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O Benfica de hoje é isto: medo de tudo, medo de todos, medo dos fantasmas da história recente, medo da própria sombra. É o Luís Filipe Vieira que não pode sair porque para o seu lugar pode chegar um Vale e Azevedo. É o Jorge Jesus que tem que continuar sob pena de ser substituído por um qualquer Quique Flores. É o Artur que tem que manter o lugar cativo na baliza, porque o próximo escolhido pode ser mais um Roberto. Responsabilizações, essas, não existem. Os erros caem em saco roto.

No meu último texto para este blog, abri o livro das críticas a presidente e treinador (https://palavrasaoposte.wordpress.com/2013/12/10/o-bem-que-faria-um-sporting-campeao/). Entre reacções concordantes e discordantes, aceito todas. Mas não consegui deixar de reparar que as razões de quem se mostra ainda do lado do técnico e (sobretudo) do presidente não estavam relacionadas com o sucesso desportivo (nem poderiam estar…) mas sim com um receio alastrado que ainda domina uma boa franja de adeptos encarnados. Na cabeça de muitos pairam certezas infundadas: “Se Jesus sair, chegará um treinador como os que tivemos antes, e nunca mais vou ver o Benfica a jogar um futebol tão bonito”; “Se Vieira sair, deitaremos ao lixo todo um excelente trabalho de recuperação financeira e de recuperação da credibilidade do clube, voltaremos àquilo que éramos antes”.

Acaba por ser um ponto de vista muito limitado no tempo. Porque a história do Benfica não são os últimos 10, 15 ou 20 anos. Antes disso tivemos muito melhores presidentes. Muito melhores treinadores. Muito melhores guarda-redes. Porque a Vieira pode seguir-se um Borges Coutinho. A Jesus pode seguir-se um Eriksson. A Artur pode seguir-se um Preud’Homme ou um Bento.

E com esta introdução acabo já com o mal pela raiz. Não vou aceitar que reajam ao que aqui vou escrever sobre Artur com um céptico “mas depois vem um pior, vem um Roberto ou um Bossio”. E não o aceito como argumento, primeiro que tudo, porque os Roberto’s e os Bossio’s são as excepções e não a regra de um Benfica que, na sua história centenária, teve guarda-redes fantásticos. E também não aceitarei porque nos próprios quadros do clube há um guarda-redes jovem, esloveno, que estou certo que não fará pior que Artur. Até porque fazer melhor nem é difícil.

Artur é um guarda-redes mediano. Mas só o consegue ser quando está bem física e psicologicamente, o que não é o caso actual. E quando não é o caso, é um guarda-redes banal, a roçar o fraco. Artur fez uma carreira muito regular em Itália. Uma regularidade que passava todos os fins-de-semana pelo banco ou pela bancada. Chegou a Braga e foi directo para o banco. Só com a saída de Felipe ganhou a titularidade, a meio da época, partindo para uma segunda metade de época muito boa. Não lhe tirando o mérito dessa fase, recordo que em Braga até Eduardo parecia um guarda-redes colossal. Quando Artur chega à Luz agarra o lugar e ganha confiança para uma primeira época excelente. Mas a partir daí foi sempre a descer. Fica ligado aos momentos decisivos da temporada passada, com erros graves nalguns casos. Mas foi mantendo o lugar. Sobreviveu aos erros como quem passa por entre os pingos da chuva.

E a verdade é que Artur não aprendeu com os erros do ano passado, como se comprovou na recente recepção ao Arouca quando sofreu um golo em tudo idêntico ao do Estoril – no jogo decisivo da temporada passada – em ambos os casos com muitas culpas no cartório. Em Olhão voltou a ser aquele guarda-redes pesado que custa a sair do chão para se fazer à bola. E um esférico traiçoeiro mas não difícil aninhou-se nas suas redes. Ser pesado é um dos seus maiores defeitos. Oblak pode ter vários, esse não é um deles. Artur também tem sérias dificuldades em sair aos cruzamentos. Em Olhão, Oblak saiu a uma única bola cruzada e senti a segurança que há muito falta neste tipo de lances. E quando Artur faz uma ‘mancha’ a um adversário tem uma tendência preocupante de se colocar todo na horizontal no ar, qual tábua de engomar, com a bola a passar invariavelmente por baixo do corpo. Só esta temporada, tivemos vários lances deste género, com a bola a terminar invariavelmente no fundo das redes. Em Olhão, Oblak também fez uma mancha e a bola bateu no muro. É o que se pede. Aliás, esse é dos grandes pontos fortes do esloveno, quem o segue sabe-o bem.

Mas o que me preocupa mais em Artur nem são as questões técnicas que acima apontei. Nem é a sua forma cada vez mais arredondada, até porque me habituei a ver guarda-redes volumosos de grande categoria. O que me preocupa mais é a instabilidade emocional de Artur. Artur tem sempre aquela cara de guarda-redes inseguro. Parece sempre querer sair dali. Quando a realização busca uma reacção sua a um erro, está sempre com aquela cara de “tirem-me daqui antes que me desfaça em lágrimas”. Isso, num guarda-redes, é preocupante. Artur baixa a cabeça quando falha e entra no seu mundo. Não parece reagir à adversidade com vontade de emendar mas sim com rezas para que a bola não venha mais para perto da sua baliza. Mas ela volta. Com o processo defensivo do Benfica (que fica para outro dia), volta sempre. Até ao apito final nada é certo.

Até gosto de Artur, considero-o um excelente profissional, parece boa pessoa e vejo nele alguém que sente o Benfica. Mas isso não chega. Artur não chega. Ou, pelo menos, este Artur não chega. Talvez lhe falte algum tempo de descanso, algum tempo de banco. A lesão veio na hora certa porque cada vez mais pairava a ideia de que Artur continuaria a ser dono da baliza, independentemente de errar ou não. E esta desculpabilização do erro é preocupante. Num clube como o Benfica ninguém pode jogar só porque sim. Ninguém pode ter lugar cativo. Não pode haver medo de apostar nos outros. Porque os outros foram contratados precisamente para jogar quando os teoricamente melhores não corresponderem. Que motivação tem um guarda-redes suplente que vê o titular errar frequentemente sem que isso signifique uma oportunidade para si? É pena que a entrada de Oblak no onze aconteça só depois da lesão de Artur. O esloveno merecia ser visto como uma alternativa credível e não uma aposta de recurso. E se o caso de Artur ficar resolvido, outros ‘lugares cativos’ deverão ser repensados. Mas esses ficam para outro dia. Para já, “Vai-te a eles Oblak!”

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joni_desenhoJoni Francisco

3 thoughts on “Oblak por linhas tortas

  1. Nunca gostei muito do Artur mas não o critico. Gosto mais do Roberto que com confiança é muito melhor guarda redes e com ele tínhamos sido campeões pelo menos o ano passado. Mas os adeptos não quiseram.
    Acho também que o Oblak parece ter maior estabilidade emocional até porque não está a ser acossado pela cáfila de adeptos, como o Artur está neste momento. Os adeptos estão neste momento a queimar mais um guarda redes em lume brando. E depois a culpa é do JJ e do Vieira. Pois…

  2. Muito bem! Parabéns!
    Se fosse treinador de futebol, tinha dois guarda-redes equilibrados.

    Cada vez que o titular errasse trocava-os no jogo seguinte…

    Assim evoluíam os dois, e a repetição de erros tornar-se-ia menos provável, pois aprendiam da pior forma.

    O que acontece, na conjuntura actual, é que há guarda-redes que passam a carreira na sombra…

  3. A ideia do Baco até nem é má. Mas também acho que os treinadores e são muitos sabem melhor do que nós.
    Eu se fosse treinador colocava o Oblak contra o Setúbal. Mas isso é apenas uma opinião sem grande interesse e sem qualquer sentido de crítica.

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