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O meu grande amigo Bruno Falcão Cardoso expôs ontem, olhando ao meu artigo da semana passada, e com a mestria cirúrgica que o caracteriza, o racional fecundo que gerou o Wikileaks, percorrendo a conjuntura que se lhe deu como parteira e lançando várias sementes – muito mais do que sementes, na verdade, mas permitam-me manter a lógica às metáforas – para uma importante discussão – sobretudo reflexão conjunta, diálogo partilhado, como a definição parece recomendar − acerca deste tema. Hoje, tomo o meu turno e procuro dar algum contributo ao diálogo.

Concordo com o Bruno em diversos pontos da sua análise, nomeadamente na explosiva necessidade de surgir quando surgiu, vulcânico, o Wikileaks, pressuroso, furando a crosta sempre cicatrizante e simultaneamente em carne-viva das organizações de poder para rebentar à superfície, capaz de levantar maremoto retumbante. Foi isso que fez e que era talvez fundamental fazer. Concordo que o seu surgimento era até muito necessário e talvez lamente mesmo que a pancada não tenha sido mais desarmante ainda. A guerra movida ao poder de governos mais ou menos encastelados, às grandes corporações além-DHS – por extenso, além-Deputado Hugo Soares −, que não só nos afirmariam que todos os direitos podem ser referendados como ainda nos garantiriam que todos os direitos são bens e, como tal, têm um valor, ou o fogo-cerrado com que se devem cercar dantescas negociatas, empréstimos-armadilha ou swaps em lose-lose situation, tudo isso talvez justifique um terrorismo de transparência, porque toda a revolução precisa de armas – até o nosso 25 de Abril, que insistimos ter sido pacífico, esquecendo-nos das chaimites nas ruas, das espingardas ao ombro, da artilharia no Cristo Rei, da fragata no Tejo fazendo mira ao Terreiro do Paço, etc.

Penso, porém, ser necessária alguma precaução, porque o terreno aqui é mais pantanoso, os agentes por toda a parte e as armas presque invisibles. Gostaria, talvez, que o Wikileaks pudesse desaparecer tão depressa como apareceu, deixando-nos de herança a sua missão. Afinal, toda a revolução nasce de e cimenta ideologia, mas deve ser, na espectacularidade e acutilância da sua acção, transitória, e não correr o risco de se transformar em sistema. A guerra perpétua é a pax romana, e o Wikileaks, pondo em campo a transparência radical de que na passada Quinta-feira aqui escrevi, pode redundar na paranóia da segurança, na pânica visibilidade total, ponto prévio para a espionagem, passo além no terror dos ecrãs.

Mais a mais, porque caindo com estrondo no meio da praça, nos pés do mercado, estalando sobre a calçada dura, há o risco real de que os fragmentos que se libertem com maior convicção do poder quebradiço e escrutinável sejam aqueles que menos pesam – é assim a física dos corpos e da atenção pública −, cravando-se apenas na retina dos transeuntes sound e textbites como os “Fuck the EU” que pouco dizem e nada importam, pois que são meros quotidianos inoperantes que somente se dão como foguete na narrativa cinematográfica da escuta, no marketing do segredo, no noticioso reclame que é napalm sonoro.

Não será a estratégia que eu preferiria, pela prevenida coerência a que o assunto me insta, mas creio que o Wikileaks é tremor de terra conveniente, como o tiro solto que se dá na noite escura para que os passos que a preenchem marchem na direcção contrária. Temo, porém, que o Wikileaks não possa cumprir a promessa que corporiza. Por culpa própria ou talvez por responsabilidade alheia. Porque a massa que o aplaude por impulso, pela mera percepção do posicionamento das barricadas, se sentará – nem sequer na primeira fila – esperando que a salvação se anuncie. Pior, talvez, do que os engravatados espectadores que se sentavam em plateias erguidas nos desertos do Nevada para assistir ao rebentar de bombas nucleares e ter o salutar prazer de experimentar a sua onde de choque.

O problema poderá estar na massa ou na própria estrutura do dispositivo. Preciso de reflectir mais profundamente sobre a questão, mas nestas alturas valerá a pena parafrasear McLuhan, quando este dizia que são os meios, os dispositivos que influem decisivamente sobre a escala e a forma das acções humanas. Pode bem ser que o Wikileaks não tenha cabimento nesta acepção McLuhaniana, mas não será descabido  nem ilícito considerar a hipótese.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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One thought on “Realidade: um outro mundo bem diferente (parte 3)

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