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Nas Filipinas, o povo busca matar a fome…por entre o lixo

Quando, na ainda imberbe essência adolescente, me disseram o que era a Economia, anuí, reverencial. Quando, jovem letrado aprendiz, me teorizaram a Economia, assenti, engolindo verbos postiços de ofertas que se procuravam e curvas que colavam lengalengas mofatras umas nas outras, taxas que se encavalitavam em divisões e outras tantas definições, cronometradas pelo sucinto dialecto da dita ciência, redoma de mundo que encerra destinos e transforma em forma alienígena tudo o que de fora fique da sua bolha de determinismo inelutável. A Economia, aprende o mundo enquanto gira, é o próprio mundo girando, gerúndio de acção se eternizando, ditando a gravidade das coisas e as leis de atracção à vida, tão estáveis quanto uma montanha russa que se vomita e se decora, para não mais se invectivar. A única certeza da Economia é que, de curva em contra-curva, de depressão em esquizofrenia, de desemprego em agonia, a Economia é que sabe – o resto é colateral, o resto são variáveis subjectivas de valor intemporal. Sem tempo para ser.

Aprendi que a Economia baseava os seus princípios na gestão racional dos escassos recursos disponíveis: essa foi, como é ainda hoje, a ignição de todo o arranque teórico da disciplina, que lecciona tal premissa como a filosofia que orienta a acção. Se assim é, que raio é a Economia afinal? É mentira – a Economia é tudo menos aquilo que se diz ser. A realidade fora da redoma conta-nos, vividamente, que a fantasia reina sobre a racionalidade ao invés, e que dentro deste casino global, a finança afiança o que não pode, distribui o que não há, gera o espontâneo e taxa o inqualificável. A premissa só poderá ser zombaria da grossa, ou então, falhanço mais descomunal não poderá existir: haverá modo de gerir, da forma mais irracional, hipócrita, gananciosa e ditatorial, a dita cuja, eminência Economia em si? A economia das sociedades, das comunidades, dos países e das empresas não pode ser somente um reflexo da tendência operacional – princípios exigem-se, à ética obriga-se, pois o respeito pela justa distribuição, pela dignidade da vida e pela igualdade de oportunidades requerem uma orientação cívica, política e social, crivada no dever de garantir uma sensata utilização e gestão dos recursos disponíveis, numa directa correlação com as necessidades das comunidades. Não me parece ser isso que acontece, de todo. A tal oikos nomos, que em grego significa «administração do lar», tornou-se, no volver dos séculos, num fenómeno envolvente que nos toca a todos, mundo real de gente, carne e osso e lágrimas, mas a Economia vigente, higienizada e genérica, apenas «estuda» o cenário económico como se de uma equipa de filmagem na selva se tratasse – o leão finca os dentes na presa e a corrente neo-liberal analisa como se, de facto, a gestão da coisa, quer seja privada quer seja pública, fosse uma acção decorrente de uma simples (e estupidamente mal interpretada) lei darwinista que faz imperar a besta predatória sobre a besta oprimida.

A Economia tem sido aquilo que o poder dela tem feito. Vazia de valores, desprovida de um autónomo senso de preservação moral colectiva, vê-se a si mesma avançar sobre as pessoas como se a inefabilidade dos algarismos escondesse um desígnio divino, impossível de traduzir em palavras. A actual vaga de normatividade austera é apenas um dos muitos vestígios da irracionalidade actuante da disciplina económica global, que decepa povos e transgride leis basilares do Estado de Direito sem desviar o terminante olhar da persecução do objectivo – tornar, ainda mais, a assimetria socio-económica mundial numa moldura totalitária que enquadre e encerre as nossas vidas num cenário de fundo macabro. Com os ricos cada vez mais ricos, os remediados cada vez mais miseráveis e os indigentes tornados milagre vivo da abjecta caridade assistencial relativizada, a Economia global vai desarranjando as relações entre agentes da sociedade, desequilibrando a integridade laboral, antagonizando classes e carcomendo os ideais democráticos que, já apodrecidos, se desvanecem na intenção doutros tempos, sem passado para relembrar, presente para ser ou futuro com que expectar. Tornada muleta do catálogo de chavões teóricos do capitalismo, a ciência económica esvaziou-se. Perdeu todo o seu propósito, devotou-se à prostituição da opacidade e deixou-se guiar pela mão invisível da ganância corporativa, cada vez mais despudorada. Entre créditos de mãos vazias, bancos intrujões, investimentos de roleta com dinheiros públicos, derivativos ilusórios, Credit Default Swaps, taxas de juro manipuladas, bolhas imobiliárias, dívidas soberanas e especulação bandida, a ciência económica é, em todas as suas variantes (onde se incluiu a economia financeira), aquilo que convém ao poder ser. Foi feita da banalização do crédito cego nas últimas três décadas, para agora passar a ser encarada como uma modalidade austera, anti-social e punitiva, onde não sobra espaço para o Estado Social nem para a equidade, nem para a Justiça, para a Educação ou para a Saúde. Foi feita da total desregulação do sector financeiro a partir da década de 70, desde os pioneiros EUA até à Europa – o mundo sofre e sofrerá as mazelas da megalomania industrial e corporativa, numa mentirosa purgação ensinada ao povo, com base na sua iliteracia financeira. Paga a miséria redentora o contribuinte do Estado, mas nunca os esbanjadores, especuladores, agiotas, bancos, conglomerados empresariais, seguradoras, financiadores e todos aqueles que se escondem por detrás da falta de cara da Economia global.

A história da Economia e da Finança é uma fraude sustentada na ganância do status quo, alimentada pela ambição irracional do lucro fácil e a todo o custo; uma história de lição parcial, moral insidiosa e aproveitamento contextual do oportunismo inerente a cada época; uma história global de exploração contínua, sustentada na miséria daqueles que se rebaixam, por necessidade, ao trabalho escravo ou tendencialmente escravo, à assimetria social induzida, ao roubo da dignidade e à negação de uma equidade própria de Estados de Direito; uma história de falsos estudos, folhas de Excel desbaratadas e postulados declaradamente trapaceiros, onde apenas as consequências miseráveis são reais. Em época de crise, Portugal viu os seus milionários tornarem-se ainda mais milionários, enquanto todo o resto empobrece vertiginosamente. Nos EUA, por exemplo, os 400 mais ricos do país possuem tanto, em proveitos e bens, quanto a metade mais pobre da população. Segundo uma análise da Global Wealth Equality, o 1% mais rico do planeta acumulou 43% da riqueza mundial, enquanto os 80% mais pobres apenas possuem, entre eles, 6% dessa riqueza. Aqui fica outro prisma da gestão racional dos escassos recursos disponíveis com intuito de suprir as necessidades das pessoas: as 300 pessoas mais ricas do mundo têm mais dinheiro que a parcela dos 3 biliões de pessoas mais pobres do planeta. Só pode ser gestão da boa, eficaz, justa, saudável, socialmente viável, meritória e sustentável.

A Economia é um álibi. Pior, um falso álibi. Como tudo aquilo que é oco e apenas esconde o móbil do crime. Desaprendam o que ouviram nas aulas. Estudem a vida, que a miséria é a maior curva que esta Economia (a de sempre!…) pode apresentar. É tempo de, das duas um: substituir a disciplina de Economia pela de Canibalismo Económico, ou começar a interrogar o propósito ético, social, moral e colectivo da necessidade de uma economia justa e sadia nas nossas vidas. Pelo progresso global e pelo ideal social: ora porque raio de caminho deverá seguir um mundo melhor? Por este não será certamente. É tempo de ensinarmos umas coisas à Economia. Lição número um: Quantos miseráveis são precisos para se produzir um milionário?

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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