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2014 começou sem que eu até agora tenha percebido o que mudou do meu dia de ontem para o dia de hoje. O que é que muda de um ano para o outro? Como é que eu saberia, se tivesse ido a Marte de férias por uma semana, que 2013 acabou e 2014 (acabou) de começar?

Não há nada à minha volta que me convença de que estamos efectivamente em 2014, absolutamente nada. Nem os calendários com os bombeiros de Setúbal, em poses sensuais. Tudo permanece igual, nada se vislumbra de diferente. O tempo continua horrível, tal e qual como estava em 2013. Chove e faz um frio de rachar na mesma proporção de exagero com que nós, portugueses, o dizíamos no suposto ano transacto. Nos metros e nos comboios continuam-se a ostentar casacões e sobretudos enquanto se soa em bica e se partilham odores de queijos mal cheirosos nas carruagens.

Lembrei-me de ir checkar os centros comerciais à caça dos saldos, para confirmar que virámos mesmo o ano. Mas nada, muitos anúncios e promoções de 50 e 70%, mas S’s que é bom nem vê-los. Zero oportunidades e bons preços. Quem me diz que isto não é tudo uma tanga? No Colombo, por exemplo, a Primark continua a ser a prova viva de que nem só de ciganos vivem as feiras, com ou sem saldos.

Continuando, em Lisboa persiste um cheiro nauseabundo a lixo e a cocó, com esgotos e comida podre pelo meio. Os contentores que se acumulam nas ruas continuam a ser enchutados de uns para outros, como quem pensa “tudo bem que isto é greve e temos de levar com isto, mas à minha porta é que o lixo não fica”. De caixote em caixote despejado à toa, mais sentido vai fazendo o verso “cheira bem, cheira a Lisboa”. Em São Bento, continua a morar Pedro Passos Coelho, e em Belém Aníbal Cavaco Silva. E nas esplanadas e cafés, assiste-se à casa dos segredos da política portuguesa com a mesma indiferença social de há uns dias atrás – “Isto está bom é para estes”, murmuram os infelizes espectadores, num desabafo que tem tanto de indignação como de passividade. Nada de novo, portanto.

Cada vez mais céptico, decidi dar uma olhadela pelas bancas dos jornais. E aí então é que fiquei ainda mais convencido de que continuamos em 2013. A Cristina Ferreira continua a lembrar-nos todos os dias que é uma mulher de sucesso à procura de namorado;  a Bárbara Guimarães continua a levar pancada do Carrilho, e por fim até o Sporting continua no primeiro lugar do campeonato, apesar dos roubos semanais dos homens do apito. Por fim, Luís Filipe Vieira pronunciou pela 1.9999999 ° vez as palavras “formação” e “portugueses”.

Dizem-me para dar um giro e sentir o pulso aos euros, porque de 31 para 1 a carteira fica sempre mais vazia e a caixa do correio mais cheia de contas para pagar. E até faria sentido, se vivêssemos num país normal. Mas como os preços por aqui variam da noite para o dia, seja ou não 31 de Dezembro, isso acaba por não servir de prova.

Mas a propósito do giro, o que dei no suposto primeiro dia de 2014 fez-me uma vez mais acreditar de que a passagem de um ano para o outro de que falam não se deu. Um dos comboios que tentei apanhar há dois dias atrás foi suprimido, e na estação dos Restauradores falava-se em greve. Mostraram-me também, procurando persuadir-me de que 2013 já passou, a mensagem de Natal do nosso Primeiro-Ministro e a de fim de ano do nosso Presidente da República. Mais certo fiquei quando as vi, ao perceber que eram as do ano anterior. Ou não eram?

Dizem que as redes sociais são o barómetro do que se vai passando pelo Mundo. Portanto, se tivesse acontecido alguma coisa de diferente, por lá me daria conta dessa mudança. Mas não, por acaso não. Os meus amigos do facebook continuam a fazer as mesmas coisas que faziam em 2013: partilha de frases inspiradoras por uns, posts de fotos carregadas de efeitos vintage por outros, nada de particularmente diferente capaz de me fazer acreditar de que estamos em 2014.

Porque é suposto acontecerem coisas diferentes, certo? Corrigam-me se estiver errado, mas têm de haver mudanças para que nós intuitivamente nos apercebamos de que avançámos no tempo. Porque se nos fiássemos apenas nos papéis, ficaríamos sujeitos a que um furto internacional de calendários nos desmentisse a certeza indubitável do estado da passagem do tempo.

É por isso que eu não me fio e faço finca-pé a 2014. Até prova em contrário, cá por mim continuamos em 2013, com a mesma vida que tínhamos e que continuamos a ter. Para o bem e para o mal.

 

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André Cunha Oliveira

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