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Domingo, dia 9 de Fevereiro, 11 horas da manhã. Saída bem cedo do litoral alentejano a caminho de Lisboa. O regresso do fim-de-semana foi antecipado com um único propósito: assistir ao Benfica-Sporting, ao vivo, no Estádio da Luz. Pela primeira vez nestes quase sete anos que estou em Lisboa, vi o comboio completamente repleto de Benfiquistas. Não eram 20 nem 30. Mais de metade das carruagens estavam pintadas de vermelho. Percebi que era um fenómeno habitual na linha do Sul e na linha do Norte, pelo menos desde a criação do Comboio Benfica (uma excelente iniciativa do SL Benfica). E percebi-o porque todos se conheciam destas lides. Todos falavam, todos cantavam pelo Benfica.

Senti-me bem naquele meio. Não só por ser Benfiquista mas também por partilhar este amor cego e às vezes estúpido por um desporto cada vez menos limpo. E senti, naquele momento, que pelo nosso clube fazemos as mais variadas maluquices. Todos naquele comboio gastaram largas dezenas de euros, nalguns casos mais de uma centena, por 2 horas de jogo. Perderam um dia de folga no trabalho, nalguns casos o único dia da semana. Tudo por um jogo que, como se sabe, não chegou a acontecer.

Quis o destino que, a um par de horas do início do jogo, caísse uma chuvada sobre Lisboa como há muito não via. Quis o destino que nesse preciso momento eu estivesse entre o Metro e a Catedral. Quis o destino que eu ficasse completamente enchercado. Mas vinha aí jogo, uma molha não faz mal a ninguém. Estava optimista. O dia ia acabar bem, pensava eu.

Já dentro do estádio, tudo preparado. Ouço o onze do Benfica. Gosto. Ouço o onze do Sporting. Ainda gosto mais. Isto promete. Os craques já estão em campo para o aquecimento e o ‘speaker’ vai dando instruções para uma bonita coreografia. À minha esquerda surgem uns lagartos insufláveis, provocação dos Diabos Vermelhos. No topo estão os adeptos Sportinguistas. Sempre vibrantes. Nunca calados. Isto vai ser bom.
Eis que chovem coisas estranhas à minha direita. Não consigo evitar um sorriso quando vejo uma invasão de campo por parte de vários elementos alheios ao jogo, com um único objectivo: remover os pequenos objectos. Só que, de repente, de pequenos têm pouco. São cada vez de maior dimensão. Para delírio dos adeptos do Sporting. Pudera, aquilo estava mesmo a desmoronar-se sobre a cabeça de alguns ‘lampiões’.

Não ouvi o que foi dito na Benfica TV. Falaram em lixo do exterior do estádio. A verdade é que ninguém fazia a mais pequena ideia do que se tratava. Na zona da imprensa, muitos sorrisos e pouca preocupação. Mas isso rapidamente mudou. O tempo passava e o jogo não começava. Pairava no ar a ideia de que talvez não houvesse jogo. Eu, molhado, nem colocava essa hipótese. 200 e tal quilómetros e uma chuvada depois, tinha que ver futebol.

Ninguém foi alertado para a possibilidade do jogo ser adiado mas quando o ‘speaker’ começou a falar já todos sabiam o que aí vinha. “Vocês são uma vergonha!” ouvia-se do sector dos adeptos leoninos. “Joguem à bola!”, ripostavam as claques encarnadas. De nada serviu.

Educadamente, fomos convidados a sair. De início ninguém parecia disposto a fazê-lo. Só podia ser mentira, claro que iríamos ter jogo! O ‘speaker’ repete a mensagem, agora num tom mais alarmante. E outra vez. E mais uma. De repente, percebi a gravidade da situação. Percebi que nos estavam a mandar embora não porque não iria haver jogo mas porque estava tudo a cair. Peguei na trouxa e meti-me na rua. Em tempo recorde. Lá fora o vento soprava frio e forte. Pernadas de palmeiras voavam sobre a multidão. Alerta vermelho, avisos para que toda a gente ficasse em casa. Mas não, ali eram dezenas de milhares nas ruas, à mercê da natureza. O futebol também é isto. Mas não deveria ser. Naquele dia, independentemente das condições do Estádio da Luz, deveria fazer-se tudo para evitar que tamanha multidão saísse de casa.

Molhado e cheio de frio, lá fui para casa. Sim, a minha casa era já ali ao lado. Não pude deixar de me sentir egoísta por sentir-me zangado com a situação. Tinha um banho quente a 15 minutos. Outros não. Aqueles que naquela manhã viajaram comigo de comboio ainda tinham uma viagem de horas pela frente. Tristes, molhados, cheios de frio e com a carteira vazia. Hoje, muitos não farão a mesma loucura. Uns não conseguem. Outros não querem. Eu não regresso lá. Chega de futebol por esta semana. E também não tenho capacete em casa. Agora a sério: que não aconteça a desgraça que esteve prestes a acontecer no domingo. Que seja um bom jogo. Que ganhe o Benfica. Depois digam-me o resultado.

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joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “Depois digam-me o resultado

  1. Homem que é Homem depois de tudo isso e vivendo a 15 minutos vai lá novamente… caso contrário, foi em vão a viagem de todos esses que no Domingo viste no comboio… se por ti és um rato, faz-te HOMEM e vai lá por eles… porque muitos deles, ods que viste nesse dia… a esta estão a fazer o mesmo percurso… e tu??? Tu a 15 minutos desistes… Desistir não é de Benfiquista!!! Desliga o PC… mete-te ao caminho e grita como se não houvesse amanhã!!! Só se vive uma vez… a vida é curta e passa demasiado rápido para fazer o mais cómodo… MEXE-TE… ainda ai estás??? MEXE-TE!!!!!

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