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O constante exame das nossas acções e suposições deveria ser obrigação maior de qualquer indivíduo. Será isso talvez utopia ababelada, e quem sabe se não configuraria até atentado à homeostasia necessária, possível, das passadas do quotidiano, mas como ocorre com a maioria dos “deves” que devemos em cada momento das nossas vidas, essa sistemática do alerta, lógica da infalível falência pela cautela, eles têm ao menos a capacidade de, amiúde, nos sacudir e fazer encarar de frente – como regra geral acontece com as caras – os desafios e dúvidas que nos saem ao caminho. O susto faz sempre pensar e desperta os sentidos.

Não querendo fazer o papel de advogado do diabo – o Keanu desempenha-o certamente com maior correcção do que eu e sempre me pareceu que o papel do Al Pacino tinha mais momentos de deleite −, e até porque não é disso que se trata, parece-me ser perfeitamente natural que Putin, o incofundível ora-Presidente-ora-Primeiro-Ministro russo, queira meter a mão nos assuntos da Ucrânia. Não tem isso, de resto, qualquer laivo de surpresa, qualquer indício de inesperado, e é preciso – se preciso for – roer um bocadinho o punho e engolir uma dose generosa de sais de frutos para que, deste lado da Europa, deste lado da Ucrânia, possamos nós também querer meter a unha no lombo cossaco. Porque, honestamente, as ambições são semelhantes, embora simétricas. O tabuleiro geopolítico, aqui, é claro e espelhado no seu xadrez a preto e branco. Em jogo está não apenas a definição de fronteiras de influência, contenda pelo Mercado da Lealdade, como o dizia o académico norte-americano Monroe Price, pelo puxar da corda ideológica. Porque o que aqui nos parece óbvio encontra igual no inverso axiomático do rival.

Já o diz o Existencialismo: Quando um Homem escolhe, quando um Homem age, ele está automática e imediatamente a prescrever uma visão do mundo a todos os seus pares, a promover e difundir a ideologia que o constrói a todos os demais. Os assuntos internos e a soberania são-nos caros, e com sobeja razão, mas assim como os Direitos Humanos não podem ser referendados, também os princípios democráticos, as liberdades e garantias populares não podem ser postas em xeque.

Porque uma fronteira não deve ser prisão, e porque um território não pode passar por recreio de poderosos. Porque entre os polícias do mundo e os permissivos do globo vai um passo maior do que a perna.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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One thought on “São nossos os países dos outros

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