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A humanidade é atravessada por valores e teorias que acabam quase por ser alheias ao controlo do indivíduo. Criações e ímpetos que parecem colar-se no infinito de cada um como setas rasantes das quais o nosso corpo tenta, em vão, esquivar-se. A diversidade e constante multiplicidade deste género de situações faz com que o nosso comportamento seja automaticamente modelado para determinadas reacções que nem sempre – se analisadas friamente – são as mais correctas. A capacidade de pensamento e auto-reflexão é nestes momentos vital para que não nos deixemos embalar pela força das ondas e dos apelos baratos provenientes do “sentimento” arrastado da multidão. Uma opção de massas acaba normalmente por se tornar vazia e opaca. Na grande maioria das vezes não espelha mais do que um cúmplice sentimento de culpa.

Vem isto a propósito de uma espécie de ritual que a sociedade trata de velar àqueles que partiram: um sentimento generalizado de culto dos mortos. O individuo que em vida até poderia ser bem visto e bem querido pelo mundo que o envolvia, muitas vezes não teve a devida compreensão desse meio. Outras – na grande maioria – não foi tratado como merecia e o afecto que os seus lhe tinham nunca foi lhe foi literalmente transmitido. A vida é assim e cada um expressa-se e comporta-se de acordo com os valores que possui e com a mentalidade que adquiriu ao longo do seu caminho. Contudo é inegável que na globalização que vivemos isto ocorre com grande frequência: em vida, a maioria dos sujeitos acabam por ser vulgarizados, independentemente das suas qualidades e conquistas.

Esta banalização do sujeito ocorre se comparado com aquilo que o mundo dos mortos lhe reserva: juras de amor eterno, lembranças frequentes e elogios de boca cheia – feitos por quem fica. Podemos viver uma vida ignorando o outro, massacrando o seu ego e desprezando as suas valências que no momento da morte cá estaremos para louvar tudo aquilo que em vida não soubemos expressar e reconhecer. É este um dos males do nosso tempo: o estúpido culto dos mortos – depois de morto aos olhos do Homem nenhum individuo consegue mudar o rumo da sua história, mas a verdade é que a forma como a sociedade o analisa é muito mais complacente e simpática após a travessia.

A proveniência deste culto tem quase sempre a mesma génese: remorso, culpa, dor e um travo amargo de impotência. Este frenesim social que nos leva a idolatrar os mortos, também contribui para a santificação daqueles que partiram – mesmo que em terra até fossem mais demónios. Este rito tem duas faces: a de transformar injustamente réus em inocentes e de tornar  os esquecidos em vida nos mortos mais queridos e recordados. As lembranças e afectos de quem foi grande em vida, na morte só soam bem se tiverem sido honestamente transmitidas durante o seu ciclo existência física. Trata-se de uma questão de lealdade e coerência, até para que quem parta vá ciente da importância e da marca que deixou em terra.

A santificação dos pecadores e o amor repentino pelos que em vida foram mal-amados não merece o respeito de ninguém. Talvez pena, pela noção de que em todo o ser humano reside uma consciência. Em época de mudar de ano, é importante mudar de mentalidades e não sendo propriamente fácil alterar o que descrevo, admitir a existência destas correlações é um passo gigantesco para formatar esta transformação. Que nos importemos mais uns com os outros e tenhamos em vida as acções e atitudes que os nossos merecem antes de partir. Que não santifiquemos quem em vida pouco ou nada valeu. Que se cultivem os vivos e não esperemos a morte para descobrir qualidades nos homens. Depois que passam para o outro lado, beatificá-los é uma atitude deprimente que não louva quem partiu e exclusivamente serve para redimir-nos da nossa culpa. Hoje em dia, em cada viajante, há um santo ou um herói e acaba por ser melhor estar morto que vivo.

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SONY DSCBruno Gomes

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One thought on “O Estúpido Culto dos Mortos

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