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A porrada é sempre deleite esclarecedor — ao menos para quem não está a levar verdascadas no lombo e ao menos, também, na por vezes infame clarividência da identificação de inimigos partilhados. É aí que se torna esclarecida, pela suposição de que aqueles que batem em maior número terão, de algum modo razão. É, afinal e tão simplesmente, outra sorte de sufrágio. Ao invés do papelucho deglutido pela urna, fazem-se as gargantas alheias cuspir os dentes. Voto invertido, talvez, mas voto ainda assim.

Na Ucrânia, os últimos meses pareciam pouco espaço deixar à dúvida. Qualquer leigo seria capaz de entrever como se dispunham as pedras no tabuleiro. A massa popular, clamando por mais Europa, puxava a corda que dividia a EuroMaidan para o Ocidente, enquanto que Viktor Yanukovich, presidente com matizes autoritárias na pintura berrante de uma Kiev a ferro e fogo, sobre a qual o fogo-de-artifício explodia, belo, como arma no antagonismo que tudo extrema perante os olhos, mas também autoritário de facto, na transformação política do país e traição das aspirações de parte significativa da população, fazendo a Ucrânia reaproximar-se do regaço da Mãe Rússia. Tudo parecia claro. O alvo trancado na mira dos manifestantes e nas salas do palácio governamental. Nas ruas, o confronto de sempre, óbvio e dolorosamente revisitado, romanceado, dividido entre o negro e o cinza das armaduras e escudos policiais e a mancha heterogénea, de madeixas azuis e amarelas entrecortadas pelo preto das máscaras e o vermelho do ruborizado protesto.

E quando tudo parecia óbvio, reparamos que já nada o é. Finda a batalha, calado o clamor, silenciado o barulho das luzes e o colorido das vozes, dispersa-se a multidão e restam-nos os grupos de pé fincado que a compunham. E sob a mancha da humanidade revelam-se finalmente os monstros debaixo da cama, debaixo do chão, debaixo da pele dos dias e da espuma das gentes marulhando indignadas.

O Svoboda (“liberdade”), partido de inspiração nazi, foi um dos pilares que não apenas saiu de pé da EuroMaidan, mas curiosamente também reforçado: é seu o vice-primeiro-ministro, o secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa do Estado, o Ministro da Defesa é seu simpatizante, e deve ainda referir-se o Procurador-Geral da Ucrânia. Este, que foi já considerado o quinto partido mais antissemita do mundo, tem agora várias das suas figuras de proa ao leme ucraniano. E sem outro sufrágio que o de quebra-ossos — os confrontos na EuroMaidan como sua acção de campanha –, pois que as eleições directas, de viva voz na praça central de Kiev, menos de nada terão feito pela expressão democrática do povo que por ela se bateu nas ruas.

Com os olhares concentrados — e com substancial razão — na Crimeia, qualquer dia mais Rússia do que não, é em Kiev e mesmo na ocidental e europeísta Ucrânia que os nossos piores receios se podem materializar. E ironia das ironias, como fecundo feto de uma revolução que todos, de perto ou de longe, à força dos dedos matraqueando os teclados ou de olhares respeitosos sobre os ecrãs de televisão, também subscrevemos.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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