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O facto de a realidade, por dever ontológico, permear o quotidiano, não deve permitir-nos insultá-la com a atribuição de banalidades ao seu tiquetaquear surdo. Já o disseram muitos, e já eu o repeti outras tantas vezes, a realidade revela-se amiúde e sagazmente capaz de superar aquilo de que a ficção se poderia lembrar.

Gaivota ataca uma das pombas da Paz lançadas da janela Papal. (Foto: Alessandro Bianchi/REUTERS)

Há poucos dias, na sua boa-vontade ritual, o Papa decidiu dirigir umas palavras aos manifestantes ucranianos — não mais do que palavras, que para agir hão-de haver outros –, coroando depois as suas palavras com o soltar de duas pombas brancas — a quem em azar calhou serem as emissárias da paz — pelas mãos de petizes delicados. Menos cândidas foram, porém, as aves que moram nos telhados do Vaticano, e a classe lestamente despachou um corvo e uma gaivota que, logo ali, no espaço aéreo da Praça São Pedro, sob o olhar escandalizado dos incrédulos fiéis — vê o leitor as belíssimas contradições que a realidade nos dá? –, atacaram as duas pobres pombas alvas, mostrando que a paz é coisa artificial e talvez propriedade apenas de um punhado de Homens. Consta que a gaivota virou do avesso uma das desgraçadas enviadas papais, prendendo-a no bico e levando-a para céus romanos, e que o corvo, para não lhe ficar atrás, agarrou a segunda parte do par pombalino nas patas, aproveitando para a debicar a seu bel-prazer.

Mas a realidade supera-se também a si mesma, e supera-nos a nós, quando e sempre desconsideramos o seu poder narrativo. Todos esperavam, talvez, que as duas pombas voassem da janela do Papa, em direcção ao azul dos céus, talvez à distância esfumando-se, dissolvendo-se no material de que são feitas as nuvens para depois, etéreas, se juntarem ao compadrio das almas que, empregadas a full-time em sofás de algodão e templos alados, cuidam dos corpos cá em baixo. A realidade decidiu pois, amarga como ela consegue, devolver-nos o sentido ao norte magnético. Afinal, por que haveriam as pombas de voar, se na Praça da Independência, em Kiev, os manifestantes e os polícias caem, sovados, na neve suja tornada lama fria, vergados pelo peso das armaduras e dos escudos e das barricadas que os puxa e afasta, de rojo pelo chão sob uma carga policial. O que se passa na Ucrânia não tem nada que mereça ser celebrado com passarada piando no horizonte, a não ser a luta de um povo pelas suas aspirações.

Barricada na Praça da Independência, pelos manifestantes rebaptizada Praça Euro (Euromaidan). (Foto: REUTERS/Alexander Demianchuk)

Mas a luta não deve durar sempre, sobretudo a luta que não é limpa nem justa, mas que é assalto necessário. Quando um assalto é necessário, ele deve dar-se tão cedo quanto possível, porque deve dar-se sem réplica, sem que o poder possa reagrupar-se, mudar de forma e ressurgir nos ombros de outros aliados.

Na Ucrânia, o confronto é hoje imperioso. Porque Viktor Yanukovych, Primeiro-Ministro do país, é o rosto do poder que, na Ucrânia como aqui, não descortinou ainda a racionalidade da coexistência entre um governo e o seu povo, nem destrinçou, por entre a idade das trevas em que ainda se subterram as suas ideias, que o vencer de uma eleição não é carta branca para um punhado de anos de decisões. Porque um país democrático não é um barco nas mãos de um comandante — ainda que as metáforas possam disso ressentir-se –, e mesmo ele sabe que o motim sempre foi ferramenta válida nas mãos dos marinheiros. Na Ucrânia, o conflito é hoje fundamental. Porque Viktor Yanukovych traiu as aspirações do seu povo, ao firmar o tratado de cooperação económica com a Rússia, ao invés de se abrir à União Europeia, como no seu programa eleitoral propalara.

Em 2012, manifestantes em defesa da ex-presidente Yulia Timoschenko praticavam boxe em saco com o rosto de Yanukovych. (Foto: AFP/Sergei Supinsky)

Em 2012, manifestantes em defesa da ex-presidente Yulia Timoschenko praticavam boxe em saco com o rosto de Yanukovych. (Foto: AFP/Sergei Supinsky)

Porque Viktor Yanukovych, alguns meses após subir ao poder, forçou a demissão de quatro juízes do Tribunal Constitucional, no processo de garantir a anulação das emendas à Constituição feitas no rescaldo da Revolução Laranja de 2004, e assim alterando o regime político do país, de um sistema parlamentar devolvendo-o a um parlamentar presidencial. Porque Viktor Yanukovych vai aprofundando passos no corredor ditatorial, tendo conseguido a prisão da ex-presidente ucraniana Yulia Timoshenko, sob falsas acusações, sendo alvo de diversas queixas sobre perseguições políticas e tortura dos seus opositores, e recaindo ainda sobre ele um rol de suspeitas de corrupção, que se estendem desde a anulação das penas — parcialmente cumpridas — de prisão (por assalto) a que foi condenado, quando jovem, até a títulos universitários para os quais nunca prestou provas nem aos quais tinha condições de concorrer, os lugares de professor universitário que supostamente detém em universidades e cadeiras inexistentes, na Ucrânia e na Califórnia, ou ainda os mais de 20 livros que constam do seu CV mas que não existem nos registos da Biblioteca Nacional Ucraniana nem nos de qualquer outro acervo conhecido. Tudo isto mereceria mais aprofundada análise e a devida nomenclatura nos bovinos certos, como diz o povo, mas esta perspectiva, a dez passos do quadro, parece-me suficiente e talvez até mais profícua, no imediato, do que a observação com o nariz quase a rasgar a tela.

Perante tudo isto, digamos apenas que seria quase crime se as pombas do Papa se tivessem permitido voar dali para fora, inchando o peito pedindo a Paz, quando por vezes é preciso celebrar a guerra.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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