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Morreu Eusébio. Não, Eusébio não morre. O Pantera Negra deixou-nos fisicamente mas a sua memória continuará entre nós. Aquela figura atlética, aquela elegância à flor da relva. A minha triste sina de Benfiquista é essa: a de ver e conhecer Eusébio já com muita idade, já diminuído, afectado pelo sem-número de lesões que o perseguiram na sua carreira mas que raramente o conseguiram tirar de campo.

Para um Benfiquista, é desolador pensar que a sorte me reservou uma existência atrasada no tempo. Não vi Eusébio jogar, estive muito longe disso. Não festejei os inúmeros títulos nacionais e internacionais que o Benfica, comandado pelo Rei, conquistou, sobretudo na década de 60. Inveja. É isso que sinto sempre que ouço alguém falar-me de Eusébio, com aquele brilho nos olhos como se estivesse agora mesmo a ver o Pantera jogar ao vivo ou a ouvir o relato do Benfica na rádio. Eu só tenho alguns vídeos para assistir. Ainda assim, mais do que aqueles que conseguirei ver em toda a minha vida. Um dia, espero, poderei dizer que vi jogar Ronaldo “Fenómeno”, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo ou Ronaldinho. Que vi jogar a Geração de Ouro, com todo o esplendor de Figo, Rui Costa ou João Pinto. Na verdade, como amante de futebol e como Português, tenho poucas razões de queixa. Mas como Benfiquista, não ter visto Eusébio é uma perda irreparável.

Já o sabia, mas só agora pensei nisto com o cuidado que merece. Nestes dois últimos dias ficou evidente que sem Eusébio o Benfica não seria o que hoje conhecemos. Foi pelos pés do Pantera que o meu Clube se assumiu, incontestavelmente, como o maior do País e um dos maiores da Europa. Na época de estreia de Eusébio o Benfica conquistou a sua segunda Taça dos Clubes Campeões Europeus, revalidando o título conquistado um ano antes. E com Eusébio o Benfica chegou a mais três finais da maior competição europeia de clubes. Foram cinco finais em oito anos, quatro delas com Eusébio, com muito Eusébio. Se o Pantera Negra é, sem discussão, um dos melhores futebolistas da história do futebol mundial, é interessante pensar a que patamar seria elevado se o seu Benfica tivesse vencido essas cinco finais. E se, a juntar a isso, Portugal tivesse conseguido contornar a conveniente mudança de palco para a meia final do Mundial de 66, realizado em Inglaterra, que acabou por impedir o merecido descanso dos Magriços antes do duelo contra a anfitriã. E tivesse depois, claro, engenho para derrotar a RFA na final. Um Eusébio quatro vezes campeão europeu e campeão mundial com Portugal seria elevado a um outro nível. Talvez ao nível de Pelé e Maradona…

Em todo o mundo Eusébio foi recordado esta segunda-feira. E não foram meras notas de rodapé. Um pouco por todo o lado, o sorriso ou o pontapé inconfundível do Pantera foram puxados para as capas de diários, desportivos e generalistas. Televisões internacionais transmitiram momentos do funeral em directo. O mundo recordou-se dos feitos do Rei, da pérola moçambicana que um dia tornou o futebol mundial num duelo particular Eusébio-Pelé. E o mundo não se esquecerá dele. Eusébio também teve esse mérito. Foi o mais emblemático e mais reconhecido português do século XX, mesmo tendo o seu auge numa era sem internet ou redes sociais e com pouco acesso a televisões. Um Portugal fechado ao mundo não evitou o reconhecimento planetário da estrela encarnada. E, subitamente, os nomes de Portugal e de Eusébio confundiam-se. Como nunca antes se tinha visto. Como, provavelmente, nunca mais veremos.

A notícia da morte de Eusébio chocou. Mas não surpreendeu. As indicações de um estado de saúde cada vez mais frágil eram muitas. Partiu cedo demais. Porque tinha apenas 71 anos e porque as lendas nunca deveriam partir. Na memória fica o que fez dentro de campo, a humildade dos tempos de jogador e a gentileza para com os adversários. Não deve ser fácil chegar ao nível estratosférico que chegou sem que o comportamento dentro e fora de campo se alterasse. Os exemplos dos dias de hoje provam-no. Também o provam os maus exemplos dos tempos de Eusébio. Companheiros e rivais sempre se desfizeram em elogios à postura do Pantera Negra. Só assim se justifica o apreço que os adeptos rivais nutrem pela sua figura. E nem o aumento de auto-confiança e de exaltação dos seus feitos, tão típico das pessoas com mais idade que perdem o pudor, apaga da memória de quem realmente o conheceu aquela imagem de um entre muitos. De um comum mortal com um dom impressionante para os pontapés na bola. É essa imagem que deve ficar, de um Rei em plenas capacidades. Não pude apreciar os melhores momentos de Eusébio. Mas quem teve esse prazer diz que foi memorável. Eu acredito que sim. Descansa em Paz Rei. O futebol, o Benfica e Portugal ficam mais pobres sem ti. Long live the King!

«Havia nele a máxima tensão
Como um clássico ordenava a própria força
Sabia a contenção e era explosão
Não era só instinto era ciência
Magia e teoria já só prática
Havia nele a arte e a inteligência
Do puro e sua matemática
Buscava o golo mais que golo – só palavra
Abstracção ponto no espaço teorema
Despido do supérfluo rematava
E então não era golo – era poema.»
Manuel Alegre

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joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “Long live the King!

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