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O Natal acaba por ser uma festa de opulência, uma espécie de evento onde celebramos o sucesso da nossa civilização, a vitória da abundância, a nossa emancipação da natureza, potlatch tendencialmente mundial em que as famílias se unem para mostrar que funcionam, que o grupo se reconhece e mantém, e onde os manjares e as prendas se multiplicam e digladiam pelo nosso apetite e atenção.

Pela nossa parte, fazemos o que é esperado, e no vaivém entre a mesa dos doces, a cozinha feita assembleia de cozinheiros e a mesa da consoada − e depois de almoço −, vamos debicando broas e filhós, petiscando azevias e fatias douradas, desfiando o bacalhau e enchendo o prato de couves e brócolos e azeite e um ovo que faça par com uma senhorial batata, para que tudo dê depois lugar ao arroz-doce e à aletria, a uma tábua de queijos e a tudo o mais que por todas as mesas se vai amontoando até à garfada final. Provamos um pouco de tudo, repetimos aquilo de que mais gostamos, e assim vamos andando, acompanhados por um alentejano tinto que fica bem com tudo, até ao enfartamento ulterior. Os anúncios entre os filmes do Natal dedicado às crianças são já endereçados aos adultos: digestivos, eupépticos contra a azia e o estômago pesado, a acidez e a má-disposição do ventre, os sais-de-frutos e a água das pedras.

Os dias seguintes, sabemo-lo, são geralmente feitos de maior moderação estomacal, ou pelo menos do seu projecto, até porque o fim-de-ano está já aí e a história parece próxima da repetição. Depois dos sete dias a correr para as catedrais do consumo, os próximos sete serão feitos de corrida nas passadeiras das basílicas do hedonismo corporal, ou pelo jogging, religioso ritual praticado a céu aberto.

Jean Baudrillard via o jogging como uma espécie de suicídio, e os joggers como “Santos dos Últimos Dias”, mais precisamente, anunciando o apocalipse pelo sacrifício da energia, a servidão sem senhor, despropositada do corpo no vazio esforço vão que anseia por evitar a sua falha, a fatal doença que mais tarde ou mais cedo o debela e que se converteu em medo pânico e paranóia. O exercício não é o prazer, mas a submissão do corpo à mortalidade de que procura fugir, a exaltação da sua inutilidade. E conquanto a imagem do jogger ou do indivíduo acorrentado às máquinas físicas do ginásio como se entregue a poderosos e intrincados mecanismos de tortura possa ser prova de loucura, sinal de excitada alienação, essa destruição do corpo pela exaustão, essa desconsideração pela energia e desprezo pelo corpo pode também ser prova de vida, feito de liberdade, emancipação de uma sociedade fronteiriça onde tudo é cada vez mais compartimentado e mandatório, regido por normas judiciais ou éticas, de costume ou função.

A notícia entrou-me hoje pelos olhos, assim: «Aparelho transforma corrida em energia para carregar um telemóvel». Óbvia como sol quente no Verão, necessária e previsível. Já nem a corrida pela corrida é possível, e a alienação, daqui em diante, já não terá mais lugar enquanto tal. O mesmo é dizer que o corpo não mais poderá renunciar a si. Isso que a sociedade criou, chegada a este momento do tudo dado, do tempo moldado a nós, dos espaços da nossa acção tomando a forma que nos é conveniente, das feições da vida de conluio com o nosso conforto, não o será mais. A sociedade apropria-se de tudo, tudo transforma para, sem espinhos, o integrar em si. O corpo pode até destruir-se; nada o impedirá, mas mesmo a sua morte será agora produtiva, e a sua força nunca inútil, nunca em vão, sempre reaproveitada. Porque o corpo já não pertence ao corpo, mas à necessidade produtiva do sistema que está nos aparatos em torno de si. O corpo não é mais o modelo, mas a máquina no seu lugar. E a máquina nunca se farta nem enfarta.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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