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Não creio que haja racionalidade para a vida nem sentido no mundo. E não o critico por isso, e menos ainda lhe guardo rancor, pois que também eu sou um seu produto – subproduto, eventualmente − e não almejo a grandes significados. Ao menos além de mim. Nenhum bom fruto daí se colheria. Parece-me, sobretudo, que é preciso fazer um esforço e não dar demasiada importância a boa dose daquilo que existe. Primeiro, porque existem objectos e substâncias e imaterialidades a mais – prova de razão: quando o que não tem corpo existe em demasia, é preciso meter marcha-atrás e seguir a outra hipótese na bifurcação. Reformulemos: é preciso não dar a nada importância nenhuma, se disso formos capazes, para ser absolutamente franco. Será, ainda assim, avisado, imagino eu – e conquanto a experiência que me molda a essência – nunca ao contrário − me possa iludir −, proceder à cuidada selecção de um par de existências, referenciais atractivos que nos possam dizer algo – qualquer um serve; não há regras nem leis que o possam ditar ou meramente aconselhar, e muito menos se apresenta a possibilidade de errar a escolha: só os indivíduos, livres e conscientes de si, podem chegar à razão – e que nos permitam, assim, estar de conluio com a ficção universal – história de incontáveis capítulos e farsas, reproduzindo-se ao estilo de mise en abyme − que os Homens inventaram para si e que em consequência se recomendam.

Boris Vian, no prólogo ao seu célebre A Espuma dos Dias, começa por afirmar, muito oportunamente, que «na vida, o essencial é fazerem-se juízos a priori sobre tudo», e logo chega às únicas existências que de facto lhe importam: «só existem duas coisas: o amor de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington.» Se não mais, considere-se apenas, muito justamente, que Boris Vian era um homem de assinalável bom gosto. Tenho como dado, para mim, que o leitor nessa apreciação me acompanhará.

A escrita de Vian não nos deve assombrar pelos virtuosos desvarios do seu surrealismo desbragado. Essa será talvez a única – e melhor – maneira de o fazer. Digamos que a única que vale a pena. O contrário seria ruinoso, mera mimetização insalubre do mundo que já temos e que mormente sucede em fazer-nos praguejar, abanar a cabeça, ou encolher os ombros no jeito de quem condena. Não é de hoje, não é de ter acordado com os pés no Inverno para além das abrigadas fronteiras do cobertor repuxado, mas sempre fui desses eventuais idiotas que acham que a ficção tem muito mais para nos dar do que a realidade, ainda que a realidade também tenha as suas forças – não pretendo debatê-lo −, sobretudo quando se reveste daquilo que pouco real nos poderia parecer em trejeitos banais da consciência. A verdade é que sou ateu até ao fim do tabuleiro, e parece-me que a salvação não há-de vir senão pela ficção, assim como o sentido da vida. Afinal, nem uma nem outra hão-de nascer no horizonte. Os críticos fazem gala em afirmar A Espuma dos Dias como belíssimo exemplo de um universo absurdo. Belíssimo é-o, de facto, mas mais absurdo é amiúde o mundo antes da capa e depois da contracapa.

Haveria mais para dizer, e talvez fosse mesmo recomendável fazê-lo, mas reservo-me o direito de não precisar de dizer tudo. O leitor talvez não me admitisse, de resto, a sobranceria de não deixar espaços para que o próprio os pudesse preencher.

Resumindo, e regressando a A Espuma dos Dias, lembremo-nos de que Chloé teve mais sorte do que a maioria de nós. Coube-lhe morrer devido a um nenúfar no pulmão. Já ouvi falar de formas bem piores.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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