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Nunca fui a favor do Wikileaks.

Porque ele abre um grave precedente, porque preconiza a perigosa noção de que a transparência radical — ideologia que defende que, se tudo fosse público, o Mundo seria lugar melhor e mais seguro — é regime que queremos impor. E não queremos. Não o quero eu nem o quer o leitor. Porque tanto eu como o leitor nos insurgimos — mesmo que apenas cerrando o punho e arreganhando os dentes; e mesmo que tudo isso façamos apenas mentalmente –, aquando do escândalo do PRISM e da NSA, ou quando alguém nos relembra da quantidade de dados que a internet e as redes recolhem sobre cada um de nós. Mas a coerência sempre foi uma das pechas do ser humano.

Amiúde funcionamos de modo básico, em primeira mudança. E se o leitor é também condutor, saberá que a primeira serve muito bem para fazer mover o carro, para o segurar numa subida inclinada e outros desafios do género, mas que falha espectacularmente para circular a 120km/h, ou quando se trata de fazer marcha-atrás.

Os casos são muitos. Quando no Prós e Contras, aqui há meses, a investigadora Raquel Varela questionou — muito oportuna e pertinentemente — o jovem Martim (seria este o nome?) sobre a proveniência das camisolas que este, qual milagre do empreendedorismo fascicular, decidira produzir em variadas cores e dizeres, logo a populaça, talvez mais imberbe do que o próprio miúdo, se animou a assobiar, aplaudindo depois quando o puto atirou, arrogante, que mais valia pouco do que nada. É mentira, e o leitor sabe, como o sabem aqueles que bramiam na plateia do programa, quando é o Primeiro-Ministro ou alguém da sua quadrilha a dizê-lo na hora de reduzir os salários ou cortar na despesa — não nessa, claro, mas na outra, na que somos nós. A turbamulta, ainda que sentada, deixou-se levar pelo deslocado juízo das aparências, a lógica da espacial distribuição dos heróis e vilões, e não percebeu que aquela que estava no palco os defendia a eles, sentados na assistência, ovinos desconhecendo a presença de um lobo nas suas hostes. O palco, a televisão e os jornais são o pedestal do poder, é isso que pensam as gentes as mais das vezes, pegando na cartilha para recitar: Assobia o palco, aplaude a plateia.

Com um ligeiro twist, o caso Wikileaks é igual. Se os documentos que vêm a público são cartas entre governos, complots e trapaças de bancos e políticos, todos rejubilam, activistas germinando como cogumelos e deitando ao céu os seus esporos como confettis. Se os mesmos meios viram o foco para cada um de nós, a privacidade parece-nos subitamente coisa importante, e a transparência radical perigo maior do que a peste. É verdade que o é, mas ela não deve rasgar-nos o discernimento nem comprometer-nos a honestidade do intelecto. É certo que concordo que os Governos estão ao serviço dos seus cidadãos e lhes devem prestar contas, mas isso não signfica, nem deve a transparência confundir-se com ou roubo ou a espionagem, que devamos ter acesso à publicação de toda a correspondência, telegramas e memorandos entre governantes, banqueiros, avaliadores…

Dir-me-iam que tudo isto é necessário e que pode mesmo proteger os nossos interesses. Dir-me-ão que de outra forma não saberíamos que a subsecretária de Estado norte-americana, Victoria Nuland, receitou à União Europeia um «Fuck you», em conversa privada com o embaixador dos EUA em Kiev. Dir-me-ão tudo isso e muito mais, talvez, mas honestamente e em consciência poderão também responder-me: E é preciso que uma escuta nos desvende tal coisa? Acaso não saberíamos que os nossos aliados têm também os seus interesses próprios, muitas vezes alheios aos nossos? E quantos «Fuck this» and «Fuck that» dizemos eu e o leitor no dia-a-dia, sem que isso tenha especial relevância? Imagine agora que tornavam público todo e cada um deles. Saberia retratar-se, justificar-se? Talvez fosse fácil, assim como o deveria ser para Nuland, mas o segredo tornado público, uma voz do poder caindo na praça não se compadece com nada, e logo surge nos media como o maior furo, escândalo, espasmo…

Não. Nunca fui a favor do Wikileaks.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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