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Se neste momento pudesse escolher, talvez optasse por viver em Paris. De cada vez que lá vou, custa-me sempre mais um pouco voltar, e não fosse a família, os amigos e o trabalho, talvez esta terça-feira, ao invés de me ter enfiado num pássaro metálico, talvez me tivesse armado em Lautrec e adquirido um quartinho num dos bordéis de Montmartre, ou antes ter escolhido umas águas-furtadas em Saint-Germain-des-Prés, perto dos clubes de jazz, uma residência de estudantes no Quartier Latin, ou uma vista de pescoço torcido sobre o Sena ou a Torre Eiffel, rive droite ou rive gauche.

Paris é, quanto a mim, um desses raros sítios onde se conjugam as sortes da geografia e a bela arquitectura, o carinho dado às artes e à cultura indissociáveis das suas histórias e desses tempos onde todos os artistas iam morrer, nas ruas escorrendo absinto em copos de ideias, servindo paixões e fervores no ferro quente que marcou as páginas à história até às folhas dos dias de hoje. É o sucesso do marketing amoroso, mas também a sua atmosfera de honestidade na paixão, para quem sai das lojas de souvenirs, tira a cabeça fora do metro ou das limusinas de espalhafatosos americanos feitas e das armadilhas mais turísticas.

Paris chega-nos à língua, à porta dos lábios, com a neutralidade velada das preposições, mas ela não pode senão ser mulher. Parece-me isso óbvio, na verdade, e não é preciso percorrer mais de um par de ruas, ou algum dos seus vinte arrondissements em particular, para à conclusão chegar. Lembro-me, numa das primeiras vezes que fui à Cidade das Luzes, do meu pai me dizer que em Paris só havia mulheres e os respectivos cãezitos. Já não sei o que pensei disso na altura, mas hoje sei que, na parte da frase que respeitava às mulheres, ele tinha razão. Paris é não apenas das mais bonitas mulheres que um país pode ter, mas as parisienses são também certamente das mais elegantes que os olhos podem ver, seguras do seu estilo cosmopolita, da haute couture penetrante nos dias simples como que bala cega trespassando montras, ulteriormente confiantes na sua liberdade e emancipação, de passo estugado na certeza da sua beleza e até, qui ça, nos seus jeitos e trejeitos de femmes fatales, que fingem não reconhecer na locomoção deslizante para assim exponenciar os seus efeitos e afectos.

Vejo, caro leitor, que estou hoje sem foco nem capacidade para com interesse — mais do que próprio — analisar o que quer que seja — e as parisienses mereceriam muito mais do que esta meia dose de linhas mal-amanhadas ao fim da noite. Talvez se dê o caso de parte de mim ainda estar em latitudes francófonas, ou talvez ainda tenha as ideias em trânsito. Seja como for, não reúno as condições para me encarregar desse prazeroso e merecedor trabalho de com propriedade aqui lhe escrever. Despeço-me, pois, e remeto-me — tal como às minhas palavras — para a próxima semana, altura em que deverei já ter reunido forças e intelecto para acompanhar os meus amigos e camaradas de blog em algo com a necessária substância.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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