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A todos os sportinguistas que admiro,

Nós, amantes do futebol e dos nossos símbolos, não somos, nem seremos, educados apenas para amar. Somos, desde a tenra idade, treinados para amar com base na dicotomia amor/ódio e há algo nesta lógica que não me convence. Ao pequeno ser ensinamos: «Tens de ser do Benfica, porque o Sporting não presta»; «Não comes o gelado, se gostares dos verdes». E, assim, vamos desenvolvendo o amor a um clube, ao mesmo tempo que aprendemos a odiar o rival.

Bem sei que sem rivalidades o futebol não teria a mesma piada. Porque ganhar não é apenas conhecer o sabor da vitória, mas também ver o outro derrotado, invejado do nosso papel. Depois, ciclicamente, conhecemos o reverso da medalha. E, em vez de ambicionarmos novamente a vitória, rezamos para a derrota do outro. Não queremos estar por cima, queremos estar em cima dos que não gostamos.

Esta reflexão, dura de admitir mas bem real, vem ao encontro do meu último artigo no Palavras ao Poste. Para quem não leu, dava pelo nome de «O Bruno, o árbitro e o vilão» e incidia sobre a campanha levada a cabo por Bruno de Carvalho, na contestação das arbitragens do campeonato português e, sobretudo, na reclamação dos pontos em que o Sporting havia sido prejudicado. O objecto do meu artigo não pretendia estar na génese da campanha do presidente leonino, mas na forma como este a leva a cabo, de forma exageradamente missionária, em jeito de salvador da honra do desporto em Portugal.

Que o campeonato português deveria ser limpo de influências, penso que todos nós desejávamos. Que não existisse um sistema vincado, que faz variar os resultados de forma paralela à exibição das equipas. Que o Sporting fosse campeão porque merece ou que o Benfica fosse líder porque foi o melhor. Mas isso não existe e, mesmo que existisse, não serviria às discussões de café. Porque o papel de injustiçado assenta-nos bem, sejamos vermelhos, verdes ou azuis. E sair derrotado nunca será por mérito do primeiro, ou porque não fomos tão bons quanto este. É porque este não presta e foi levado ao colo. É esta a lógica do futebol nacional, habituemo-nos.

Mesmo com esta lógica vincada, acho relevante que qualquer dirigente se insurja contra o que não considera justo. Sabemos que as arbitragens são repletas de erros, muitas vezes preponderantes nos resultados, pelo que há que reclamar quando achamos que não foi feito um trabalho limpo, por aqueles que têm disso profissão e obrigação. O que não considero necessário à causa é que se queira ajuizar um campeonato, em vez de o submeter a um juiz. Pertencendo a um clube e vestindo uma cor, ninguém é apto para proferir as alegações finais de um julgamento que ainda não aconteceu. Bruno de Carvalho pode mostrar as suas contas, contar os resultados benéficos e prejudiciais ao seu clube, mas não me parece que isso seja credível.

Uma das razões porque volto a escrever sobre o tema está relacionada com a minha teimosia. Sim, admito, sou uma pessoa teimosa. Daquelas que se entusiasmam quando nos dizem que não devemos fazer algo, servindo de impulso para que o façamos, sem rodeios. Depois de exprimir a minha opinião sobre a missão de Bruno de Carvalho, o primeiro argumento que recebi (e o mais significativo) foi o de que a minha opinião nada vale. Porque as minhas contas do campeonato são diferentes? Porque acho que os árbitros desempenham um bom papel? Não. Porque sou benfiquista.

Descobri, à custa das minhas palavras, que, sendo benfiquista, não posso avaliar Bruno de Carvalho. Que estando do outro lado de uma circular, não posso opinar sobre o vizinho. E, depreendo, tenho de encarar cada comunicado e conferência de forma silenciosa.

Mas, adivinhando o meu estado de agonia para me manter silenciosa, depois do meu artigo no passado domingo, o presidente do Sporting quis tentar-me. Desafiou-me com mais uma conferência de imprensa e um comunicado durante esta semana. Claro que ganhou e cá estou eu, novamente, a falar sobre a sua pessoa.

E reitero, de forma confiante, tudo o que já escrevi. Porque Bruno Carvalho me ofereceu essa confiança. Quando, na semana passada, disse que o dirigente reclamava as arbitragens tendo em vista o Benfica (como o Benfica já as reclamou com os olhos no Porto), ainda este não tinha lançado o comunicado em que tenta denegrir a liderança encarnada e o seu presidente. Que Bruno entre em picardias com Vieira, pouco me desagrada, mas que questione o 1º lugar, só porque o deseja, parece-me precipitado.

O Sporting está a praticar um bom campeonato, pode ter sido prejudicado em alguns jogos, mas não está num patamar superior ao Benfica. Descredibilizar o mérito de uma equipa, que detém o melhor ataque e defesa da liga, atribuindo as suas vitórias às vontades de um sistema, não é justo. É de uma infantilidade extrema, que pouco se coaduna com um cargo de presidência.

O propósito de Bruno de Carvalho é louvável, os seus argumentos discutíveis, mas a sua atitude só agrada à comunidade sportinguista. Quanto às comunidades rivais, estas acharam um novo alvo de chacota. Tenho pena que assim seja. 

Mara Guerra

* Autora do «Visão Curta» e colaboradora do «Palavras ao Poste»

 

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2 thoughts on “O Bruno, o árbitro e o vilão – Parte II

  1. “O propósito de Bruno de Carvalho é louvável, os seus argumentos discutíveis, mas a sua atitude só agrada à comunidade sportinguista.”

    Esta é a frase-chave do teu texto e que, creio eu, muitos adeptos do Benfica e Porto ainda não conseguiram entender bem. É que é isso mesmo: Bruno de Carvalho, pasme-se, está a defender apenas os interesses de um clube, o Sporting Clube de Portugal.

    “Quanto às comunidades rivais, estas acharam um novo alvo de chacota.”

    Esta é a segunda frase-chave do teu texto e que, creio eu, muitos adeptos do Benfica e Porto ainda não conseguirem entender bem, incluindo tu. Como adepto Sportinguista, posso assegurar-te que senti na pele esse sentimento de chacota com diversos presidentes do meu clube (Godinho Lopes, Bettencourt, Soares Franco) e que, por várias vezes me senti envergonhado e ridicularizado com atitudes ou palavras ditas pelos mesmos. E, claro, aborrecia-me que o meu clube fosse alvo de chacota por parte de adeptos benfiquistas e portistas devido a tais figuras.

    A grande diferença para este presidente é que, por muita chacota ou gozo que os adeptos benfiquistas e portistas façam (ou tentem fazer…) com as atitudes ou palavras de Bruno de Carvalho, sejam glosando com os comunicados ou gozando com as queixas sobre arbitragem, a grande diferença, dizia eu, é que a grande maioria dos Sportinguistas, neste momento, pouco ou nada se está a ralar com isso. Aliás, pelo contrário, quanto mais “chacota” fazem com ele, mais isso o fortalece, aos olhos dos Sportinguistas. É sinal que incomoda.

    Quanto ao corpo do teu texto, se vivêssemos na Inglaterra, Dinamarca ou Alemanha, diria que tinhas toda a razão. Como vivemos em Portugal, digo que Bruno de Carvalho não fez (ainda) nem metade do que aquilo que Luís Filipe Vieira ou Pinto da Costa já fizeram durante os seus mandatos. E o BdC não questiona o 1º lugar do Benfica, questiona é o atraso que o Sporting tem para o Benfica, pois nas contas que ele apresentou, apenas alega que o Benfica deveria ter menos 2 pontos dos que tem actualmente (o empate em Belém), ou seja, continuaria sempre em primeiro, talvez apenas com o Sporting empatado em pontos ou logo atrás, com menos dois pontos.

    Saudações desportivas

  2. Acho que o problema,as dos benfiquistas, na análise ao comportamento do BdC ė não perceberem o que ele diz – nunca questionou os pontos do slb, apenas refere os que foram retirados ao sporting. São coisas diferentes.

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