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Semana passada passeava meu cérebro no passadio afunilado, etéreo oblívio estado, quadrado sem fundo da televisão, quando, a meio de uma troca de fogo argumentativo, oiço tamanho míssil vomitar-se a si mesmo através da boca de um tipo Soares da seita J, não a zona, o partido, o partidozinho: «Todos os direitos das pessoas podem ser referendados». Com estrondo, com eco aviltante, com vergonha, aquele pulha gigante. Palavreando tamanha desumanidade, impune e ali sentado, com ares de gente retórica, todo saberes e trejeitos, estapafúrdio objector do Direito, afirmando categoricamente que, no mundo dos dias de hoje, todo e qualquer direito não goza de salvaguarda perante a tirania, o mau senso, o poder arbitrário, a maioria, o preconceito, quem sabe e porque não, perante a vontade discricionária de um qualquer fascista pululante que com a comunidade queira «brincar». Hugo Soares, deputado, assim o disse, e repito, pois somente o som já faz tremer de arrepio toda a História, rasgada a arrepio pelo estridente míssil do ideólogo da proposta de referendo, sim, aquele contorcionismo depravado do qual todos se envergonharam, desde a  Assembleia da República até Plutão.

Parei e congelei os sentidos, reiniciando o sistema cognitivo e, depois, dando à chave do cérebro, voltando a processar a frase expelida: «Todos os direitos das pessoas podem ser referendados», reeditei. Assimilei: a estupidez acéfala é inexprimível. Não existe resposta, teorema inteligente, célere objectivação, contragolpe decente. Hugo Soares acabara de nomear-se anti-matéria pensante, nulidade jurídica, impensável azar contemporâneo: como é possível 2014 albergar uma alma que foi parida no Jurássico? Como se fez possível, como coube no espectro espácio-temporal o Jota Soares, homem formado em Direito e disforme a ir-se pelos ares, da racionalidade, do progresso, enfim, do processo civilizacional, e uma ideia tão austrolopiteca como a de que «Todos os direitos das pessoas podem ser referendados»? Pasmo: como terá sido possível combinar, na mesma linha evolutiva narrativa, Hugo Soares e a Pré-História? Podemos analisar este problema, talvez , quiçá, anomalia cosmológica, através de vários prismas disciplinares. Um deles é mesmo de abordagem física: quem nos garante que uma malfeitoria na malha do espaço-tempo não tenha provocado uma confusão de eventos (um ponto no espaço-tempo) que, por sua vez, tenha cuspido Hugo Soares para o presente, apresentando-o na televisão em forma de Brontossauros falante?

Não podemos ainda averiguar com total veemência epistemológica. Talvez outra abordagem, mais cinematográfica, possa contribuir para outra explicação, «far-fetched» é certo, mas ainda assim considerável: uma viagem no tempo, ao bom estilo de «Back to the Future», possa descodificar o porquê da visita inesperada de Hugo Soares ao presente, talvez empreendida com base numa missão de busca pelo sagrado Graal da Constituição da República Portuguesa, talvez até da Declaração Universal dos Direitos do Homem, objectos de compilação civilizacional histórica que o deputado Jurássico claramente ainda desconhece, o que se compreende, dada a sua proveniência temporal. O que ressalta à vista é, como se depreende de um fenómeno desta amplitude, um erro 404 fundamental, onde, devido à inusitada deslocação espacio-temporal, uma racionalidade lógica não é atingida: Hugo Soares falou, ou seja, comunicou com o servidor, mas esse, a realidade, não foi capaz de encontrar o senso do cliente – Hugo, talvez a página, aquela em que te encontras, já nem sequer exista…: esta é a abordagem informática do evento.

Posto isto, tentado o destrinçar da perturbação lógica e semântica do fraseado do deputado, expresso na linha do tempo, talvez sobre apenas o conceito de «eterno retorno», muleta teórica que de facto nos poderá ajudar a desvendar a magia da estupidez ancestral. É ler uns nacos de Nietzsche. Mas isso deixo para quem pode. A Soares recomendo, singelamente, a leitura (de dedo apontado à linha, lábios soletrando baixinho e atenção redobrada) dos artigos 1º a 30º da Declaração Universal dos Direitos do Homem. E aconselhar a leitura destes, principalmente a um deputado homem do Direito, é, por mais que eu me tentasse superar, o maior insulto possível, o maior alguma vez enunciado.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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