Home

É Carnaval. O momento do ano com mais palhaços nas ruas, do que os que 365 dias por ano nos governam. Não, não era assim que pretendia começar este artigo. Mas a altura é de partidas e estava com receio de não ser levada a sério, senão juntasse as palavras palhaço e governo na mesma frase. Agora penso que já esta criada uma base de entendimento. Prossigamos então.

Portugal sai à rua por estes dias, em forma de corso. Desfilam-se fatos brilhantes, de cores berrantes e, por norma, de tamanho reduzido. E aí está uma das minhas grandes interrogações. Se o Carnaval se comemora em Fevereiro ou Março, com as condições atmosféricas incertas, porquê vestir dançarinos carnavalescos como se estivessem no Rio de Janeiro em pleno verão? Pois, é que lá é verão e por cá faz um frio de rachar. Tenho, por isso, pena de quem se desfila em cueca e soutien (desculpem, de fato cuidadosa e manualmente preparado com três meses de antecedência) e com o termómetro a marcar 10 graus. O samba deve aquecer, presumo. O que me leva para a próxima questão: Porquê sambar em Portugal? Aposto que no Brasil o sambódromo está cheio de minhotos a dançar, orgulhosamente, o vira.

Dúvidas à parte, e esquecendo que a minha imagem do Carnaval em Portugal é personificada no Roberto Leal (aquele que diz há décadas que é português, num sotaque brasileiro perfeito), a verdade é que, importado ou não, o festejo mascarado e brincalhão já é uma tradição no país. E, por isso, deve ser preservada. Que se continuem então com os carros alegóricos a satirizar políticos e que estes desfilem atrás das matrafonas, dos cabeçudos e das princesas do samba. Tudo com muita serpentina e confettis. Que a época não é para cortes nas fitinhas e bolinhas coloridas.

FotoCarnavalTorresVedras-720859Cada terra escolhe anualmente o seu rei e rainha, puxando para si a fama de ter o Carnaval mais tradicional, mais brasileiro ou o mais antigo de Portugal. De tal forma, que eu ainda não percebi qual é. Entre Alcobaça, Sesimbra, Samora Correia, Sines, Estarreja, Mealhada e Ovar, ainda não percebi qual é o melhor Carnaval do país. Na dúvida, escolho o de Loulé, porque cresci lá e por lá aprendi o que é apanhar uma valente birra porque a nossa mãe nos quer despir o fato de espanhola. No entanto, a localidade que me prende a atenção por estes dias é Torres Vedras. Por uma simples razão. Escolheu como tema anual do seu corso a Televisão. Não poderia achar mais acertado. O que mais combina tão bem com o Carnaval que a televisão portuguesa?

A televisão, em Portugal, é como o Carnaval. Uma valente partida. E digamos que faz despertar em mim o síndrome de tourette que nunca me fora diagnosticado. É um reflexo automático. Ligo a TV e começo a disparar asneiras. Por vezes, paro e olho estupefacta para mim mesma, espantada com as que sei e desconhecia.

julinhaSó mesmo a Júlia Pinheiro é capaz de superar as minhas asneiras. Antes dissesse esta senhora palavrões e palavrões seguidos, de bolinha no canto superior direito do televisor. Mas parece que prefere proferir asneiras sem usar palavrões, sem dó nem piedade para quem a assiste. E tudo poderia ser moralmente aceite, não fosse o tom utilizado. Em cada frase, a senhora oscila entre os graves e os agudos, de forma rápida e astuta (que ela já anda nisto há muitos anos). E o mais incrível é que a frase pode ter apenas duas palavras. A oscilação é a mesma. Antes do ponto final, Júlia Pinheiro é um autêntico falsete humano. Seja lá o que isso for.

E parece que já tem pupila, ignorante aprendiz da sua sabedoria de apresentadora televisiva. Cristina Ferreira tem treinado os seus agudos e apresenta-se, diariamente, com um tom igualmente irritante. Acordo, ligo a TV e assusto-me com o guincho da Cristina Ferreira. Mudo de canal e assusto-me, novamente, porque vejo a mestre Júlia Pinheiro. É uma estranha forma de se começar o dia e uma maneira cruel de se perceber que as manhãs televisivas estão entregues a quem melhor sabe guinchar. Se bem que sinto alguma compaixão pela Cristina Ferreira. Porque, admitamos, a senhora está fisicamente bem e apresenta uma boa imagem. Facto que a própria é capaz de detonar, em segundos, quando começa a rir de pernas abertas e tem desabafos como «Oh Manel, sabes o que comi ontem à noite? Um cachorro. Aqueci as salsichas na lata e tudo!». Sim, aconteceu mesmo, em directo, na passada sexta-feira.

Julia-Pinheiro-e-Cristina-Ferreira

Existissem só Júlia Pinheiro e Cristina Ferreira, que acumulam funções de apresentadoras e de directoras de programas nos respectivos canais, e a televisão portuguesa poderia ter salvação. Fosse só uma batalha matinal de guinchos por audiências e a programação televisiva poderia merecer credibilidade. O verdadeiro problema é que as personagens que conduzem programas de visibilidade são, na sua essência, profissionais pouco credíveis, habituados que estão a registos populares sem qualidade. Porque bem sei que a televisão se deve adaptar ao público que a acolhe, mas também acredito que isso pode ser feito de forma séria e pouco carnavalesca. Porque, no final, a televisão também educa quem a assiste. E isso não se faz com mascarados.

Nem se faz com programas que oferecem dinheiro através do 760, com o José Figueiras a procurar há décadas a vocação que não tem, com a Teresa Guilherme a fazer trocadilhos em cada frase que nunca chegam a gerar uma piada, com os domingos preenchidos com emissões que seguem o calendário de festas populares de norte a sul do país ou com a variedade estonteante de blazers envergados pelo Goucha.

E porque nenhum canal gosta de mostrar a diferença, pela positiva, seguem todos o mesmo corso deprimente e enfeitado de purpurinas. E, no final, a programação televisiva portuguesa é tao variada, como o samba é português. Entre talk-shows baratos, e três novelas em horário nobre, sobra espaço para as pausas em formato de telejornal. Também este bastante discutível, mas deixo salvaguardado de críticas o único pedacinho de informação pseudo-útil que é oferecido aos telespectadores.

O que eu gostava mesmo era de estar presente no momento em que se definem, criam ou se compram conteúdos para um canal português. Imagino que alguém surge pela porta com uma brilhante ideia: «podemos fazer um programa com famosos a dar mergulhos numa piscina». E, pronto, já está. Ocupa o horário nobre durante duas edições, enquanto assistimos nauseados aos chapões de José Castelo Branco, aos domingos. Ou, em concorrência: «vamos fechar duas dezenas de jovens duvidosos numa casa e perceber quantas vezes são capazes de se agredir ou enfiar debaixo de um édredon». Ao que alguém deverá responder: “mas já fizemos isso”. Resposta: «desta vez vai ser diferente, colocamos strippers e acompanhantes, que isto entretém a família toda lá em casa». E, assim, se reúnem a mulher e o marido no sofá, com os seus pequenotes, para ver a Teresinha no final de semana.

Não espero, de todo, que a televisão portuguesa deixe de assumir um formato popular. É esse o seu destino. Mas que caminhe para a palhaçada, sem que se reflicta no fim, na qualidade ou no conteúdo dos programas, parece-me que é subestimar o público nacional. Porque todos gostamos de palhaços e folia, mas para isso já festejamos o Carnaval. Nos restantes dias, deveríamos poder viver sem máscaras e partidas. E ligar o televisor, descansados, porque ninguém vai guinchar.

Mara desenhoMara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

Anúncios

One thought on “É Carnaval e a Televisão vai mal

  1. Apoio este texto mas queria apenas deixar a uma observação: Está correctíssimo quando se diz que é através da televisão se educa a população, e o conteúdo fraco e bera da televisão portuguesa mostra o quanto a população é fraca e bera. É assim que os governos querem a população, burra e inculta para levarem sempre a sua avante. E isto não é só em Portugal, nos USA ainda é mais latente o facto de trash TV que é no fundo o ópio para o povo estar tranquilo não pensar muito, porque só assim fica bem controlado…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s