Home
Nina De Chiffre beija a viseira do capacete de agente italiano, 16 de Dezembro 2013 (AFP/Marco Bertorello)

Nina De Chiffre beija a viseira do capacete de agente italiano, 16 de Dezembro 2013 (AFP/Marco Bertorello)

Esta semana, um sindicato da Polícia italiana, o COISP (COordinamento per l’Indipendenza Sindacale delle forze di Polizia) formalizou uma queixa, na procuradoria de Turim, contra uma jovem italiana de 20 anos, Nina De Chiffre, que, no mês passado, beijara o capacete de um agente da polícia de choque durante uma manifestação contra a construção de uma linha férrea na zona de Milão.

O Presidente do COISP indignou-se, afirmando que, se tivesse sido o polícia a beijar a manifestante, estalaria a Terceira Guerra Mundial. Tem razão, e seria talvez bom que assim fosse, que ela estalasse com o ribombar de mísseis sobre as colinas, a selvajaria do napalm natalício iluminando a galáxia e os flares em aurora boreal. Se o argumento do polícia fardado serve à corporação quando chega o momento de pôr de parte as suas convicções e assestar umas boas porretadas na turbamulta, com quem a polícia, aliás, concorda sempre, mas o cidadão tem de compreender que o papel da polícia é, afinal, esse, o de contrariar o público para manter essa ordem também pública, mas a que o cidadão por vezes se furta. Ai!, furto! Isso também é connosco, e no manual diz que é para reprimir a cacetete. A coerência deve ser mantida, e o polícia está então também impedido de beijar quem quer que seja, independentemente de querer ou não ser beijado. Porque o polícia tem responsabilidade que o cidadão não têm. Porque essa liberdade de acção é um privilégio do cidadão.

Aqui há poucas semanas, escrevi também sobre os Voina, grupo de artistas e activistas russos, célebres pela corajosa loucura dos seus actos, desafiando governo, polícia, exército, e mais ou menos todos aqueles com quem não concordam. Referi, na altura, uma acção da sua facção moscovita, na qual Nadezhda Tolokonnikova (Pussy Riot) e outras mulheres do grupo se dedicavam a encontrar mulheres-polícia e a espetar-lhes um febril beijo nos lábios. As rígidas e invernais agentes da Politsiya nada podiam fazer ante o inesperado e agudo romantismo ficcionado das activistas. Porque os beijos são assim mesmo, e podem surgir quando menos se espera. O bom de um beijo num polícia é que não há forma de o reprimir – até porque, ensina-nos o caso italiano, beijar lábios ou a viseira de um capacete dá igual: um beijo numa muralha continua a ser um beijo naquilo que não está lá para ser beijado, e isso tem ao menos o condão de começar a desarmar a lógica entrincheirada nos antagonismos mais básicos, de começar a fazer ruir o castelo de preparativos e aparências, de esquemas de acção a priori definidos. Um beijo rompe sempre com tudo até então. Mas ainda em face do caso — ou do casco — italiano, daqui em diante mais vale ter cuidado. Quando soprarem um beijo pelo ar, vejam se não há polícias por perto, não vá um súbito capricho do vento atirar esses lábios diáfanos contra a cara de um polícia e encontrarem-se sentados no banco dos réus quando menos derem por isso. Numa manifestação ou num quarto de hotel, apontem bem um beijo ao vosso alvo.

Embora me alegre o tom em que vou escrevendo estas linhas, tudo isto me entristece assinalavelmente, e os nossos fratelli da península seguinte desiludem-me grandemente. Quando até na Bella Italia, das belle ragazze e dos uomini eleganti, um rapaz já não quer um beijo de uma rapariga, nem sequer na viseira do seu capacete, é sinal de que a tropa – a fardada é aqui literal e metonímica – já está num sítio muito distante disto, já nada quer ter a ver com essa coisa da vida que vai subsistindo, livre, sobrevivendo aos códigos e regras e modelos de conduta que se procuram insinuar sobre cada passo, cada movimento do corpo ao respirar. O problema, aqui, é que mesmo esses que já se encontram fora de tudo isto ainda mantêm aqui corpo presente, talvez apenas pelos benefícios que lhe traz o plano de saúde da corporação para quem tem domicílio corpóreo do lado de cá da realidade. Não fosse isso e creio que vogariam agora, de corpo ababelado, membros esparsos, divergindo como tentáculos de polvo, no espaço sideral onde os sentidos já lhes ganham em altura e ultrapassam na distância, nessa fuga apressada, de flashes tracejados em direcção ao infinito vácuo onde a racionalidade, assim como o som de um protesto ou da voz com timbre de honestidade se tornaram impossíveis. La vita non è più bella.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s