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A tecnologia é cumulativa. Estamos sempre na sua ponta, na crista da onda, a dar o último grito, no fim da linha que não termina. Que não termina nem se subtrai, já que, mesmo no inverno nuclear, se os meios não estão dados, a técnica pode ainda permanecer, encasulada, encapsulada, adormecida talvez ao jeito das leveduras, na sala de espera do mundo em recuperação. A tecnologia é sempre o seu fim reiniciando-se, reinventando-se, e seu nunca é senão o seu estado último.

Hoje, a nossa tecnologia são, em grande parte, os ecrãs. De todas as dimensões, em todos os espaços, em todos os objectos, a todos os momentos, com todos os propósitos. Nunca, como hoje, nunca, desde sempre, os nossos ecrãs tiveram tanta qualidade nem tantas possibilidades, e pode bem dar-se a chance de que nunca, também, tenhamos assistido a transmissões com tão fraca qualidade, a meio caminho entre uma experiência amblíope e uma visualização quase vidente dos eventos televisionados — oportunamente, também e cada vez menos enquanto tal.

A tecnologia deu-nos o cinema digital, o plasma e os LEDs, o HD, o 3D, o IMAX e o 4K, e por aí fora até que se esgotem as possíveis relações e afinidades entre os caracteres alfanuméricos. Apesar disso, e apesar do HD se ir generalizando até na ilegalidade oceânica da pirataria, cada vez mais acabamos a assistir a filmes e séries e futebóis em ecrãs de portátil ou smartphone, de cores por vezes duvidosas, reflectindo tudo aquilo que possa nem sequer se ter lembrado de emitir luz, em streams mais frequentemente manhosos do que não, com quebras, solavancos soluçantes, inesperados e pouco apetecíveis glifos sonoros, ou torrents que se revelam com menos qualidade do que a que primeiramente publicitavam, menor do que a que o bom gosto estético aceitaria como rede última, etc.

A qualidade, na Era que, por ser a de hoje, mais a permitiria, é assim a mesma que principia a pô-la em causa. Porque talvez haja valores que mais nos dizem: a liberdade, para começar. Para a geração que ainda se lembra do mundo antes-de-internet (A.I., infinitamente mais relevante, hoje, do que o A.C.), a acessibilidade é o trunfo. Para o mundo que ainda se lembra das ditaduras sentidas na pele, a liberdade é e será o valor maior. Já nada nos podem proibir. Que se dane a qualidade cirúrgica! Vivemos no êxtase do acesso fácil, imediato, permanente. Não admitiríamos já querer ver, ouvir ou ler e não poder. Mais do que isso, não poder fazê-lo sem me levantar desta cadeira de onde escrevo, e neste portátil onde me ligo por meio do teclado e me acorrento pelo cabo que me liga o rato — a mão — ao próprio computador. Afinal, preferiria sempre ver o jogo ou a corrida agora, em directo, aqui, fazendo algum esforço para destrinçar as figurinhas no ecrã mal-iluminado, do que acompanhar em diferido, em ecrã gigante, ou mesmo em directo, num ecrã longe do conforto que nesta sala tenho.

Em 2010, no seu livro O Ecrã Global, Gilles Lipovetsky e Jean Serroy afirmavam claramente a permeação da nossa sociedade pelos dispositivos ecrãnicos: dos mini-ecrãs aos ecrãs-gigantes, os ecrãs multiformes, omnipresentes, planetários e multimediáticos; em suma, os ecrãs que permitem o tudo em toda a parte. Tinham, sabemo-lo já e até intuitivamente, talvez, razão, mas não me consta, se a memória não me trai, que tenham alguma vez referido a definição da imagem. E não se tratará aqui de acaso ou coincidência. A ausência não é aqui tanto omissão como o sinal da irrelevância desprezativa com que, à luz — sarcasmo da linguagem — do acesso, tratamos a estética da transmissão.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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