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No futebol habituamo-nos a rotular personagens, a idolatrar quem faz um pequeno gesto de apreço ao nosso clube, a desprezar quem reage mal no calor de um jogo, num gesto ofensivo para a bancada. E assim Enzo Pérez passou de besta a bestial, mais pela atitude do que pelo futebol (tanto futebol!) que apresenta. E assim me criticam por idolatrar Cristiano Ronaldo, o rapaz que outrora fez um ‘pirete’ para a bancada da Luz. Ou por torcer, semana sim, semana sim, pelo sucesso de José Mourinho, esse vil técnico que um dia ousou levantar a voz contra o Benfica, quando defendia as cores do rival FC Porto.

Foram apenas três exemplos, poderia dar-vos muitos mais. Mas já que me foquei nestes três, não posso deixar de acrescentar: de Enzo gosto pelo que dá à equipa, pelo que joga, pelo que corre, não pelas palavras que agora diz do meu clube mas que daqui a um par de meses – se algum cheque chorudo aparecer – tratará de emendar. De Cristiano gosto porque é português (sim, tenho este triste hábito de torcer pelos ‘tugas’ la fora mas nem por isso me considero mais português que outros que não o fazem) e porque é genial. E gosto também porque é um animal competitivo que, por isso, dentro de campo se transforma e às vezes cega (agora menos vezes que outrora). E de Mourinho gosto porque também ele é português. Também ele é fantástico no que faz. Também ele é uma máquina de competição, mesmo que isso na sua forma de ver signifique ser arrogante, cínico, conflituoso. Foi pouco correcto com o meu clube quando defendeu o azul da invicta? Claro que foi, foi Mourinho. Já o tinha sido no Benfica (e isso, como se sabe, até ajudou a inviabilizar a sua ida posterior para o Sporting). Foi-o em Londres, em Milão e em Madrid.

Serve esta introdução para pegar numa outra personagem, cujo rótulo é quase o oposto do de José Mourinho. Falo de Pep Guardiola, o treinador da moda que tem um curriculum impressionante e uma assustadora média de títulos por temporada. Dou muito mérito ao que o técnico catalão fez em Barcelona, mérito esse que é cada vez mais evidente dada a quebra que se tem assistido no clube blaugrana. Mas recuso-me a surfar essa onda do técnico sempre humilde, do técnico sempre correcto, do técnico que só se exprime através do jogo da sua equipa, do técnico que não joga nos bastidores nem nas conferências de imprensa. Em Barcelona provou que era humano mais do que uma vez. Cometeu os seus erros e quando a coisa apertou para o seu lado também começou a disparar em todas as direcções. Sim, porque todos os cães rosnam quando alguém lhes puxa o rabo.

No geral, Pep Guardiola é um muito melhor exemplo enquanto cidadão do que José Mourinho. Isso, por si só, não é grande elogio dado que o nosso José não olha a meios para atingir os seus fins, no que à sua profissão diz respeito. Mas nem Mourinho simboliza o que de diabólico há no mundo da bola nem Guardiola simboliza o oposto. São os tais rótulos de que vos falava e que pegam quase de forma acrítica.

Ora, Pep Guardiola saiu esta semana com uma conferência de imprensa que bem poderia ter sido de José Mourinho. Disse o técnico catalão que vencer a Bundesliga (Liga Alemã) era um desafio mais difícil do que vencer a Liga dos Campeões. «O título mais prestigiado é a Liga dos Campeões mas o mais difícil é o campeonato alemão», frisou o técnico, no alto de toda a sua sabedoria. Fez-me lembrar, e muito, José Mourinho. Porquê? Porque passou uma mensagem errada, mentiu convenientemente, e aproveitou ainda para sacudir a água do capote no que diz respeito à candidatura à Liga milionária. Com quase 20 pontos de vantagem numa Bundesliga este ano muito desequilibrada (com mérito para o Bayern mas também muito demérito e algum azar para os rivais), Guardiola decidiu meter as fichas todas no galgo que já tem os dentes ferrados na lebre. Inteligente senhor Pep! Mas também algo desonesto da sua parte…

A desonestidade de Pep Guardiola torna-se ainda maior se atendermos ao papel do seu clube na Liga Alemã. O gigante da Baviera funciona quase como um eucalipto que seca tudo à sua volta, tal é o poderia financeiro e tal é a força da marca FC Bayern. Uns dirão que é a estratégia correcta, aproveitando a vantagem financeira para ganhar também vantagem competitiva, enfraquecendo os rivais. Outros dizem que é uma forma de concorrência desleal. Eu digo que é um pouco das duas coisas. O que interessa é que para Munique seguem os craques da competição, nem que venham vários directamente do principal rival no momento em questão. Foi assim no início do século, quando os bávaros atacaram em força os craques de um Bayer Leverkusen que esteve perto de tudo ganhar (e tudo perdeu…). Desse Leverkusen chegaram Zé Roberto, Michael Ballack e, dois anos depois, o central Lúcio. Uma espinha dorsal fantástica que foi completamente desfeita. Os farmacêuticos tiveram que começar de novo. E tem sido assim também mais recentemente, quando é o Borussia de Dortmund quem tem tido o ‘descaramento’ de enfrentar o colosso Bayern. O primeiro foi Mario Götze, segue-se Robert Lewandowski. Em Dortmund, não há nada a fazer senão continuar a confiar no faro de Jürgen Klopp para encontrar substitutos. Alguém duvida que Marco Reus já foi ou será sondado? E Gundögan? O próprio Hummels, outrora desprezado na Baviera? Para além destas razias aos rivais na luta pelo título, o Bayern vai também secando quase todos os craques que vão surgindo, numa estratégia à qual já não consigo apontar o dedo. Fazem o que devem fazer e o que têm capacidade para fazer. O goleador do Werder Bremen hoje, o goleador do Estugarda amanhã, o central dominador do Hamburgo no próximo ano.

Guardiola é um homem inteligente. Um técnico fabuloso como ele não poderia ser outra coisa. Foi inteligente ao sair de Barcelona quando percebeu que não lhe dariam liberdade para abrir mão de alguns craques que estagnavam e perdiam a sede de vitória (como agora se vai comprovando…). E foi ainda mais inteligente ao aceitar o desafio do Bayern. Mas que não venha agora com conversas e com areia para os olhos dos mais distraídos. Não senhor Guardiola, ganhar a Bundesliga nestes moldes, com o que tem à sua disposição, são “piners” como diria Jorge Jesus. Há mérito na forma como a vai ganhar, com uma vantagem pontual assustadora, mas a conquista em si é tudo menos “difícil”. Não há comparação possível entre a dificuldade em ganhar esta competição (sobretudo quando se juntou um ano atípico para o BVB ao nível de lesões) e a dificuldade que é ganhar uma Liga dos Campeões. Competição na qual, diga-se, o Bayern é também o principal favorito.

Há um pouco de medo, de controlo dos danos de um eventual fracasso nas palavras de Guardiola. É normal, a herança é pesada e tudo o que não seja ganhar Bundesliga, Liga dos Campeões e Taça da Alemanha será considerado um fracasso. Pep agarra-se ao título da Bundesliga num ‘mind-game’ à José Mourinho. Nós sabemos que tanto um como o outro sabem controlar as expectativas melhor do que ninguém, sabem baixar a fasquia na mensagem que passam para fora mas ao mesmo tempo passam uma mensagem diferente para o balneário. No Chelsea, todos sabem que são favoritos. No Bayern, todos sabem que a Champions é bem mais difícil que a Bundesliga. Por isso esqueçam os rótulos. Quando as necessidades assim o exigem, os opostos podem parecer mais semelhantes que nunca. Mourinho pode parecer um Guardiola. Guardiola pode parecer um Mourinho.

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joni_desenhoJoni Francisco

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One thought on “Pep Mourinho?

  1. Excelente texto e análise Joni! Parabéns!

    Para mim, acrescentava que quando oiço o nome de Pep Guardiola vem logo à memória um estilo de jogo vincado em posse de bola. Já quando oiço José Mourinho, vem logo a ideia de um jogo em transições rápidas e eficazes… ambos são duas formas de jogar futebol. Até aí o futebol é universal…

    😉

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