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A passada quinta-feira ficou marcada por mais uma manifestação. Desta feita foi a vez das forças policiais demonstrarem o seu desagrado para com as políticas do Governo através de uma numerosa concentração popular em frente à Assembleia. Esperava-se alguma agitação, quem sabe o acontecer de algo capaz de deixar, pelo menos, a pulga atrás da orelha dos nossos governantes, mas apenas foi possível vislumbrar alguns empurrões entre amigos dentro de um espetáculo pacífico que parecia encenado em direto para a televisão. Há quem defenda que a brincar se dizem as verdades; eu digo que a brincar não se vai ao longe.

Violência, um traço característico de povos incapazes de encontrar soluções para os problemas através do diálogo. Não será este o nosso caminho, o rumo das pedradas e dos cocktails molotov não está nos nossos genes nem nunca estará. Somos racionais por natureza e esta é uma faculdade que pretendemos preservar, mas a racionalidade do povo não é sábia em medida suficiente para resolver tão grande problema. Como se se tratasse de um caso de polícia, neste caso o delito está definido e o ladrões bem identificados, restando apenas definir a estratégia para os capturar ou, pelo menos, fazê-los fugir para nunca mais voltarem. Mas como?

É nesta pergunta que se resume a grande dúvida de toda esta questão. Sabemos que eles ali estão, mas as arcadas de pedra daquele símbolo nacional são mais forte que o aço das celas de uma qualquer prisão. Têm, porém, a função inversa: nas cadeias o objetivo é não deixar os criminosos alcançarem a liberdade, ali é mantê-los livres. E os polícias, apologistas que são da justiça, cercaram o Parlamento em defesa dos seus direitos, mas o seu esforço acabou por ser em vão. Polícias e polícias, aliados e unidos pelas mesmas causas, encarnaram ali o papel de rivais e trocaram carícias em frente às câmaras. Os media aplaudiram e fizeram um enorme alarido como se de um reality show se tratasse, mas três feridos ligeiros e os dois guardas identificados não escondem a mensagem escondida nas imagens em que agentes da autoridade fardados respondem a empurrões com apelos à calma e à ordem. Amanhã seremos nós, recém-licenciados à procura de um futuro melhor, ou o caro leitor, desempregado ou trabalhador precário, a fazer o mesmo em circunstâncias semelhantes, e no final da noite poderemos contar quantas bastonadas teremos marcadas no lombo.

Destas brincadeiras está o povo cansado, o primeiro passo para a mudança sociopolítica é a mudança de mentalidades e de consciências a nível individual. Não é legítimo que exijamos honestidade aos nossos políticos quando somos polícias que em manifestações distribuem pancada em cidadãos comuns e festas em colegas de profissão, quando fazemos de tudo para arranjar uma cunha que nos arranje emprego, quando preferimos a preguiça ao trabalho e nos queixamos que o salário é curto, quando fazemos tudo isto porque toda a gente o faz e porque, no final das contas, a culpa é do sistema.

Temos que perceber que o sistema somos nós, é moldado pelo padrão comportamental e cultural da população. Ele depende diretamente de nós, se queremos uma sociedade mais justa e ética temos que adotar estes princípios como valores fundadores da nossa conduta diária enquanto cidadãos individuais e só depois de este passo ser alcançado poderemos partir para manifestações e outro tipo de procedimentos coletivos que visem condenar os abutres que ao longo de décadas tiveram a destreza para se aproveitarem da melhor forma de uma sociedade que da maneira que está construída atualmente tende a incentivar e a proteger os abusos das elites instaladas no poder. Até lá não há manifestação que tenha repercussões efetivas, porque o Parlamento é feito de matéria (quase) inquebrável e a brincar nunca chegaremos longe.

Diogo Taborda desenho Diogo Taborda

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