Home

uid_cbbc29e5a5dc49abeec1c1f7cead7ff61386849536539_width_700_play_0_pos_3_gs_0

Ao ler um artigo de Slavoj Zizek, publicado no jornal The Guardian, senti que se refastelara, com estrondo, uma ponte sináptica sobre meu leito de entendimento, onde, na inaugurada margem de lá, Zizek se distanciava já, caminhando surdo-mudo sobre o silêncio pavimentado daquilo a que chamamos reflexão. Sem silêncio, solipsismo a gosto e solidão, nunca existe, nunca existirá reflexão. E em silêncio estava, igualmente, o caricatural gesticulador Thamsanqa Jantije, que desorbitou o mundo com a sua estrambótica actuação de autómato programado para a desdita inaudita tradução, suposta extensão linguística daquilo que os líderes mundiais estariam proferindo aquando da homenagem fúnebre de Nelson Mandela.

Jantije, contratado pelo Congresso Nacional Africano para o efeito, aprumou-se diante do ecrã mundo e, hirto como as continências que se batem, não se desfez até ao término da cerimónia, verbalizando cabriolas gestuais, remates de letra afincados, geometrias de recorte espabilado e sentenças com o exacto valor semântico que era audível através das palavras emitidas pelos grandes líderes do globo. Pois todos nós sabemos que tal assim não foi: mas, como ressalva Zizek, a real decorrência do evento foi o mais ínfimo e fiel «snapshot» que do nosso entendimento generalizado se poderia tirar – vivemos na percepção egocêntrica da nossa própria representação, trancados no labiríntico relógio de sombras que nos encerram o tempo e nos ornamentam a vida, numa holografia intocável de gente que se trespassa com o dedo sem gotejar do paletó endinheirado, de gente que ordena sem cara e responsa, de gente que fala à nação sem que com o jacto da voz consiga sincronizar uma significância que se oiça. O fenómeno de Jantije é a metáfora que, resgatada do palco além-fronteiras, nos explica que vivemos na mais pura das imperceptibilidades, à escala global. Ali, no cenário de uma repercussão transversal, à vista de milhões de olhos espalhados por milhões de outros tantos recantos do planeta, o robótico Jantije, que encarreirava sentido nenhum sobre um pilha de nada – para logo a seguir virar a página do seu falatório gestual como se de um maquinismo possuído se tratasse – ofereceu-nos o significado mais útil, mais lógico e mais pertinente que poderíamos desejar: a tradução do nada. A simples e lógica passagem do proferido nada para a sua correspondente coisa nenhuma.

O mundo, munido do seu globalizado sentimentalismo «post-mortem», qual fatiota domingueira de baile de passo mentiroso, chorou com aspas a morte de Mandela, exultando o carácter do homem e homenageando, entre as mesmas aspas, a vida do lendário sul-africano. Numa amoral basófia de chavões carnavalescos e lágrimas de crocodilo que apenas afagaram o ego de quem teatralizou a tristeza e o pesar, a cerimónia fúnebre avançou, por entre fotografias de descontracção bacoca, intervenções vazias e formalidades pomposas que de espírito revolucionário, activista, justiceiro, ideológico e cívico, nada tiveram. A morte de Mandela foi uma autêntica festividade solene que serviu de mote para uma corrida à capitalização do gesto pesaroso, da oportunista lugubridade que manda o bom costume assinalar, entre missivas condolentes e adjectivos de superlatividade ao defunto, que depois de morto é santo, e santo é como se querem os melhores dos homens: mortos. Basta passar os olhos pela História e decorar as datas em que Cavaco Silva foi contra a libertação de Nelson Mandela: foram duas, uma em 1987 e outra em 1989. Mas, depois de morto, o homem passou a ser para Cavaco «o maior estadita do nosso planeta no século XX». Cavaco não foi nem é o único da estirpe. Assim se descreve, em parcas duas linhas, o que foi a cerimónia postiça que durante horas discursou, pela boca dos líderes mundiais, um monte de insignificâncias latentes, ladaínhas de imperceptibilidade que Jantije se encarregou de traduzir por coisa nenhuma. A sua presença, maquinal e insana, perfaz o ideário do espantalho terrorífico movido a loucura, que se debate com a esquizonfrénica tarefa de colocar em símbolos gestuais uma comunicação que, ora nem começa, ora nem tem fim ou sentido que possa ser explicitado. Jaz somente ali, endiabrado, condenado a não saber o que está a ouvir e sem saber o que está a produzir, a traduzir.

Tudo isto porque Mandela morreu. Porque, no fundo, Mandela já não era Mandela mas sim uma lição de vida e de activismo político que deve ser, não celebrada com a pompa que nunca quis, mas idealizada e ensinada aos mais jovens, contada e imortalizada, valorizada pelo exemplo que deve encetar e que nós, nunca alheados da vida que interessa, devemos perseguir verdadeiramente. Vivemos tempos de miséria económica, política e social – Jantije apenas traduziu o vazio da resposta dos líderes mundiais aos nossos lamentos.

GOSTOU DESTE ARTIGO? ENTÃO ENTRE EM https://www.facebook.com/palavrasaoposte, CLIQUE ‘GOSTO’ E ACOMPANHE OS ARTIGOS DIÁRIOS DO PALAVRAS AO POSTE! 

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

*  O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s