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É interessante, tanto quanto chocante, apercebermo-nos do desfasamento hipócrita entre a suposição progressista da nossa narrativa globalizada e a real conduta inscrita nas acções, nas designações legislativas, na insurreição absolutista das unilateralidades e no galopante retrocesso civilizacional que as nossas instituições fundamentais – alicerces do Estado democrático – têm sofrido ao longo das últimas décadas. O discurso de conveniência, desconexo da realidade, fantasia a vivência que não mais pode dissimular: o presente tem escrito uma História na qual o futuro poderá nunca acreditar. Portugal tem, nas suas deficiências de género e estilo, personificado na perfeição o paradigma acima deslindado, através da sua retórica autocrática e do seu gélido pragmatismo alucinado, que, medida após medida, cava a sepultura de um país onde, a bem da verdade, nunca se gozou de uma emancipação social, cultural e económica medíocre, quanto mais aceitável. De cortes plenos de sucesso à dissipação totalitária do modelo de Estado Social, a bonança discursiva do executivo conta-nos a lenda de um país que, pleno de austeridade, atingiu a redenção financeira através da penitência social. A conclusão assim se lê, à beira de facto, do nosso «Fim» – assim se exorcizou, com retumbante sucesso, o fantasma do défice e da dívida externa, causado, obviamente, pelos contribuintes da classe média, pelos funcionários públicos, pelos pensionistas…enfim, pela caterva de gentaça piegas que vive à conta de um assistencialismo que só serviu para enterrar o país. Basicamente, é nestes termos que a salvação de Portugal foi realizada. Pelo menos é nessa alucinação colectiva que o governo actual pretende que acreditemos, piamente.

A realidade dificilmente poderia ser pior, em pleno século XXI: cortes a eito depauperam áreas vitais como a Saúde, a Educação e a Justiça, enquanto a pobreza implode a classe média, a precariedade laboral se instala e as funções sociais do Estado se evaporam, abrindo espaço ao reino da caridade. É interessante, tanto quanto chocante: este PSD/CDS-PP aumenta os impostos porque quer reduzir o peso do Estado. Total contra-senso, só explicado pela crua vontade ideológica de deslocar riqueza, do contribuinte para o grande capital, através de um serviço de dívida que só em juros ascende a exorbitâncias praticamente inumeráveis. A própria justificação da penitência é uma falácia descarada – os portugueses viveram acima das suas possibilidades e foram eles, assim como os outros em seus países, a fazer estalar a crise financeira em 2008. É isto, e, se tal não foi deste modo verbalizado, a orientação governativa da coligação traduz sem mácula a frase proferida, desde o primeiro dia. Ora, Portugal é apenas um caso onde a narrativa oficial não se coaduna com a realidade. Em França, Hollande vinha para reanimar a esquerda mas a acção do seu governo tem sido famosa sim, mas pela persecução e expulsão de imigrantes ciganos. Já Obama, que idealizara uma política de legalização de parte dos 11 milhões de clandestinos presentes no país, expulsou já uma fasquia nunca antes vista em terras do Tio Sam: 2 milhões de imigrantes desde que tomou posse na Casa Branca. Apesar da incontornável tangibilidade das suas condutas, ambos contam-nos historietas bem dissociáveis da realidade – há, pela força indestrutível da promiscuidade mediática, que se enleia com o poder (governamental e financeiro), uma insuperabilidade adesiva que se cola à realidade e faz papel de parede da balela elaborada. Cola e fica, cola e persiste.

Assim foi, há poucos dias, com o referendo que, na Suíça, ditou limitações na imigração, resultado claramente em choque com os acordos europeus e com o intuito de livre-trânsito que se pretende fazer vigorar no espaço da União Europeia, supostamente interligado e em crescente solidariedade cooperativa e social. Contra todos os conselhos dos sindicatos, associações de patronatos e partidos políticos, 50,3% dos votantes disseram «Sim», limitando o acesso ao país por parte dos europeus comunitários (os restantes já tinham visto o acesso restringido) e devotando o país a um isolamento inevitável, enviando Schengen para o espaço. A proposta de referendo, catapultada pelo populismo fascistoide do partido União Democrática do Centro, pegou, reflectindo a xenofobia que grassa pela velha Europa – com o discurso demagógico irmão do preconceito fácil, também o poder cola, com a ajuda complacente das pessoas, a balela usada e reaproveitada do imigrante enquanto alvo. De instabilidade, de estranheza, de invasão, de perturbação, de miséria. Em plena Europa multicultural, a Suíça cede ao populismo e contraria a narrativa vigente: o nosso iluminismo moderno é, comprovadamente, uma espécie de mito. Basta ouvir os tiques intervencionistas de líderes doutros países da comunidade para percebermos que o nacionalismo bacoco e fascista sempre foi vício latente, escondido. Ciclicamente, este vício popular reacende-se, manipulado pelas retóricas oportunistas (e extremistas) que, hipocritamente, fazem sombra à aparente globalização do pensamento solidário, cooperativo, tolerante, racional e internacionalizado, onde a livre circulação de pessoas deveria ser factor de dinamismo e evolução sócio-cultural.

A Suíça, que tem prosperado com a força imigrante e que tem, indubitavelmente, beneficiado economicamente com os proveitos que a força laboral e social imigrante tem emprestado, decidiu fechar-se sobre si mesma, isolar-se dentro da ilha do seu próprio preconceito. Adivinho que outros vizinhos o farão, mais cedo que tarde. Porque esta austeridade ditatorial, vassala do grande capital, depaupera a vida das comunidades e faz com que a miséria se entreolhe em desconfiança amedrontada. A globalização é uma mentira com uma franja diminuta de verdade em si. O resto da verdade permanece em ilhas de desconfiança, medo primário, segregação e preconceito. É tempo de reconhecermos o atraso civilizacional que persiste, refugiado na lengalenga progressista de direitos essenciais desrespeitados e acordos que são violados permanentemente (Lampedusa é exemplo execrável), à luz do mundo, calado, que ainda insiste em acreditar na história fictícia vigente. É interessante, tanto quanto chocante: a realidade é afinal um outro mundo bem diferente.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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