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O desabrochar do craque Jesé Rodríguez pela equipa principal do Real Madrid, trouxe à baila a velha questão sobre os jogadores formados pelos merengues. Nesta temporada a aposta no prodígio espanhol e em jogadores de boa qualidade como Nacho e Carvajal fez transparecer a ideia de que a formação/cantera madridista renasceu e voltou finalmente a dar bons frutos ao plantel principal.

Trata-se de um pensamento natural já que desde Casillas nenhum canterano se impôs na equipa merengue. Em contrapartida no rival Barça foram emergindo talentos em catadupa que singraram no conjunto blaugrana e conquistaram diversos títulos nacionais e internacionais, afastando os troféus dos milhões de euros gastos em reforços pelo clube de Madrid.

Na minha opinião este pensamento por muito lógico que seja é extremamente falacioso. Na última década o Real Madrid produziu jogadores de muita qualidade que poderiam ter servido até hoje de forma decisiva a equipa principal. A aposta em jogadores de renome internacional – em muitos casos devido a questões comerciais – foi afastando sucessivamente os canteranos da equipa principal. Nos últimos anos passaram pela formação merengue jogadores de grande qualidade que foram totalmente ostracizados por dirigentes e corpos técnicos.

Juan Mata, por exemplo, rumou a custo zero ao Valência depois de brilhar no futebol de formação madridista. Alguns anos depois venceu todos os títulos colectivos que um futebolista pode almejar, esteve envolvido em duas super transferências e hoje é uma das grandes figuras da selecção espanhola. Álvaro Negredo mesmo brilhando sucessivamente em Espanha foi sendo constantemente desprezado pelo Real Madrid e hoje é um dos melhores avançados do Mundo. Juanfran lateral direito do renascido Atlético de Madrid de Simeone nunca foi aposta no Real, assim como o dono da lateral esquerda dos colchoneros: Filipe Luís. O brasileiro esteve no Castilla (equipa B do Real Madrid) e acabou por não ser aproveitado de forma eficiente pelo clube merengue. Hoje é um dos laterais mais cobiçados do futebol europeu. Até o matador Samuel Eto’o esteve no Castilla e pertenceu durante anos ao Real Madrid sem nunca ter merecido minutos suficientes na equipa A.

Entre aqueles que não tiveram espaço de manobra no Bernabéu e singraram noutras paragens, encontramos diversos nomes interessantes: Javi Garcia – Brilhou no Benfica de onde saiu para o Manchester City a troco de 21 milhões de euros;

Roberto Soldado – Após abandonar o Bernabéu brilhou no Getafe e no Valência. Rumou esta época ao Tottenham por mais de 30 milhões de euros;

Borja Valero – Ex comandante do miolo do velho submarino amarelo do Villarreal. Hoje brilha intensamente na Serie A, ao serviço da Fiorentina;

Jurado – Importantíssimo no Atlético de Madrid vencedor da Liga Europa de 2010, conta no currículo com uma passagem interessante pelo Schalke 04. Actualmente defende o Spartak de Moscovo;

José Callejón – Brilhou no Espanyol de Barcelona, regressou a Madrid mas sem grandes oportunidades rumou a Itália. Hoje é uma das grandes figuras do Nápoles;

Rodrigo – Apesar de ainda ter muito para evoluir é indiscutivelmente uma das figuras em destaque do Benfica e um dos principais concorrentes a herdeiro da camisola 9 da selecção espanhola.

Nomes como Diego Lopez e Arbeloa, foram recentemente resgatados a outros clubes quando poderiam compor o plantel merengue sem grandes custos se nunca tivessem sido dispensados do Real Madrid. A ascensão de Jesé poderia ser antecedida da de Mata, Negredo, Diego Lopez ou Eto’o, se eventualmente os jogadores tivessem tempo e espaço para evoluir gradualmente no Real Madrid. Criou-se o mito de que a formação merengue não tinha qualidade simplesmente porque na primeira gestão de Florentino Perez, se contratavam Zidanes e Ronaldos para o ataque e se deixavam os lugares defensivos entregues a jovens despreparados e sem qualidade como Miñambres ou Pavón. A mescla de grandes craques com jogadores a debutar sem tempo para evoluir, detonou o clube e travou o crescimento sustentado dos atletas. Uma coisa é apostar paulatinamente nos jogadores porque têm qualidade e outra é colocá-los em campo à pressão porque se gastou todo o orçamento em reforços do meio campo para a frente e não resta mais ninguém.

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Hugo Leal em acção num derby frente ao Sporting. Um dos últimos talentos a brilhar de águia ao peito

Curiosamente em Portugal este fenómeno de formação de qualidade, sem espaço, pode repetir-se no estádio da Luz. Nas últimas duas décadas a formação do Benfica foi um verdadeiro fracasso. Proliferava a capacidade física em detrimento da qualidade técnica e jogadores limitados como Rui Baião, Mawete Júnior ou Toy eram vendidos aos adeptos como grandes promessas. Outros mais talentosos mas sem estaleca e espaço para evoluir foram desaparecendo como Hélio Roque, André Carvalhas ou João Coimbra. Desde Rui Costa que o Benfica não formava um grande jogador. Após a saída do Maestro todos aqueles que esporadicamente apresentavam talento para singrar acabaram por sair de forma inglória do clube. Foi assim com Hugo Leal, Maniche, Manuel Fernandes e João Pereira. Assim como no plantel merengue, a equipa principal do Benfica apresenta nomes formados no clube que foram resgatados de forma mais dispendiosa quando poderiam nunca ter saído dos quadros do clube. Falo objectivamente de Sílvio, Rúben Amorim e Paulo Lopes.

Nestas duas décadas o fosso para a formação do rival Sporting foi sempre gigante devido essencialmente à falta de qualidade dos jovens formados no Benfica.

Hoje em dia a diferença entre os meninos nascidos em Alcochete e aqueles que emergem no Seixal é muito menor e os encarnados têm demasiado talento acumulado nas suas fileiras. Atrevo-me a dizer que muitas das promessas encarnadas simplesmente não vingam porque não têm oportunidades. Nomes como Danilo Pereira, Miguel VítorNélson Oliveira e Vlad Chiriches poderiam ter sido muito úteis ao Benfica se tivessem outro tipo de utilização.

A actual formada da equipa B, juniores e juvenis é provavelmente uma das mais talentosas da história dos encarnados e é necessário paciência e suporte para que os jovens singrem de águia ao peito. André Gomes vai sair num negócio com contornos pouco claros sem nunca ter vingado, Bernardo Silva com tanto talento exige minutos na equipa A e Ivan Cavaleiro vai aproveitando as oportunidades para mostrar serviço. Como estes três na Luz e em Madrid há muitos mais, é preciso é que o bom trabalho que se faz na prospecção e no desenvolvimento enquanto jovens, chegue à equipa A e estes tenham minutos para crescer e realizar o sonho de sempre.

A forma descuidada e até sincera como Jesus despreza a formação e como o Benfica forma plantéis sem pensar no suporte da equipa B e na progressão dos seus talentos, vai travando o crescimento de um clube menos dependente de empresários e mais nacional. As críticas públicas de promessas esquecidas como Nélson Oliveira e David Simão mancham ainda mais o que de bem se tem feito no futebol de formação dos encarnados.

Se as compras mediáticas e até desnecessárias do Real parecem impedir constantemente o sonho dos meninos merengues, na Luz as promessas vazias a que Luís Filipe Vieira nos vai acostumando não chegam para acreditar na ascensão dos meninos do Seixal. O mais difícil está feito, agora é preciso dar espaço e compreensão para os talentos se soltarem e acabarem de vez com os mitos de falta de qualidade na formação.

Que uma simples explicação sirva de exemplo a estes emblemas: “As canteras são boas nos dois clubes (Real Madrid e Barcelona). A diferença é que aqui (Barcelona) nós os colocamos a jogar”Pep Guardiola.

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SONY DSCBruno Gomes

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2 thoughts on “Real Madrid/Benfica: Mitos da má formação

  1. O André Gomes está no terceiro ano de Benfica após chegar do Boavista. Dificilmente entendo este como um ‘produto da cantera encarnada’.

    Sinceramente, não conheço bem as equipas de formação do Benfica, mas de todos os citados, apenas vejo talento no Bernardo Silva, porque de resto. Ivan terá uma carreira, se tiver sorte, ao nível de Djaló…

    Continuo a achar que desperdiçaram um grande talento ao não dar oportunidades também ao Miguel Rosa…

  2. João Pereira nunca foi um grande talento, Manuel Fernandes Maniche e Hugo Leal, Danilo Pereira forçaram a saída.

    O Jesus não exclui os portugueses, simplesmente escolhe os que jogam melhor. O Nelson Oliveira tem talento, mas nunca conseguiu perceber como articular o seu jogo com o do resto da equipa, continua a ser o nelson oliveira dos sub 20 que acha que tem de resolver tudo sozinho.

    Quando à aposta na formação, há que dar tempo, a primeira geração que reflecte uma aposta forte na formação é a actual equipa de juvenis (geração de 97, com quem o vieira já assinou contratos até 2016). Os jogadores não têm mais direito a jogar só porque são formados no Benfica. como disse, jogam os que jogam melhor, sejam da formação do Benfica, do Velez, ou do Traktor.

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