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Taxativamente se pode afirmar: não há nada mais lógico e racional que o capitalismo. Taxativa e ironicamente, bem entendido. Sinceramente digo que penso não existir roupagem mais fraudulenta que encubra tamanha proporção de insanidade como este nosso sistema económico-financeiro actual. É, sem margem para relutâncias, uma viagem hilariante ao submundo – a céu aberto – da errática loucura estéril, privado carrossel de lunáticos que rodopia sobre si, confundindo as leis da física com a sua própria tontura, rotação infinita, alucinada melodia sem partitura.

Bailando sob a batuta da manápula invisível, uma larga maioria do globo convenceu-se, paulatinamente, que a ganância comanda a sanidade económica: que a persecução a eito do lucro justifica os princípios e os métodos empregues. Que, de qualquer forma divina e omnipresente, a ciência económica sã comporta, como processo homeostático, a livre e desregulada actividade dos agentes económicos e financeiros. É como acreditar no Pai Natal. E o mundo acreditou: fugiu a sete pés do temor comunista primeiro, e depois tomou o gosto ao nojo gradual pelo socialismo. Pé ante pé, o Ocidente está já na fase do despudorado anarquismo financeiro, puro e bruto – um anarquismo financeiro que se hegemonizou ao próprio mundo. Subjugou a política, a economia, a diplomacia, a ideologia, a solidariedade. A selva corporativa do capitalismo canibal anulou os Estados, assaltou e vilipendiou o institucionalismo democrático e vende agora, mais que nunca, a campanha publicitária que pretende, à força da mercê ovina, ensinar o novo mandamento social, base do ponto final na História dos Estados como os conhecíamos: cada um por si.

Implodiu-se a social-democracia. O próprio Direito, esteio defensor dos limites, escreve-se com as letras da vontade do corporativismo «too big to fail». Morre a salvaguarda política, abre-se o alçapão da tecnocracia autómata, aparelho robusto e todo-poderoso que se preserva contra o cidadão, sugando a vida do colectivo para subsistir gordo, seboso, rosáceo e ocioso. A filosofia do empreendedorismo é exemplo do marketing sócio-cultural que pretende introduzir a ideia de que o ónus da alavancagem económica resta sobre os ombros do «wannabe» empresarial, que se endivida para criar sucesso: uma espécie de inacreditável resolução individual para um problema estrutural e colectivo. Um «faça você mesmo» sócio-laboral e político, onde o Estado se demite (ou pretende, de pantufas) das suas obrigações estruturantes. O ódio concertado contra os pensionistas, desempregados, inválidos, doentes, sem-abrigos, pobres ou simples contribuintes, demonstra, factualmente, a inclinação do nosso Estado para ser cada vez menos Estado. Os impostos, esses, são de Estado tipicamente nórdico, mas o seu socialismo é de corrente filosófica inexistencialista, se é que me entendem: tira tudo para nada oferecer.

Assim juram esvaziamento os Estados e as democracias, perante o jugo extrapolador da máquina locomotiva da financialização de topo. A racionalização dos recursos, a idealização do progresso simétrico e o mutualismo sócio-cultural são atirados pela borda fora, catalogados como subjectividades não científicas que não contam para a formulação matemática da ganância. O bem comum suprimido em detrimento do regozijo particular. O dinheiro público canalizado para o estratagema privado. Basta atentar em grande parte das PPP’s cá do burgo (encargos para o Estado e lucros para as empresas), nas privatizações de serviços essenciais (que concorrem, muitas vezes, para criar monopólios ainda mais megalómanos e tirar maneio ao Estado) e no serviço da dívida, renda catastrófica de juros eternos. Se a isto tudo adicionarmos o faroeste bancário que vivenciamos (dos EUA passando por toda a velha Europa, com Barclays, Deutsche Bank e afins na diantera da vergonha) temos o paraíso perfeito para a ditadura global da economia pervertida, ao serviço de um por cento da população mundial: é esta a lógica que a nova ordem total quer ensinar ao planeta. A lógica do terminantemente inaceitável. Do irracional, do medievalismo, da vassalagem, da escravatura, da injustiça distributiva, da miséria geral e da opulência de uns quantos. Este capitalismo aprumou-se a partir da década de 70 e fechar-se-á em transmutação final com o secreto tratado de parceria «transpacífica», que está na forja do segredo dos deuses da alta finança. Fechar-se-á um ciclo que dominará com autoritarismo a economia global, e onde a precarização laboral é soneto sem emenda.

A lógica é uma batata neste mundo globalizado tão hipocritamente dito evoluído, racional, dinâmico e socialmente abrangente. Um mundo onde a comida é destruída para nivelar preços e onde, só na Europa das cosmopolitas uniões disfarçadas, 11 milhões de casas devolutas estão sem gente: enquanto isso, a pobreza galopa e mata, e mais de 4 milhões de sem-abrigos europeus vivem como cães nas ruas desta modernidade apregoada, toda tecnologias exuberantes e sinais de luzes de ofuscar tansos. Vivemos na economia da perversão. E a cultura, enfraquecida, é sugada para mínimos rasteiros. Em Portugal, a exemplo, assiste-se à dissolução da actividade política e plural típica do exercício da democracia, com a ingerência externa a castrar a programática e o ideário de PS, PSD e CDS-PP. As alternativas políticas vão, gradualmente, desaparecendo: vote-se em quer votar, o resultado é o mesmo…acordemos. Porque o fascismo bate sempre duas vezes.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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