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Há momentos em que a emoção nua, ou o intelecto embebido no embevecimento que se dá, consciente, quando nos descobrimos o corpo num lugar de prazer irrepetível, perante cenas de inefável beleza e brilhantismo, altera a narrativa de um homem, talvez mesmo depois da flor da idade desabrochar e lançar-se ao chão, alugando a sua morada ao fruto, que amadurece e em seguida cai, e que vai amadurecendo e caindo sempre, disseminando a sua herança até que a própria árvore seque e quebre e morra, se entretanto não foi atraiçoada por essa incurável forma de Alzheimer que amiúde acomete contra magnoliófitas e coníferas.

Convencido que estou de que a arte é sítio geralmente mais bem frequentado e honesto – mesmo quando propositadamente mente e ludibria − do que a vida, e que há-de ser ela a salvar isto tudo, mais tarde ou mais cedo, pois que se a vida imita a arte, esta simplesmente se inspira naquela, capaz que é de mais parcimoniosa selecção – o que, de resto, se prova ajuizado e prova de bom intelecto −, sinto que é na música, na pintura, na literatura, na sua representação teatral, que esses momentos de transformação ou transcendência – daqui a pouco flagelar-me-ei pela utilização do termo, garanto-lhe, leitor, pois a metafísica diz-me um tudo menos do que nada − se podem dar. Mas os escritores, bem vistas as coisas, têm o insultuoso dever de usar de todas e quaisquer palavras sem rodeios, e inclusive de se porem de conluio com as fantasias mais acicatadas, com os disparates mais ignóbeis a cavalo no arsenal mais explosivo apontado à pele tecida da vida de seda e linho. Porque o papel da arte sempre foi esse, o de acrescentar rasgões, o de preencher na medida da ferida na pele que em dois separa o corpo, o de enriquecer os vazios que ela própria inflige, o de produzir nos laços que destrói. Para o resto há a vida, e mais do que apenas ser não se lhe pede.

Falando de fantasias e rasgões, impõem-se falar de Shakespeare, um dos seus mais geniais perpetradores e costureiros, neste ano, o 450º que passa desde o seu nascimento, motivo pelo qual pude deleitar-me com duas peças suas – Coriolano e Como queiram −, que por estes dias se representam – em qualidade brutal e impiedosa − nos nossos teatros, e não por coincidência uma tragédia e uma comédia, os ingredientes que emprestam à vida o doce e o amargo, o salgado e o azedo, e por vezes tudo ao mesmo tempo, quando têm o nível da naturalidade que sabem ultrapassar com vantagem. Em ambos os casos, o que se deu no palco recambiou a vida para o canto do sala, com orelhas de burro e esfregando os olhos de vergonha, fazendo-a parecer sucedâneo daquela outra posta em palco. Se não outra, esse é trunfo e lição do teatro, montra de realidade aumentada para o que se passa na superfície da vida e nas profundezas dos indivíduos. O que se esconde no terreno ganha corpo sobre o palco.

Mas nada disso deve espantar-nos. Se todo o mundo é um palco, todo o palco pode também ser um mundo, e será sempre melhor estar onde a vida pela arte – que outra forma, afinal? – se dá do que permanentemente afundado numa cadeira no público. Ficar-se-ia, de contrário, nas mãos talvez pouco habilidosas de um escritor de espectadores, como no Sem Penas, de Woody Allen, onde se corre o risco de a qualquer momento o autor surgir no palco e, abeirando-se da boca de cena, apontar um qualquer indivíduo na plateia e comandar-lhe que se ponha na rua e se suicide em seguida; o que, se a situação fosse essa, em todo o caso estaria já cumprido.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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