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1545838_10151905771310892_692168137_nRegressando a Lisboa depois do retiro próprio do fim-de-ano, agarrado ao volante do invólucro automobilizado, sovado pela chuva como se as nuvens não pudessem suportar a permanência do carro sobre o alcatrão ensopado, e incapaz de destrinçar as feições da estrada lá adiante, submergindo-se a sinalização e o chão no nevoeiro cerrado, ocorreu-me — fácil, de resto –, aquilo que se arquiva sob a espessidão do calendário. 

O ano findou chuvoso, o novo ano chuvoso vai permanecendo, como se as ocorrências climáticas nos quisessem recordar de que entre um ano e o outro não vai senão a matemática da agenda dos Homens, pois que os dias e as estações permanecem circulares, renovando-se, enquanto que nós, deste lado da vida, seguimos lineares, encarreirados nas casas brancas do calendário. Como se a chuva perene pudesse lembrar-nos de que as passas não chegam, e que as resoluções próprias da época tendem a fenecer antes que o frio dê lugar à Primavera e os ramos despidos se preencham novamente de folhas. Talvez o segredo esteja aí. De alguma forma, os corpos despidos sempre foram mais aptos no escolher e vestir dos desejos que os enformam. O Natal e o fim-de-ano estão muito bem, mas há no ano mais 362 ou 363 dias capazes de ser cenário perfeito para que o pano das nossas mentes se abra e traga à cena dos nossos olhos, ao palco e superfície de nós, essa performance da nossa existência emancipada, o exercício das nossas escolhas livres, nos rostos do intelecto honesto, atento, aguerrido, animado, humano.

O tempo pode até ser cíclico, as movimentações da Natureza rituais, inescapáveis, necessárias e autónomas. Tudo o resto depende de cada um de nós e dessa massa, mais informe do que menos na insalubre maioria das vezes, que somos, e, melhor, que nos fazemos. Façamo-nos, então, a gente que somos nos sonhos que temos e nos desejos que deglutimos às dozes badaladas, e 2014 poderá, então, principiar a ser esse ano feliz, excelente, melhor do que o anterior — ao menos –, com muita saúdinha, que é isso que importa, e algum dinheiro, que também faz falta e nunca aleijou ninguém, ah!, e se der, amor e alegria, que só isso que levamos connosco. Tudo isso está muito bem, mas fica-me na ideia de que preferiria que começássemos por ser, no dia-a-dia, e em tudo aquilo que directamente depende de nós, gente mais consciente e pensante, mais inquiridora e honesta, interessante e interessada. A eficácia dos desejos morre com as passas passando a epiglote, afogadas no champagne que borbulha pelo esófago. Daí em diante, os desejos internados no estômago devem ter reflexo à superfície do corpo, no animar dos membros, na produção das suas acções.

Hugo desenho 4sc2

Hugo Picado de Almeida

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