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Entre a guerra das projecções matemáticas delirantes, da contabilidade merceeira e dos eufemismos analíticos, o futebol português vive um período de conturbação fervilhante, janela de oportunidade que revolve, plena de ácidos e lava, o cavernoso estômago do nosso núcleo futebolístico. Em vez do «penalty» óbvio que é simultaneamente duvidoso e do fora-de-jogo milimétrico que pode variar entre os dois milímetros e os dois mil milímetros, consoante prejudicado e beneficiado, os clubes deveriam estar preocupados com a guerrilha sem quartel que se vem apropriando da já de si árida terra por onde tem lavrado a corrupção nacional. Basta seguir o rasto do dinheiro.

Com isto venho desvalorizar, frontalmente, grande parte da estratégia comunicacional do Sporting Clube de Portugal, que na última semana elaborou um plano publicitário com o intuito de provocar reboliço, apenas caos, na podre harmonia do futebol português. Desvalorizo porque, objectivamente, o discurso invectivador é descabido. Dilui-se em demagogias baratas, contas subjectivas, reivindicações interesseiras e narrativas incertas. É óbvio que a insurreição sportinguista, depois de anos de impotência auto-imposta e de anemias directivas com as quais os adeptos compactuaram, retempera os espíritos dos fãs leoninos, mas isso não significa que está a ser realizada nos moldes exigidos. É óbvio que, um clube perdedor (à semelhança do Benfica), se sinta rejuvenescido quando é impulsionado por um presidente enérgico, frontal e desafiador: o documento apresentado à FPF e à Liga de Clubes, contendo propostas legítimas e extremamente positivas, foi um excelente começo, uma reacção elaborada e integrada numa acção esclarecida. A bem da verdade, ninguém prestou atenção. Posto isto, a táctica do barulho instalou-se. Numa semana só, uma pilha de intervenções presidenciais, directos e discursos, pressupostas batalhas jurídicas junto de instâncias criminais, alusões a processos-crime contra árbitros, com a UEFA e a FIFA na órbita da narrativa. Pairando sobre o fim-de-semana, o brotar do «Movimento Basta» fez escarcéu nas ruas, palanques para notáveis e anónimos, e a metros, o clássico de Domingo ganhava forma. Benquerença fugiu, sobrou para o Proença melhor do mundo: golo em fora-de-jogo e um lance que se assemelha a um «penalty» sobre Jackson que, adivinho, se fosse a favor do Sporting era escandaloso, já que Cédric nem se faz à bola, nem salta, apenas dando um esperto «cheirinho» nas costas de quem não foi capaz de marcar efectivamente.

No rescaldo, todos elogiaram bacocamente o titubeante reconhecimento presidencial de que o golo fora um erro que beneficiou o Sporting: ora, depois de uma semana de bombardeamento sobre «verdade desportiva» e somas pontuais «à lá garder», que mais poderia fazer Bruno de Carvalho? A isso estava obrigado – a janela temporal não lhe permitia o silêncio. Ainda assim, cheio de eufemismos (a começar pelo imagético, onde mostra uma imagem enganadora que esbate o real fora-de-jogo) lá foi ele reconhecendo, sempre com a preocupação de referir que «grosseiros» são os lances que prejudicam o Sporting já que os claríssimos são todos contra. Está certo: só espero que o FC Porto não processe o Proença no valor de 8,6 milhões de euros, pois, a bem da verdade leonina apregoada, o único golito que resolveu um jogo atado foi irregular e atirou o Porto para fora do lugar de acesso directo à Champions. Ainda mais irónico é a «liga da verdade» sportinguista: mas alguém no seu perfeito juízo acredita que o Sporting, auto-declarado não candidato, tinha capacidade para vencer este campeonato? Eu, sinceramente, sempre os ouvi dizer que não – parece que durante a semana passada isso mudou diametralmente. Bruno de Carvalho, antes de presidente, é um encantador de leões. Ainda para mais, partilha da linear sabedoria do queixoso comum (isto também se aplica a benfiquistas), que faz contas como quem lê bolas de cristal: ora, «certo, a penalidade contra o Belenenses é irregular, mas, alto lá, que marcámos mais dois golos, logo, ganhávamos 2-0» …a sério? Quem diz? Podiam ganhar 10-0, como podiam empatar ou perder, quem sabe? Resumindo: calma. Este ano nunca foi vosso, vocês próprios o afirmaram, mantenham-se coerentes. Com garra e competência o clube irá regenerar-se, basta paciência desportiva e inteligência directiva. Insistam nas propostas de alteração ao regime, continuem a expor os erros de arbitragem, combatam o pântano deste poder instalado, mas reconheçam que mais de metade desta gritaria é igual à gritaria do Benfica quando perde. Ou à do Porto, apesar disso quase nunca acontecer.

Vou acreditar numa tentativa de reabilitação global da modalidade profissional quando os clubes quiserem reunir-se, propor medidas, debater temas, quebrar com lógicas monopolistas, fomentar a potencialidade deste desporto de modo colaboracionista. Se o Sporting quer encabeçar esse movimento, tem de voltar a insistir na exposição de novas propostas, tem de combater o «sistema» (sim, existe mesmo todos o sabem…) e isso faz-se quebrando elos e renovando dinâmicas de poder. A primeira prende-se com o totalitarismo chantagista da Olivedesportos, que manipula os clubes através das receitas televisivas. É onde está o dinheiro, é onde se «joga» a Liga por detrás dos bastidores do «penalty» e do fora-de-jogo. A dinâmica económica coloca a Olivedesportos no topo da cadeia de comando, e os clubes, famintos e passivos, abrem a boca para engolir as migalhas oferecidas. A segunda prende-se com a organização estrutural da FPF e da Liga e do cinzentismo nebulado que encobre a arbitragem e o seu Conselho. É óbvio que o poder do FC Porto formatou o futebol português durante décadas, o «Apito Dourado» até se ouve no «Youtube». Mas isso é tão declarado e tão perdido (a batalha abalou mas não matou o Porto) que o passado não deve entrar nas contas desta remodelação. O presente sim. E o presente viu alguém abalroar o presidente da Liga em plena estrada, ao estilo «gangsta shit». Alguém está com medo das verdades veiculadas. É tempo de atacar o monopólio económico da Olivedesportos: sem essa luta ganha, nada mudará. Está tudo refém dos trocados deles (basta ter em conta a reunião do Conselho de Presidentes…).

O Sporting acordou, e bem, finalmente. Mas deve focalizar-se no essencial, para si e para os outros, já que pretende tomar as rédeas morais de quem quer renovar a filosofia do futebol nacional. E o Benfica tem a responsabilidade de coadjuvá-lo nesta tarefa: elaborar mudanças, lutar por elas, mas com clarividência intelectual e sem demagogias fáceis que todos os adeptos aplaudem. Chorar quando não se ganha todos o fazem: sempre o fizeram, por amor da santa. Vamos sim despedaçar o reinado. Quebrar o ciclo. Toca a estudar, a congeminar, a juntar esforços e a debater, seja em privado seja em público. Se o futebol nacional se resolvesse a bem com queixumes pontuais e gritos de indignação quando se perde, já tudo estaria perfeito há séculos.

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Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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4 thoughts on “O encantador de leões

  1. Gostei de ler. A estratégia de comunicação do Sporting, se não for acompanhada de acções capazes de produzir algum tipo de mudança, de tão sistemática, acaba por cair naquilo que se usou/usa chamar “sistema”.

  2. Ai ai ai que o Sr. Bruno é mau! É feio, é populista, é demagógico os outros presidentes da Liga são uns cavalheiros, uns gentlemans. Opah se tá em brasa mete gelo.

  3. Porque e que o sporting nao poderia ganhar o campeonato? Algum decreto lei para tal nao acontecer? O que ganhou o benfica nestes ultimos anos com equipas poderosas? E nao me falem do maicon, porque se bem me lembro foi em alvalade que comecaram a perder esse campeonato .

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