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Policia

Envolta em grande expectativa, muito à custa da cobertura mediática estonteante, a manifestação das forças policiais, levada à cabo na passada quinta-feira em frente à Assembleia da República, pouco mais trouxe à causa, que a angariação de espectadores atentos. Muitos assistiram, pela hora do jantar, aos gritos dos manifestantes revoltados, ao impasse do rompimento do cordão de segurança e ao duelo entre as forças que se opunham, todas da mesma classe: as forças policiais revoltadas e as forças policiais que ali se apresentavam a trabalho, a medir forças com os colegas de profissão.

E era por este curioso duelo que muitos de nós aguardávamos, em frente ao televisor. Mas, convenhamos, o que todos esperávamos ver era uma enorme cena de pancadaria entre os protagonistas. Poucos estavam interessados na causa policial. Poucos têm motivos para se identificar com esta. O grande motivo das nossas ânsias estava na expectativa de ver um macabro cenário de violência. Foi então, com enorme desapontamento, que os comentários se desenrolaram, em conversas simples de café ou em desabafos nas redes sociais, criticando o fim da manifestação. É que a escadaria já os tínhamos visto a subir, na manifestação antecedente. Agora esperava-se mais. Esperavam-se cheiros de revolução. Mas isso é o que todos esperamos de há uns anos a esta parte e cheiro da revolução nem senti-lo.

A manifestação da passada semana soma-se a todas as outras que foram desfiladas perante o actual governo. Com o sabor agridoce, de quem luta pelos seus direitos mas que poucos resultados sente. Que se manifesta por ser o seu papel, mas que sabe, intimamente, que as suas preces não vão ser ouvidas. Porque este governo é, já nos provou, surdo. Mas, não provando ainda ser cego, vamos angariando pares descontentes e desfila-mo-nos com eles, e por eles, nas ruas. Que a imponência de uma manifestação revoltada é algo que até um governo surdo sente.

Ainda assim, e remetendo-me à atitude dos manifestantes das forças policiais, não me parece que a melhor forma de mostrar o seu descontentamento seja violando as leis que os próprios estão acostumados a ajudar a condenar, no exercício da sua profissão. Aqui, bem sei que seria necessário separar o polícia enquanto manifestante e o polícia enquanto profissional. Algo que me parece bastante complexo, dada a impossibilidade de dissociar as duas personagens, perante o cenário actual que vivem na sua profissão.

Que no fundo é o cenário de muitas classes neste país. E, como muitos de nós sofrem os mandamentos ingratos da classe governante, poucos se solidarizam em grande medida com os motivos porque se manifestavam os polícias na passada semana. Com aquele egoísmo que nos é muito próprio, de quem olha mais para o seu umbigo do que para as malfadadas vidas dos restantes, pensamos que estes não sofrem mais do que nós e que os cortes nos seus salários não lhes pesam mais do que na nossa carteira.

Se este é o pensamento operante de nós próprios para com os outros, mais o é quando se trata da classe policial. A verdade é que não somos, nem fomos, educados para gostar de polícias e afins. Em pequenos dizem-nos que se não comermos tudo, vão chamar o polícia e que se não sairmos do baloiço, vem aí o homem de farda. E, assim, crescemos com a imagem do polícia muito próxima da do bicho papão.

Quando crescemos, muita da nossa repulsa pelos polícias continua latente ou, pior ainda, acentua-se. O polícia já não é «o mau», que nos impede de brincar ou que nos obriga a comer a papa, mas é aquele que nos pune, dificultando a vida. Multa-nos quando nem bebemos assim tanto, contra-ordena porque não pagámos o seguro que não tivemos dinheiro para manter, obriga-nos a travar a marcha quando só íamos ao dobro da velocidade imposta. O polícia não está a impor a ordem, tão fundamental na sociedade moderna. O polícia está a ser um grande sacana. Como são todos, afinal.

Naturalmente que com esta mentalidade não nos identificamos com o sofrimento da classe. Mas a verdade é que esta é um nicho sensível, no seio do descontentamento geral da nação. A manifestação de forças policiais não representa apenas um segmento, mas uma área estratégica do funcionamento do país. É por isso que acompanhando o desenrolar da sua luta, aguardando que os polícias se tornem no bicho papão deste governo. E que se não pararem de lhes mexer nos bolsos, eles vão buscar o bastão e lhes ensinem a não roubar. Tal como a sua imagem de farda me ensinou, anos antes, a não deixar comida no prato. Bastava ouvir as palavras da minha mãe: «Olha que eu vou chamar o polícia».

                                                               

Mara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

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