Home

A política dos tempos e o tempo dos dias às vezes roubam-me o vagar para parar, reflectir e escrever algo com substância. Mas isso não me parece necessariamente mau, até porque a política talvez não mereça que lhe dediquemos muito mais do que o estritamente necessário, mais a mais quando a política, aqui, vai sendo feita nos termos desse contrato rasgado, mas sempre em vigor, como se do Braveheart manejando a espada através dos campos e montanhas da Escócia se tratasse. Faça-me o leitor — ou a leitora –, o favor de me acompanhar num pequeno desvario que, se nada de útil produzir, poderá ao menos ajudar a passar um pouco do dia, e isso já não é prazer a descartar.

Li há tempos um livro de Horace McCoy, Os Cavalos Também se Abatem, que gira em torno de um tresloucado evento: reunião onde uma boa centena de pares se entrega a uma diabólica maratona de dança, de onde vão sendo eliminados ao caírem mortos de exaustão, na tentativa de sobreviver ao carrossel dantesco animado pelos risos e aplausos de uma multidão quase demente.

Os pares dançam no limite das suas forças, durante semanas a fio, parando apenas por um punhado de minutos ao fim de um horror de horas para um lanche rápido, para um fechar de olhos momentâneo ou, às vezes, apenas para reformar os sapatos rotos.

E as regras vão endurecendo à medida que a maratona vai avançando, novos jogos vão sendo criados, animados pelo capitalismo febril e excitado do dono do concurso, que promete sempre maiores recompensas àqueles que mais perto do esgotamento se colocarem, tudo em nome do público e do encanto dos gladiadores em paso doble.

Pus-me, então, a pensar se não se poderia aproveitar a grande sala da Assembleia da República, esvaziá-la de estrados e de púlpitos e de cadeiras, e pôr os políticos a dançar pelo interior do perímetro da sala, para gáudio da populaça batendo palmas estrepitosas nas galerias. Ficaria talvez menos colérica a excelentíssima Presidente da Assembleia, até porque, sejamos claros, haveria de estar a rodopiar, frenética, ao som da Rumba, do Lindy Hop ou de um Merengue merengado nos passos dengosos da fraca figura que é.

Espero que não me censure o estimado leitor ou a querida leitra, mas quando a retórica se torna vazia e dança em torno de si mesma, o melhor é pôr os corpos em rápida rotação, para que as bocas se calem e a cabeça se dispa de tudo quanto é acessório.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s