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Não há rua de uma grande capital que não os tenha, onde eles lá não estejam a fazer malabarismos, a cuspir fogo, a fazer bolas de sabão gigantes ou simplesmente a tocar uma pandeireta. Não há calçada de comércio onde eles não estejam acampados. Mas também é verdade que nestas avenidas por onde passa gente endinheirada e de bem com a vida, não há vez nenhuma que não se olhe para estas almas com desdém e malícia.

Parte-se do princípio de que estes artistas de rua andam à caça de uns trocos para enterrar na droga e no álcool, o que, ainda que até possa corresponder à realidade nalguns casos, noutros é apenas um falso julgamento assente em preconceitos herdados de geração para geração.

Acaba por ser uma ofensa para pessoas que certamente nada têm que ver com o mundo da transgressão. Por que razão um junkie tem de ser drogado? Que estupidez. Pode apenas ser um junkie de estilo, nada mais.

Quem diz que no final do dia o junkie que faz bolinhas de sabão na Rua do Carmo, não sobe uns metros acima no Chiado para ver a ópera “El gato montés”, no São Carlos? Ou que no fim-de-semana sai com os companheiros de golfe até ao Estoril para dar umas belas tacadas depois de uma espectacular mariscada no Guincho?

A questão é que as pessoas conseguem conseguem ser más, muito ruins até. No outro dia enquanto descia a Avenida da Liberdade uma sexagenária com laivos de Filipa Vacondeus rejeitou dar uma esmola  e ainda respondeu ao indigente sem pernas e braços com o já conhecido “vá mas é trabalhar”.

E atenção que isto nada quer dizer quanto à insensibilidade desta senior com o cabelo levemente armado. Aquela completa ausência de membros superiores e inferiores podia nem sequer ser verdadeira, “que eles muitas vezes fingem que são coxos e andam melhor do que eu”.

Mas bem, voltando ao ponto inicial, o que importa aqui desmistificar é a ideia de que todo o malabarista ou solicitador de moedas tem de ser vagabundo. Não é assim, há que perceber isso. É que daqui a pouco estamos a dizer que todos os “artistas de rua” de todas as principais avenidas de todas as cidades mundiais acabam o dia a beber jolas e a noite numa casa ocupada ou pedaço de chão coberto por uma ponte que os proteja da chuva.   E que todos foram rejeitados pelos pais, que não aguentaram a pressão do capitalismo e da sociedade ocidental e a obrigatoriedade de aceitar um trabalho para ganhar dinheiro.

Cada pessoa tem a sua vida, sabemos lá nós o que para ali vai. Lá por os junkies do Chiado serem praticamente uma fotocópia dos que moram na Avenida dos Aliados, com os mesmos flesh tunnels encravados num pedaço de orelha, as mesmas quantidades de caveiras tatuadas e igual número de dentes, não quer dizer que se tratem de pessoas com os mesmos hábitos e estilos de vida.

Roberto Peschini, de 27 anos, é um dos mais famosos junkies da Europa, estando encarregue de animar uma das avenidas mais caras de Milão, a Via Montenapoleone. De manhã e num restinho da tarde trata de fazer uns malabarismos com umas massas que roubou há uns anos atrás aquando da passagem de um circo chinês pela cidade de Roma, onde esteve instalado por uma semana para um festival de música. Depois, à tarde, acaba por fazer umas comprinhas na Prada e na Gucci na mesma rua, e com as chorudas oferendas dos turistas que por ali passam.

Já João Maria, de 32 anos, circula por Campo de Ourique normalmente pela parte da manhã, onde realiza uns espectaculares números de acrobacia para o público em geral. Na parte da tarde apanha os filhos na Secundária Pedro Nunes e por volta das 16h30 leva-os a tomar o lanche até ao Restelo, numa conhecida pastelaria. Uma hora depois leva-os até ao rugby, altura em que regressa às ruas para reeniciar a sua actividade.

O José Alberto, de Valongo, porventura não terá o mesmo nível de vida, mas servem estas histórias para calar os preconceituosos que inclusive poderão estar a ler este artigo e que por norma pensam que sabem tudo sobre esta malta só porque são todos iguais. E os advogados e escriturários, não usam também todos bonitos ternos e andam aos bandos na hora de almoço, à procura de restaurante? Só por isso têm de ser todos poderosos magnatas?

Caramba, cada um tem a sua vida. Um junkie só por ser junkie não pode andar a cavalo ao fim-de-semana e sacar de um belo cubano enquanto se pavoneia com o seu Aston Martin no Parque das Nações? Claro que pode, e depois, no final do dia, terminar uma jornada de trabalho em beleza a tocar o hino da alegria numa flauta de bisel, para os transeuntes. As pessoas é que são más.

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André Cunha Oliveira

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