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A linguagem económica e financeira tem de se regenerar ao primórdio essencial. Rasgar-se e desintegrar-se das suas vestes virtuais e retroceder à simplicidade lógica que a todos deve fazer-se entender. Hoje estamos distantes da racionalidade discursiva na esfera da Economia global: soltou-se a fenomenal bizarrice, todo o edifício estrutural do preceito económico-financeiro é uma fachada abstrusa, ilógica (no sentido colectivo da sua utilidade) e condenada a mentir para dissuadir e eternizar-se enquanto pressuposta e dogmática epistemologia manufacturada pois, a martelo. Não há gestão, disciplina, ciência ou saber – esqueçam os livros, os economistas, o Excel, os gráficos, os mercados ou as agências de «rating»: é tudo mentira. Aldrabice. Armadilha. Trapacice. Ninguém gere nada, ninguém calcula, ninguém prevê, ninguém perspectiva, ninguém consolida nem ninguém restrutura. Flutuamos no lodo da discursividade oca, entre diálogos parlamentares vazios, narrativas ministeriais pérfidas, comentadores mercenários e europeísmos totalitários. Falta falar a verdade.

O poder financeiro depôs a primazia dos Estados. Acabaram-se os países, subverteu-se finalmente a hierarquia institucional que tinha nos órgãos soberanos a liderança do processo democrático, a sua manutenção e supervisão. A óbvia e descarada transferência de recursos do sector público, cada vez mais depauperado, para o sector privado, é a prova cabal desta concepção. Depois, a apatia submissa, humilhante e cooperante dos Estados perante o saque é outra das evidências. O ideal seria até – e foi – «ir para além da Tróica». A conclusão parece-me clara: o nosso país, nosso suposto defensor, faz parte da armada invasora que nos veio dizimar. A equipa é toda a mesma porque as soberanias foram anexadas, absorvidas, tornadas indistintas do poder financeiro e bancário. A diáspora da militância da Goldman Sachs pelo território europeu foi um dos passos iniciais. Enquanto isso, a transformação do ideário económico, fundido na retórica da alta «financialização», foi transmutando a História da dívida e socializando uma concepção cristã de culpabilidade, visando o contribuinte, o carregador de fardo económico habitual. Quanto aos criadores da crise do «sub-prime», em 2008, geradores de dinheiro-capital falso, especuladores, agiotas e vendilhões de toxicidades (lembram-se de «Abacus»?) aos seus próprios clientes, nada aconteceu – a sangria desatada da economia de casino prossegue. Enquanto as instituições financeiras fabricam insustentabilidades, é o contribuinte médio e baixo, aquele que compõe os Estados que se querem hoje abater, a pagar toda factura.

A realidade, pelo menos a sensorial, imediata que se nos apresenta à cognição, não precisa de tabelas de Excel nem de «ratings», de «ajustamentos», de Gaspares ou Durões. A realidade é esta: os pistoleiros da banca foram para a roleta, estoiraram tudo e agora somos nós a pagar o seu vício. E enquanto pagamos, a roleta continua a rodar. Empobrecendo enquanto as assimetrias da economia global aumentam descaradamente: o que fica, por entre a miséria disseminada, é um encargo eterno que nunca irá acabar, uma renda fixa feito de juros infinitos que engordarão a carteira daqueles que tomaram de assalto os Estados, falidos. No fundo, não há melhor culminar que este, próprio do neoliberalismo de guerrilha: chupar os Estados até os (quase) aniquilar. Quase porque não interessa deixar morrer a vaca espremida que sempre vai espichando um pouco mais de leite – o manifesto da restruturação da dívida é isso mesmo, alguma cautela no processo de captura do «devedor». Ver Louçã e a Esquerda aplaudirem esse pedaço de areia para os olhos é profundamente chocante. Mais um passo na colonização de todo o espectro político português. Portugal, como a Grécia, foi capturado e não mais será largado, presa eterna do enredo predador que nos condenará a viver como baratas precárias, onde haverá sempre um Miguel Gonçalves pronto a delirar perante a «ode Belmira» da instrumentalização da pobreza, onde a iniciativa individual fundamenta o colectivo: ele que migre para o Gana e regozije-se com os 67% de auto-emprego lá existente, sintoma inquestionável da boa organização laboral dessa potência mundial.

A linguagem económica tem de mudar, e de ser simples: eu quero uma auditoria pública às contas do nosso Estado, uma análise aos contratos das PPP (o caso da privatização das águas é novo rombo no cofre do sector público) e consequente interrupção de todo o contrato leonino e danoso para o Estado. Quero entender a quota-parte de dívida ilegítima e quero que se regulamente de modo rígido o sector financeiro, dos mecanismos de juros ao trânsito dos activos tóxicos e à especulação criminosa. Para tal é necessário confrontar a decadente União Europeia, com vigor e sem medo. Porque este processo de austeridade não é mais que a nacionalização da loucura dos privados (dívida) e, em simultâneo, a privatização das potencialidades dos sectores públicos.

«Uma reestruturação à partida teria sido melhor para a Grécia, apesar disto não ser aceitável pelos parceiros do euro. Uma reestruturação atrasada também criou a janela para os credores privados reduzirem a sua exposição e mudarem a dívida para as mãos de credores oficiais (FMI, BCE e instrumentos europeus). Esta mudança ocorreu numa escala significativa e limitou um bail in (resgate envolvendo os detentores de títulos de dívida) … deixando os contribuintes e os Estados com a responsabilidade de pagar.» – Relatório do FMI sobre a Grécia.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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