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Tendo mais de 500 livros nas estantes do quarto, provavelmente não sou dono de nada quanto sou dono de palavras. Certamente que elas não se imaginam nas prateleiras de um pilantra como este que vos escreve, mas elas lá estão, independentemente de tudo, e sei que facilmente me posso levantar da cadeira, fazer o corpo girar sobre si, dar uns passos e esticar um bracito para uma das lombadas para as encontrar, tanto as que já conheço e às quais volto amiúde como as muitas que ainda estagiam nas minhas insólitas barricas rectilíneas de madeira de cerejeira. E isso, conquanto possa ser estulto disparate ou bárbaro romantismo, dá-me ainda algum conforto.

A palavra… A palavra é-me também profissão e prazer, é arma de trabalho e ferramenta de fruição. E o contrário. E o inverso. E vice-versa. E tudo isso ao mesmo tempo. É o lego visual das ideias com peças à discrição, as peças de uma arquitectura mental. A palavra é tão importante quanto isso: permite levar o pensamento onde de outro modo ele não chegaria, na sua ausência. O domínio da língua é directamente responsável pelas fronteiras criativas e intelectuais de um Homem. O léxico dos indivíduos na medida dos mundos que criam.

Mas a palavra é também, somente, a humana gravidade que nos permite aglomerar uns em torno dos outros. É ela a linha em que se tece o tecido social, a rede que sustenta os sistemas políticos, a corda de vida que segura a confiança, a arma maior da sociedade. Tudo isto é verdade, ou seria, se Portugal não fosse um desses territórios onde a insistência em tornar a vida desgastante, agastante, cenário corrupto e corruptor, vai calcando os cidadãos para uma desilusão crónica capaz de fazer das ruas fila de espera na repartição da existência onde as senhas não avançam.

Portugal, se em tempos foi inegavelmente um país da palavra, hoje já não é sequer um país de palavra. E talvez nada seja tão mau quanto isso. Do Camões e do Gil Vicente, do Pessoa e do Eça, do Antero, do Aquilino, do Saramago e da Agustina, e mesmo hoje do Gonçalo M. Tavares e outros dignos representantes do Portugal da Palavra, chegámos ao bando que lamentavelmente provoca eco nas ruas e nos jornais e nas televisões e em mais ou menos todos esses sítios onde cabem palavras, oralizadas ou grafadas a eito. São as palavras dos Relvas e dos Passos, mas também do seu séquito de sedentos sequazes, transfigurados em deputados como o Hugo Soares (que ontem o Bruno Falcão Cardoso aqui tão bem dissecou, efectivamente expondo-lhe ao vento as vísceras envenenadas). Sem palavra, quebram-se contratos — o social, oportunamente, é dos primeiros a cair, sovado pelo gangue de sempre, espontâneo e sanguinário.

O risco da palavra é, afinal, esse. Com a mesma serenidade, com o mesmo tom, mascarada de raciocínio, a mais peregrina e insolente mentira pode dar-se ares de chorado epitáfio ou magnânimo panegírico, o mais desprezante roubo pode ser benevolente cuidado, a mais surreal ilusão enchendo o peito como as honestas e frugais verdades. Tudo isto ao longo da epacmástica escada da loucura, que o leitor vai sendo convidado a subir até àquele degrauzinho em que a altura já é suficiente, e onde um sopro tardio bastará para o deitar por terra, e não sem a possibilidade de rebentar os costados contra o soalho que afinal não era sedosa e matriarcal nuvem.

Num país sem palavra, é preciso que as tenha o leitor. É preciso, desde logo, que leia. Que leia livros a sério, que leia os jornais a sério. E que escreva. Que rascunhe. Porque usar da palavra, confrontar-se com ela, pensá-la, esgrimi-la, ir saber-lhe o significado, é o que separa o mundo dos Homens do dos demais animais. Esperamos que não esperasse, querido leitor, simpaticíssima leitora, que fosse a sociedade a fazê-lo, numa espécie de auto-gestão ou patriarcal, messiânica mão invisível. Deixo, de resto, a política fora da hipótese. No Portugal de 2014, essa é já carta fora do baralho.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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