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Quando o empirismo da prática choca com o palavreado do enunciado, a posteridade comprova tudo. Quando aqui escrevi sobre a «amoral basófia de chavões», referindo-me à cerimónia fúnebre de Mandela como a ideal oportunidade para a «capitalização do gesto pesaroso», tinha como meu propósito retratar o extremo vazio discursivo que compôs a pomposidade exequial do ido Mandela, fidedignamente traduzida pelo esbracejar autómato de Jantije, tradutor de serviço especializado em balelas e galgas. Facto: quando são proferidas balelas e galgas, balelas e galgas serão traduzidas enquanto tais. Foi o que Jantije, num delírio divinamente intervencionado, fez. E, assuma-se: para bem do fenómeno comunicacional, felizmente que o fez.

No cortejo parafrasta do ícone sul-africano, só foi melindrado quem quis: quem escutou os discursos dos líderes mundiais foi enrolado na coberta da mentira, mas quem prestou atenção ao carrossel de movimentos que Antije delineou a braços no ar, percebeu, sem ruído, o que ali estava em questão – fingimento, dissimulação, chorrillho de verbos de enchimento e auto-afirmação. Todos dançando a bamboleante aldrabice como se de um «swing» fúnebre se tratasse, ritmando a cadência da mentira bem em cima da memória do falecido, homem antítese de tudo aquilo que se fez questão de erguer para celebrar a sua partida. À data do artigo que sobre isto redigi, não deixei o Abominável Cavaco das Neves de fora, mas fiz um compasso de espera, à espera, do primeiro charlatão a não ter o mínimo de pudor em contrariar tudo o que dissera sobre o histórico Mandela, materializando, por fim, o golpe de estado lutuoso que enganou os mundinhos desatentos: Goodluck Jonathan, presidente da Nigéria, proferiu estas palavras aquando do desaparecimento de Mandela: «Sentirão muita falta dele os que querem o amor, a paz e a liberdade no mundo todo, e será eternamente honrado por sua imensa contribuição ao desmantelamento da política do apartheid, um dos regimes mais odiosos cuja filosofia fundamental era a degradação do homem». Mas o ladino do Goodluck não se contentou com uma intrujice, teve de requintar a sua actuação ainda mais, afirmando que o líder sul-africano se destacou pela «luta épica pela liberdade, justiça, igualdade e direitos humanos dos oprimidos». Uma autêntica pérola de África este Goodluck, que a 6 de Dezembro exaltava com os ímpetos fraternos de Nelson Mandela, dando salvas à memória de alguém que se debateu pela sempre tão bem cotada «igualdade», substantivo tão caro à elite africana (neste caso particular). Mês e meio depois, o mesmo Goodluck promulgou uma lei que criminaliza a homossexualidade, ilegalizando assim qualquer tipo de relação entre pessoas do mesmo sexo e proibindo a livre escolha amorosa e relacional, pretexto legal que abre caminho à total ditadura do preconceito, onde o Estado «father knows best» regula e normativiza a vida privada de cada um, discriminando as opções dos cidadãos.

A lei nigeriana passa assim a discriminar, criminalizando, a legalidade das relações entre pessoas. O Estado nigeriano passará a julgar os seus cidadãos quanto ao seu estilo de vida, quanto às suas preferências sexuais, amorosas ou meramente sociais, jogando medo pela sociedade e reforçando o paternalismo bacoco, cego e preconceituoso que teima em germinar em terras feitas de instrução nula, pobreza disseminada e assimetrias estruturais que parecem irreversíveis. A mentira de Goodluck teve perna curta e quem o ouviu (em vez de prestar douta atenção aos acenos bailadeiros de Jantije) não pode ter curta a memória, sob pena de se deixar escapulir por entre as fendas da verdade encapotada um ditador homofóbico que pretende agravar a regressão do seu país, tornando-o escravo de um fascismo social celebrado pela lei. Querer legalizar a criminalização da homofobia é acto falhado que não pode acertar: é altura da comunidade global entender que estas tentativas de criar bodes expiatórios são meras formas de desviar a atenção dos problemas reais dos países, virando baterias para assuntos que de assunto publico nada têm. A Nigéria, um país pobre e feito de pequenas elites excerbadas, continua a encontrar nas balelas formas de manter a sua população dividida, desatenta, alienada em tópicos de conversação inúteis, onde não figuram as reais resoluções para os problemas do país.

Goodluck, além de falsário e fala-barato, é homofóbico. Além de querer manchar a memória dos grandes com frases de gente pequena, também não tem, seja para o bem ou para o mal, uma só cara institucional. Mas Goodluck é, para além destes títulos, o retrato, ainda persistente, das gentinhas deste mundo que, infelizes com a sua inexistência intelectual e sexual, presas às amarras das bafientas religiões púdicas, adoram flagelar as opções privadas dos outros, retirando daí o prazer negado, perpetrando-se em orgasmos perniciosos e silenciosos, bem mais monstruosos que qualquer monstruosidade que suas cabeças possam adjudicar às fantasias doutrem. Goodluck e o seu governo, como qualquer outro homofóbico, é um pervertido sócio-sexual a precisar de saltar fora do armário.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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