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Anseio, com a mesma intensa urgência dos meus tempos de menino, a abolição dos marcos. Desejo avidamente a morte das delimitações, das estremas, das fronteiras, das datas, dos limites que separam e dos nomes que predefinem. E sonho, acordado, com o sonho de me imaginar dispersado, abrangente ilimitado, que nem praia de areia solta sarabandeando ao sabor do vento, inane e suspirador sopro de fim de mim, seminação do meu eco nos outros e da vida que por nós corre igual. Que não tem dono ou moral, espartilho de género ou capitania paranormal: a vida é mais que nós, e dentro dela somos parte. Mesclada, reciclada, ressuscitada pela Natureza, morta e viva pela beleza da viagem, da fruição da passagem – viver será verbo transitivo, adjectivo passageiro que alberga em si o substantivo de nos sermos por inteiro. Passageiros, mutáveis voláteis, folhas de branco pardo prontas a serem escrevinhadas com a vida devida história, sem etapas nem baptismos, sem rituais nem determinismos. Anseio por uma vida orfã de deuses e carnaval, bastarda de pai e mãe desse enforcamento pelo cordão umbilical, deserta de gente auto-intitulada, enterrada dos mortos-vivos que por fim se iriam a desterrar enterrando, a fundo, na cova de uma noite esquecida num qualquer baldio interregno.

Sou levado a imaginar que seriamos, nós, outra gente de envergadura diferente, se à nossa axiologia estrutural subtraíssemos o limite. A demarcação, a classificação, a catalogação. A hierarquia, a sistematização, a religião – mas como elucubrar um mundo assim? Uma resposta possível seria, tão simplesmente, o apelo à inversão do sentido. Em pleno século XXI, na dita «era da informação» e da «abolição de fronteiras», a nossa realidade não poderia ser mais distante da que nos é comercializada pela papagueação infinita da global comunicação, obstinada e cínica, plena de ruído desinformado e omnipresente mente atenta à nossa desatenção. Aprendemos a catalogar a vida, a filtrar a sua fruição através do medium conselheiro da unanimidade consumista, aceitamos a «sugestão» da filosofia onírico-capitalista sobre como guiar os nossos destinos, submetemo-nos à estratificação etária, monetária, étnica, numeral fraccionária, de soma nula e divisão binária – bom e mau, Deus e o Diabo, verdade e mentira, moral e vergonha, preto e branco, rico e pobre, amor e ódio. Vivemos consumindo deixando de viver para nos anularmos de ser, e vamos assim, indo, rumo a ninguém, cada vez mais isolados nos casulosos ipods do egocentrismo «selfie» que concebe a imagem vazia de um antropocentrismo insolente e despropositado. Tornámo-nos na extensão da técnica que usámos para submeter uns e outros: fomos engolidos pela mensagem subliminar da publicidade que substituiu o céu com «billboards» de idolatrias toscas, fomos sorvidos pelo turbilhão ganancioso do viciado sonho capitalista, fomos militarizados pelo ímpeto geo-estratégico, afundados na burocracia da complexidão funcional, automatizados pela robótica repetição de tarefas e envenenados pela podridão ambiental que insistimos em criar.

Seccionados, fragmentados nos nossos lugares, nomeados e renomeados até à exaustão da sumidade intelectual, da anulação subjectiva da nossa afirmação conjunta, assim vivemos, respondendo ao nome e ao sobrenome da herança, sendo a profissão e a obrigação, vivendo para simplesmente sobreviver, lutando para ter outro amanhã onde voltar a lutar, sem sair do lugar. Somos prisioneiros da arquitectura da vã ganância, do frenesi hiperactivo do consumo, do lugar e hora marcados para ser aquilo que os outros querem que sejamos. Talvez o caminho seja, tal como imagino, inverso a tudo o que temos feito até até aqui enquanto sociedade, comunidade, colectivo. Talvez o caminho se faça no sentido da abstracção total, da erosão da mecanização da vida, da abolição de fronteiras (físicas, morais, políticas…), da destruição do egocentrismo primário e do abandono de uma filosofia que apenas contempla a individuação forçada do sujeito emancipado, que se posiciona perante a sociedade munido do pavor de se provar valioso, ou desintegrando-se tentando. Hoje é dia de Natal, data que também eu abolia, riscando do mapa da lembrança – tamanha é a minha vontade de chorar os pobres, os aflitos, os indigentes, os esfomeados, as vítimas da guerra, os doentes, os necessitados. Tamanha é a minha vontade de matar a vergonha que sinto em ser deste tempo de gente, onde nunca me poderia sentir adaptado, ajustado, consolidado. É tempo de cortar caminho e virar o destino.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

*O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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