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A pertinência, a elevação e a eloquência do artigo da passada Quinta-feira, redigido pelo meu grande amigo Hugo Picado de Almeida, aliada à minha discórdia intelectual para com o dito ensaio, incitou-me desde logo a mergulhar numa hipótese de contraposição argumentativa no que ao seu discorrimento diz respeito. Deveremos nós, colectivo social integrado no desígnio do Estado de Direito, ser contra ou a favor do Wikileaks?

Sabendo de antemão da radicalidade – objectiva – deste motor revelador de conteúdos, será indispensável pois aferir do contexto que enquadra tal irrompimento veiculativo, qual metralhadora informativa multiplicada, canal expurgador de «data» geralmente tida como «classified», segredo de algum tipo. Terá, porventura, o ambiente totalitário de manufacturação de informação algo que ver com a génese deste tipo de intervenção – simuladora do jornalismo – relativamente extremada?

  1. Ponto assente de minha acepção é, primordialmente, a verificação desse tal ambiente. Uma era de refinado e inquestionável predomínio paralelo do secretismo actuante da manobra geopolítica globalizada, que age e reage, sequer no sub-mundo da legalidade processual e da transparência democrática, mas sim nas profundezas do silêncio subterfúgio, compondo, à margem do escrutínio público e eleitoral, um rol de acções (internas ou externas) que configuram um claro desvio democrático. Vício déspota, livre da supervisão ética, jurídica e das convenções internacionais mais basilares a que o nosso sistema institucional deve obedecer: assim se retrata o situacionismo latente da governação, disseminado internacionalmente.
  1. Apesar de todos o sabermos, até de olhos fechados, dadas as infracções contínuas e gritantes que imputamos à conduta dos nossos Estados, grande volume de certezas indubitáveis – para lá de dúvida razoável – sobre a pérfida actuação dos mesmos, é confirmado factualmente pelo Wikileaks. Ou seja, este permite-nos, à cabeça, reorganizar a História e redefinir o olhar sobre o passado que até aqui nos trouxe. Esta acepção parece ligeira mas é, na verdade, inquantificável: o presente de outrora foi insistentemente manipulado, constando hoje como antecedente lógico (passado) da contemporaneidade. Uma vez desvendada esta chave, é difícil não analisar o fenómeno Wikileaks como um evento de ruptura com o encadeamento narrativo vigente, facto que desperta a pergunta: existirá uma mentira permanente, teia complexa de informação sonegada e manipulada, que sustenta a comunicação institucional, governamental e diplomática, com o intuito de controlar a opinião pública e manejar interesses obscuros, alheios à regência da democracia e do Estado de Direito? Até ao dia de hoje, os ficheiros revelados compilam enciclopédias de falsidades que dariam para reescrever parte da História dos últimos anos: facto.
  1. Atestado o ambiente e a conduta, o Wikileaks permite-nos reflectir sobre aquilo que, não tendo sido veiculado, foi verdade: como que justificação pode um Estado esconder, sob o dúbio e nebuloso jugo do secretismo utilitário, a sua própria actuação? Constituído pelos seus cidadãos e contribuintes, como pode um Estado planear e agir sem notificar, planear e agir sem legitimar-se na lealdade processual, na clarividência dos meios e no conhecimento dos fins, tudo à revelia do seu povo? Não pode. O debate ressurge com o fenómeno e deve avivar a consciência supervisora, atenta às delimitações do poder dos governos.

Posta esta argumentação, metade está dito – a História que o Wikileaks ajudou a reescrever consta como a prova de pasmo que deverá obrigar a sociedade internacional a um grave debate sobre a legitimidade das acções dos seus governantes, e sobre o quão distantes se posicionam, quer o consentimento público, quer a vontade autoritária e muitas vezes particular (arbitrária) de quem nos gere. Este fenómeno explode, não por caótica urgência (i)mediática, mas por uma racional e lógica ordenação idilicamente redentora, resposta sequencial aos constantes (e já despudorados) atropelos à verdade. O mundo sabe, o mundo estudioso, intelectual, atento, leitor e preparado, sabe. E assim como os livros de História compilam e certificam o passado, o Wikileaks por sua via os destrói, abrindo a página de uma erupção narrativa nunca antes encarada. Factual, ao estilo informante, pela boca de quem mente: lê-se a verdade pela letra de quem ludibriou. Concordarei com o Hugo Picado de Almeida quanto à sua abordagem prevenida, mas não poderei analisar o caso sem o situar no extremismo contemporâneo que repete a declarada ilegalidade actuante, a devassa privada impune, o controlo ditatorial, as políticas de guerra surda, o tacticismo geo-estratégico feroz, as tiranas pressões governamentais e as mortes avulsas de mortos sem nome em solo de nenhures, nunca antes reportado ao mapa.

O Wikileaks, acima do aceitável ou do radical, é o braço armado de um combate informacional que o mundo global lúcido e ávido de uma coerência histórica, incrivelmente, não teve. Porque, com toda a parafernália esquizofrénica e mediática do mundo interligado e global, a desconexão entre o comportamento das instituições e o seu conhecimento deste por parte do cidadão é, abissalmente, total. E nem os Estados nem os parlamentos nem os partidos nem o jornalismo nem as associações nem as universidades, tiveram a capacidade de penetrar na esfera secreta da actividade, seja ela governamental, seja ela corporativa, numa grande escala. Wikileaks confronta-nos com o medo do desfasamento efectivo. O seu radicalismo é uma resposta biológica, uma reacção indignada que se vira contra a (in)consciência. Além disso, não se some num só homem, enovela-se numa rede de informadores que delatam, segundo vontade própria, os factos que pretendem reportar à luz do mundo. Como fariam estes, caso quisessem expor verdades cruas e revoltantes? Quem os protegeria? Quem lhes garantiria o anonimato ou segurança? Ninguém: como temos visto, o que não faltam são Estados prontos a deitar a mão aos seus Snowdens. A verdade nunca será empecilho de nada – se temos de ser protegidos da verdade, então o tempo da liberdade democrática nunca chegou realmente. Se um governo mente, então, tem de ser responsabilizado. Simples quanto a vida. Eu nunca quis um mundo de espiões, missões secretas e filmes de enredo duvidoso.

Assim dito, poderá parecer mas isto não é uma apologia total do Wikileaks. É sim a sua tentativa de compreensão, enquadramento e explicação. Por não ser um fenómeno solitário, as suas raízes derivam, para todos os âmbitos onde a falsificação tem sido regra, nascendo da ponte ardida, hoje inexistente, entre canais de comunicação essenciais, como o povo e o seu governo. Concordo que não possa ser uma ferramenta salvífica, máquina mágica produtora de verdade: isso seria igualmente fatal. Mas deve significar o salto para uma nova concepção global do cidadão, reinvindicador do seu direito à informação, implicando isso uma transformação do meio sócio-político, económico e financeiro. Num mundo que se marimba para o cidadão, o poder é unilateral e adverso a ele. Readquirir consciência de ser político é imperioso para reganhar posição nos destino desta infame globalização.

PS: Sabe o que é o «Trans-Pacific Partnership»? Exactamente, ninguém sabe. Afinal, é sempre disto que estivemos a falar: governação nas nossas costas. Ilegal, atentatória, ditatorial, déspota e prepotente.

http://www.theguardian.com/media/2013/nov/13/wikileaks-trans-pacific-partnership-chapter-secret

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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