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Estar no tempo já foi a enterrar. Com pretéritos e gerúndios, verbos e prenúncios e os sexos milésimos de um segundo – tudo no metro quadrado de um entretanto. O tempo demora mais nos mortos quando a saudade pariu um pranto. Tudo já fora, outrora. Na única conjugação de que nos recordamos, naquele dia em que as palavras ditas soletravam o advento da matéria, em que «amor» era amor e um «beijo» o seu simultâneo e o destino uma fronteira suspensa daquele imediato eterno. Outrora é onde me vejo. Estanque, no presente pretérito de um dia que há-de vir. Que por mim se adentrará em rubores e nevoeiros, pulos de alma e reflexos de um homem inteiro – tudo o resto são dias de uma completa soma de dividir. E mesmo os mortos esperam, condicionais, o seu passado: «será amanhã?» – todo o tempo é um desespero. Todo o nascimento já é nostálgico, toda a morte um enfado de augúrio, toda a vida um estilhaço de saudade fúnebre, que até os vivos sentem ter morrido algures na ausência de seu tempo verbal. Existir é estar morto por ser real, esperando a própria saudade no engano, sempre presente, de um outrora que há-de vir – estamos mortos até prova em contrário.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

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