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Portugal não merece os árbitros que tem. Eu, juiz internacional do mais elevado gabarito que o planeta até hoje teve o prazer de conhecer, já apitei uma final de uma Champions e outra de um Europeu, mas neste miserável país ninguém me dá valor. Ao invés de me construírem uma estátua que imortalizasse a minha genialidade, criticam as minhas decisões e põem em causa a minha honestidade moral, mas esquecem-se que eu, melhor árbitro do mundo, nunca cometo erros; apenas tenho pequenos momentos de distração.

Concedo a equipas e adeptos de futebol o privilégio de me verem a arbitrar os seus jogos, mas nesta terra ninguém me dá o merecido valor. Sou o protótipo humano da perfeição no mundo da arbitragem, espalho por relvados de todo o país a elegante eloquência que é dirigir uma partida do desporto-rei, e dizem-me que tenho sede de protagonismo. Eu não ambiciono ser o centro das atenções, mas que culpa tenho que o estatuto que alcancei ao longo da minha gloriosa carreira me transforme na vedeta maior de todos os locais por onde passo?

Como é injusta a vida de um árbitro profissional em Portugal. Sim, profissional. Agora somos profissionais, mas nem isso fez com que nos ganhassem mais respeito. Condenam-nos por assinalarmos penaltis inexistentes, por deixarmos passar em claro faltas claras dentro da área, por nos distrairmos sempre em benefício das mesmas equipas, mas não percebem que tudo isso faz parte do jogo. Todas estas distrações fazem parte do espetáculo, entretêm as massas, alimentam páginas de jornais, enchem com troféus museus de clubes e engordam, sobretudo, as nossas contas bancárias. Mas não é nossa a culpa: as condições miseráveis que nos são impostas, com pagamentos de míseros milhares de euros por cada arbitragem no primeiro escalão, é que nos obrigam a entrar neste sistema.

Nós somos os melhores, e que pena é que este país não seja merecedor de todo o nosso talento e empenho. Eu, melhor do mundo, tenho os meus deslizes bem calculados e sempre aplicados nas alturas certas, mas nunca os admito; tenho do meu lado a premissa de que errar é humano e, apesar de todos os defeitos, este país continua a ter o mérito de manter a classe dos árbitros acima da lei. Eu, figura suprema da arbitragem mundial, assim como os meus colegas, sabemos que as polémicas passam e nós ficamos, que jogadores, treinadores e dirigentes são castigados e nós por cá continuamos, e é esta impunidade que nos dá motivação para continuar.

Não é preciso ser o melhor do mundo para perceber que casos como o desta semana, em que um reputado árbitro internacional trocou um penalti evidente no último minuto pela marcação de um caricato livre indireto dentro da área, continuarão a fazer parte do nosso quotidiano semanal. Para o melhor árbitro do mundo e para todos os seus colegas, este é um esquema bem montado em que todos têm as costas quentes por aderirem às normas do sistema, com a certeza de que se algum dia as coisas derem para o torto seremos nós, árbitros, os últimos a cair do penhasco. Este é o nosso país, e que pena é que Portugal não mereça os árbitros que tem.

diogo-taborda-desenho-e1360007654750 Diogo Taborda

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