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Na semana passada debrucei-me sobre as redes sociais. Sete dias depois, volto à carga. E não o faço por ser um particular contestatário a estes tipo de páginas (até porque tenho uma), mas antes pelos múltiplos fenómenos que por via delas as pessoas fazem acontecer.

Comecemos pelo princípio: o facebook. Haveria sempre quem quisesse, constipado por preciosismos contemporâneos, aflorar mais a coisa, destrinçando as vacas dos bois e fazendo uma revisão da literatura que fosse parar ao saudoso mIRC, passasse por um World of Warcraft e ainda um MSN, até desembocar no facebook. Mas os fenómenos a que me refiro, começam mesmo na rede criada por Mark Zuckerberg, ainda que as raízes de tudo isto já venham dos primórdios.

O nascimento do facebook veio essencialmente criar uma inultrapassável fricção mundial, entre os que têm, e os que não têm. Os que têm uma conta, e os que não têm uma conta. Até aqui fácil de perceber. O problema foi que a partir desta divisão nasceram outras. Os que têm porque quiseram ter; os que têm porque se sentiram obrigados a ter; os que não têm porque nunca quiseram ter; e os que não têm porque se sentiram obrigados a não ter.

No início, foram meia dúzia de cromos a experimentar. Depois, quando se percebeu a graça, utilidade e potencialidade da rede, rapidamente surgiram os amigos e os amigos dos amigos. E assim se foi enchendo o balão, com cada vez mais pessoas. Mas nem toda a gente se sentiu seduzida a partilhar a sua vida na internet, e foram estes resistentes que ao longo dos anos foram sendo marginalizados pelos utilizadores do facebook, pela incapacidade em perceber como é que era possível alguém conseguir sobreviver tão à margem do resto do mundo, sem partilhar fotos, sem fazer likes, sem espreitar pela fechadura a vida dos amigos e dos conhecidos.

Aceder ao facebook pelo computador ou pelo telefone foi-se vulgarizando de tal maneira que quem não o fizesse simplesmente era anormal. O extermínio desta raça tornou-se inevitável, e ano após ano este holocausto virtual levou milhares para dentro da rede social. Ficaram poucos para contar a história, mas os que ficaram ganharam nova vida.

E a partir deles nasceu uma nova geração, a marcar e fazer-se notar pela diferença. Os que, à boleia dos que não tinham rede social, se quiseram tornar atractivos pelo simples facto de não ter uma conta no facebook. O que antes era quase motivo de vergonha passou a ser um ingrediente extra de valorização de personalidade.

Dizer num date que “não se tem uma conta no facebook” é hoje quase tão certeiro como se deixar a chave do Audi A5 em cima da mesa ou anunciar que se trabalha num prestigiado escritório de advogados. Como se uma pessoa que não tem facebook fosse logo mais interessante só por isso.  Isto trocado por miúdos quer dizer que o facto de não se ter conta numa rede social já não é algo que se queira esconder, mas antes mostrar, fazer disso propaganda, com muito orgulho.

Temos de um lado os facebookaholics, loucos em postar o mais insignificante dos eventos do seu dia e a deitar cá para fora o seu lado mais esquizofrénico, tirando selfies como se não houvesse amanhã; e do outro os Hipster Sociais, os que se escondem por detrás de Marks Newmans, Ritas Carvalhos e outros perfis falsos para poderem vasculhar o que é que os amigos andam a fazer na net e à noite poderem dizer, de óculos quadrados bem enquadrados, «eu não tenho facebook».

São tão mauzinhos uns como os outros, são tão diferentes os que criam uma história das suas vidas em fotos, quanto os que a enigmam e disso fazem gosto por não utilizarem uma rede social, quando ainda por cima é mentira, na maior parte das vezes.

Os Hipters Sociais estão em voga e é provável que também “só oiçam música alternativa e que não passa na rádio”, assim como os tais óculos quadrados e as skinny jeans. Ou então não, se isso passar a moda, como parece que entretanto já passou. Isto no fundo é a mesma conversa do telemóvel, quando passou a ser cool dizer-se que não se usava nem se tinha um telefone portátil, e que giro, giro era fazer chamadas pela cabine telefónica.

Ou então, mais recentemente, carregar ostentosamente um Nokia 3310 e gabá-lo nas carruagens do metro, lado a lado com o Iphone da senhora de nails que só serve para jogar candry crush. No fundo a idiotice é a mesma. Há ainda os que, de forma inocente, gostam de dizer: “o meu telefone faz o mesmo que o teu faz, não preciso de um smartphone para nada”. Pois não. Também não preciso de internet para nada, também não preciso de mandar emails nem de processar a minha informação e a minha rede de contactos de forma cem vezes mais rápida. Posso até viver numa caverna, e fazer fogo com pedras.

É tudo uma questão de marcar a diferença pelo quão mais alternativo se é. Mas as coisas mudam. De tal forma que muitos se sentirão desde logo atingidos pelo termo hipster, caído em desgraça desde há uma temporada. Não há-de ser nada.

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André Cunha Oliveira

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One thought on “Os hipsters sociais

  1. É normal que assim seja, é um problema próprio da geração referência do pessoal que usa as redes sociais: querem todos destacarem-se pela diferenciação mas usando metodologias idênticas.

    O Facebook, é um mercado. É um mercado de vários trilhiões de euros feito do nada… minto, feito da capacidade de atrair uns quantos biliões para dentro dela. Para mim é isto. E é também uma ferramenta de contacto, de trabalho e de diversão. Nada mais que isso.

    Agora, cada vez vejo mais gente a fazer daquilo um autêntico AVATAR, i.e., fazer toda a sua vida lá. Inclusive, cada vez se vê mais o pessoal em pleno café, sentados à mesma mesa e tudo com o telemóvel na mão… parece que a vida passa-se toda na rede e não entre olhares e toques comprometedores.

    Seria um bom tema para vocês aqui escreverem, que acham?

    Mais, e os problemas de segurança que este tipo de redes acarretam? Mesmo com os filtros de privacidade, etc e tal, a informação fica sempre contida nos servidores. É relativamente fácil para um certo grupo de pessoas, incluindo empresas privadas e até mesmo certos governos, passar por cima desses filtros e descobrir muita coisa dos que são mais “livres”.

    Enfim, é um assunto que dá pano para mangas.

    Gostei muito do artigo! Parabéns! Fica aqui é o desafio para o olhar das redes sociais sobre a perspectiva de uma mesa de café.

    😉

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