Home

Volvida a semana passada, finda a gincana lúdico-fascistóide dos partidos da governança, Portugal morreu mais um pouco. Empobrecido pela cegueira jogatana política, anulado nos seus princípios pela insídia parlamentar e envenenado pelo avassalador desrespeito universal dos direitos humanos, o pedinte pedante país do dignitário louvado Cristiano Ronaldo, acabou por, na Sexta-feira última, auto-mutilar a consciência colectiva da nação, cuspindo com toda a infâmia na cara da democracia. Avançando com a bola nos pés à mesma velocidade com que regride na condição de Estado de Direito, Portugal idolatra as ninharias e negligencia a justiça social, comove-se com as lágrimas do milionário enquanto se esquece do regular e fundamental funcionamento democrático, festeja os golos dos grandes enquanto, no país real que já derivou para longe de suas cabeças, os pobres engrossam fileiras, dormem com a chuva e com o frio, vêem, pela predominância da sua miséria, o malicioso Estado transmutar-se, oportunamente, num Estado assistencialista que afaga o desespero na cabeça, prometendo migalhas como salvação. Na passada Sexta-feira, completámos, enquanto nação, mais um atropelo a nós mesmos. Passámos a ser menos gente, menos homens e mulheres, mais bestas. Estamos quatro ou cinco almas de um totalitário país de bestas encartadas.

Peritos em frustrações colectivas, os portugueses, que com a elite política vêm compactuando para tornar Portugal numa congregação de prosaicos filhos da puta embrutecidos,  viram o parlamento traduzir a trágica imoralidade cívica e social num teatro vergonhoso que desfez por completo a cara da democracia, qual prostituição consciente anuente, onde a voz da vontade calou para dar lugar ao silêncio da disciplina da podridão. Total. Na votação da proposta de referendo sobre a adopção e co-adopção de casais do mesmo sexo, os deputados aceitaram sujeitar a plebiscito da maioria um direito essencial de uma minoria: abre-se o precedente do absolutismo até dentro da casa dos representantes do povo. É atirado para o desterro o respeito pelos direitos das minorias, obrigação consensual e basilar da ética, do dever jurídico e sócio-político de um Estado dito democrático, que não pode nem deve ser confundido com a demagógica lei popular emanada directamente do preconceito, da obtusidade e da prevalecente ditadura da superioridade numérica, que encontra sempre modo de vigorar na moral da sociedade, impondo etiquetas comportamentais, censurando escolhas e maldizendo o direito dos outros de orientarem a sua vida consoante as suas opções privadas. O parlamento deve, além de traduzir a vontade popular, estar à frente desta, guiando-se como candeia primeira, ao caminho do esclarecimento intelectual, social, político, jurídico, económico, cultural, sob pena de nos condenarmos a um fascismo de maiorias: é por tal que somos representados por uma suposta classe representativa, que medeia o pulsar da população e o conjuga com enquadramento constitucional e político dos nossos princípios governativos.  O que o parlamento português fez foi, simplesmente, colocar sob o jugo de um referendo um direito humano, negando-se a essa obrigação constitucional e riscando com todos os procedimentos parlamentares, numa dissimulação traiçoeira de quem joga com as atenções. Porque, no fim de contas, Hugo Soares parece estar mais preocupado com a orientação sexual (e a sua discriminação) dos adoptantes do que com as crianças e as suas necessidades.

Andamos andando para trás, recuando no tempo da nossa elucidação e tolhendo direitos como se de acessórios instrumentais se tratassem, voláteis caprichos de uma sociedade que parece ter de se deixar dos vícios socialistas em que foi erigida. A votação no parlamento, encabeçada por uma aura autocrática e acrítica onde a disciplina de voto foi regra, foi a antítese da liberdade. Da voz da consciência, uma ode à corruptibilidade. Moral, ética, institucional e constitucional. Que se baldou para as minorias, que se baldou para os direitos, que se baldou para as crianças. No trilho vendado do silêncio, alimentou-se a barbárie social, calou-se a Justiça, vendeu-se o direito ao sabor do défice de cognição, em perspectivas de segundo resgate nacional. Pela disciplina de voto complacente se faz um parlamento doente, representativo de um povo deprimente, mortiço nos olhos e com os braços abraçando a derrota. Um deputado omisso é uma aberração política, e os nomes daqueles que rebaixaram a sua ideologia em nome da ditadura do partido deverão ficar gravados para sempre no muro da vergonha de Portugal. Declarações de voto não chegam: é tempo de, no código genético do português, ficar demarcada a coragem de ser livre e de responder consoante a convicção de cada um. Porque temos escrito História com covardia a mais e brio a menos, sob a necessidade perniciosa de preservar o lugar,o estatuto ou a clientela.

Seja na Saúde, onde se morre à espera dela, seja no desemprego ditame da exclusão, seja na Justiça selectiva ou na monocracia dos números, Portugal é tudo menos o que gostar-se-ia que ele fosse. E o comportamento dos deputados (salvo poucas excepções, que saúdo vivamente) é o espelho de uma balbúrdia à beira-mar plantada, onde os jotinhas» neo-atrasados mentais brincam às propostas e às leis como se estivessem a jogar ao berlinde com a noz que representa o seu sistema cerebral. Enquanto o país se dá aos banqueiros e aos especuladores, os putos gozam com a banda, e os paizinhos líderes do sistema partidário português ainda lhes amparam os golpes. Qualquer dia referendaremos o direito a termos direitos enquanto na Assembleia se dança em cima da cartilha universal dos direitos do Homem.

Um referendo dever-se-ia realizar sim, não sobre a possibilidade de casais homossexuais adoptarem crianças, mas sobre a mesma adopção «política» e corporativista de «criancinhas» de juventudes partidárias pelos seus líderes de sistema. Não é o sexo dos país que mina o regular funcionamento de uma sociedade, mas sim a cunha, o compadrio, a omissão crítica, a deslealdade de princípios e a falta de civismo político. Portugal, deplorável, quer desviar a atenção da sua podridão para temas que o mundo desenvolvido já resolveu faz tempo. Por cá, uma miséria nunca vem só.

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

Advertisements

One thought on “Co-adoptar um «jotinha»

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s