacional. De lá para cá, Ronaldo não voltou a vencer e aquele prémio sensacional que enchia os lusos de orgulho passou a ser um título vergonhoso e pouco sério. Quando ganhamos é limpo, quando perdemos o prémio é ferido de ilegalidade. Somos uma espécie de mini Luís Campos, que quase nunca perdia jogo nenhum sem que a culpa fosse totalmente do árbitro.

Não discuto se Ronaldo é melhor ou pior que Messi, são jogadores totalmente opostos e por isso incomparáveis. Se os fãs de Ronaldo podem invocar com razão que o português é mais completo que o argentino, os de Messi dirão – igualmente com razão – que mesmo sendo inferior a Ronaldo, em variedade de recursos futebolísticos, Messi tem números iguais e na maioria das vezes até superiores aos de CR7 – tanto em prémios colectivos como individuais.

messi-vs-ronaldoOs dois são magníficos e apenas questões de gosto pessoal podem dividir as preferências sobre cada um. Este ano mais do que em qualquer outro, a disputa pela Bola de Ouro será acirrada. Como a atribuição do prémio é referente à temporada anterior e ao início da seguinte, Messi e Ronaldo prometem um duelo intenso. Se o argentino venceu, na última época, a Bota de Ouro e o Campeonato Espanhol, Ronaldo está numa forma soberba e neste primeiro terço de temporada tem sido o principal jogador do mundo. Ribéry apesar dos títulos em Munique, corre claramente por fora.

Ronaldo é extremamente ambicioso – foi isso que o fez chegar ao topo – mas devia pensar duas vezes antes de ir a Zurique. Se o português se sente prejudicado pela entidade máxima do futebol e por Blatter – como já expressou publicamente – e acha que o prémio de melhor do mundo está ferido de morte, não deveria comparecer na gala da FIFA – fosse qual fosse o resultado final.

Cristiano sabe que pode e provavelmente vai vencer e a sua não comparência só tornaria a vitória ainda mais especial. Teria um impacto brutal, a recusa em comparecer de um atleta vencedor e seria uma resposta à altura dos princípios que o jogador tem e dos valores que tem vindo a defender. Acontece que desde que estalou a polémica, Cristiano tem sido frequentemente vago nas suas declarações e sedento de ser novamente coroado, acabará por comparecer e fazer a figura triste do vencedor felicíssimo de um troféu que quando não é vencido por si, o próprio trata de descredibilizar. Uma hipocrisia bacoca, que não passa de um laivo de portuguesice. Como também o é, aquele boa e velha questão de que Messi ganha porque nasceu na Argentina – essa grande potência – e Ronaldo perde porque o mundo conspira contra Portugal.

A forma como este prémio é apurado é quase leviana, já que além dos jornalistas – que puxam sempre a brasa à sua sardinha – votam também capitães e treinadores de cada selecção. Este tipo de votação, transforma todo este processo numa eleição para delegado de turma em que os amigos votam uns nos outros para primeiro lugar e só depois nas pessoas que realmente acreditam serem melhores. Nesse contexto, acabam por ser os votos das federações, sem contacto directo com os protagonistas da disputa final, que decidem qual o vencedor final do troféu. Já que espanhóis, portugueses ou italianos votam – a título de exemplo – invariavelmente, em elementos das suas nacionalidades.

O critério de votação é subjectivo: trata-se de uma questão de preferência pessoal de cada um, e isso acaba por desvirtuar a justiça de certos troféus. Se os interessados não concordam com os moldes e se acham prejudicados, devem pedir alterações, reivindicar aquilo que acham justo ou em último caso, ignorar a competição. Criticar quando se perde, para depois honrar-se com a vitória, não me parece o mais adequado… a não ser que se seja português.

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SONY DSCBruno Gomes

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One thought on “Hipocrisia à Portuguesa

  1. Mais um exemplo de hipócrisia é o facto de, na época passada, se ter criticado a vitória de Messi sobre Ronaldo na Borila de Ouro porque o português havia ganho o campeonato espanhol na temporada anterior, igonrando os 91 golos do argentino no ano civil – 74 até à data da votação contra 63 esta época, do português – e o brilhante início de época de Messi no Barcelona, tal como Ronaldo agora fez no Real Madrid. Este ano, foi a vez de se inverterem os papeis, com Messi a ser campeão e Ronaldo a ter mais golos e uma melhor forma. Mas para quem estes argumentos o ano passado não foram válidos, este ano será um cataclismo se Ronaldo não vencer.

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