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Ao desabrochar dos primeiros dentinhos, sai a primeira fatia de presunto e o primeiro naco de carne para o recém-nascido lusitano com propensão para a obesidade, fatalmente. Se nas primeiras semanas  a dieta resume-se a entupir a criança com o leite materno ou com papas a torto e a direito, com o passar do tempo e o desenvolvimento da dentição chega-se ao chamado período das sopas e das carnes.

Quem nunca notou que os bebés portugueses são mais gordinhos? Os papás gostam, de facto, de ver os seus rebentos com as bochechas rosadinhas e ligeiramente inchadas. Encarregam-se de os ir engordando logo desde as primeiras horas de vida, o que – pelo menos nesta fase – até acaba por ser compreensível. O problema vem depois. Assim que o bebé se densenvolve, surge uma absoluta necessidade de o querer ver a tornar-se numa Simara em potência, tal é o nível de fragilidade que associam à criança, e o receio pela sua integridade física.

Com isso, começam então a atulhá-la com todo o tipo de comida, quase como se estivessem a alimentar o tamagothi cujo fim da última vida pode ditar o fim do aparelho. O pai, regra geral, é o primeiro a desafiar as leis da física e a botar lá para dentro os primeiros pedaços de carninha, mole ou dura, gordurosa ou não. Mais pela graça do que por outra coisa qualquer, não há nada como ver o filho recém-nascido atrapalhado a tentar engolir uma banha que ainda não consegue mastigar.

As mães seguem depois o caminho, mas aqui mais pela tal ânsia de ver o bebé a ganhar forma e abandonar definitivamente a aparência de uma criatura frágil e indefesa. Influencidas pelas avós, sempre elas, as mães acabam sempre por se sentir tentadas a dar mais “qualquer coisinha ao menino” que não “apenas” as rações escrupulosamente recomendadas pelos médicos.

«O menino está com fome», insistem as “experientes” senhoras, repetindo duas e três vezes a mesma frase, tantas quanto sejam necessárias para convencer a mãe de que efectivamente a criança já “trincava qualquer coisa”. Afinal de contas, elas já foram mães de um par deles, são avós com conhecimento de causa e mérito reconhecido, pelo que sabem do que falam.

A lavagem cerebral das avós leva depois ao convencimento materno de que o bebé está muito magrinho e com grandes crises de choro, agora explicadas pelas doses reduzidas prescritas pelos senhores doutores. Na realidade, as crianças estão bem de saúde e quase sempre até têm peso a mais, demasiado até, mas a mãe já não vê mais nada à frente que não sejam pacotes de bolacha maria, iogurtes carregados de açúcar e carninha cortadinha e moidinha para o menino, que ainda não tem dentes. É como quando a Valentina Torres fazia crer às pessoas de que estava 30 ou 40 kgs mais magra, quando continuava Objectivamente Obesa. «Ela pôs uma banda gástrica e está muito mais magra, talvez mais até de que o Armando…». Mentira.

Chegamos então à fase dos iogurtes super calóricos, das bolachas que a partir de determinada altura são comidas quase como se de um copo de água se tratasse e às sopinhas de repolho e pedaços de frango metidos lá para dentro. «Dá só um bocadinho à menina, coitadinha» – dizem outra vez as avós, que têm forçosamente que levar aqui com as culpas no cartório. Desde cedo as crianças são habituadas a consumir elevadas quantidades de gordura e açúcar, de tal maneira que quando crescem são incapazes de resistir à mínima dose de sacarose. De resto, é política dos papás portugueses premiar a ingestão da “carninha” com um docinho no final, a tal recompensa, o tal prémio, que em vez de ser evitado é celebrado e oferecido.

Quando a criança cresce, ela é depois instruída, à boa maneira portuguesa, a comer o que de pior pode haver naquele prato. «Vá, podes deixar o arroz e os legumes mas a carninha tem de ir toda» (e no final vem o gelado). Sim, o próprio uso do diminutivo, outro hábito tão português, é mais uma arma pedagógica perversa das mamãs e das avós lusitanas, que por trás de uma palavra tão fofinha e pequenina escondem uma quantidade incrível de gorduras e calorias capazes de tornar um bebé com alguns meses de idade numa criança de três, ou quatro anos. Quem não se recorda do filho de Cristiano Ronaldo, quase acabado de nascer, sentado ao colo da Mãe Dolores, nas bancadas do Bernabéu, e aparentando ser já um iniciado das escolinhas do Real Madrid?

Pois é, é da carninha. «Toma um pedacinho» aqui, «dá um bocadinho de chouriço ao menino» acolá, e quando menos se espera o bebé que há uns meses atrás cabia na palma de uma mão já está do tamanho do Walter Bigorna, um dos artilheiros do Brasileirão. Louve-se, a propósito, o esforço do antigo avançado do FC Porto em emagrecer, que ainda numa recente entrevista afirmou ser sua intenção “fechá a boca e começá a comê mais salada». Uma autêntica lição de nutrição do jogador do Cruzeiro aos pais portugueses.

E é aliás muito importante que os papás e as avós ouçam com muita atenção a mensagem do professor Walter. É preciso fechar a boca dos “bebês”, deixá-la longe das pernas de presunto e das sopas de cavalo cansado feitas em panelões. Isto se não quiserem ter um Bigorna um dia destes a rebolar lá por casa.

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André Cunha Oliveira

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