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Ontem, o Bruno Falcão Cardoso escreveu-nos sobre justiça. E em bom tempo o decidiu, pois que no nosso ameno Portugal, mais por falta de tempero do que por especial acerto do cozinheiro, restar-nos-á em grande parte ser devotos da performatividade da língua, isto é, fazer da oralidade fé, reza produtora, como se por fazermos as palavras chegarem-nos à boca e ao espírito elas pudessem assim forçar-se no quotidiano, imiscuir-se no real além da mera ocupação de um invisível espaço sonoro.

Porque dúvidas não haja: a justiça, da criminal à social, a decência, a consciência do grupo e, mais grave então, o mais corriqueiro bom-senso partiram para outras paragens, ou talvez nunca tenham aqui assentado arraiais.

Todas essas ausências se expressam notavelmente nos casos que ontem nos evidenciou o Bruno. Ater-me-ei eu, portanto, em coisas mais comezinhas, mas que ainda assim causam incómodo e, o que não é menos, são exemplares pistas de que a despudorada e servil estupidez gananciosa fez tudo o resto refém. Nenhuma novidade, por certo. Na zona do Chiado — e provavelmente em seu redor –, a Câmara Municipal de Lisboa multiplicou-se em onanismos nocturnos, apondo aos sinais que regulam o estacionamento uma singela placa, letras negras em fundo branco, a preceito, referindo que ali, de ora em diante, o estacionamento é devido até à uma da manhã do dia seguinte. Uma frase, um punhado de caracteres basta para que o crime se cometa e confesse, a ignobilidade se revele e o nojo se processe.

Não se iludam nem confundam: enorme prazer me daria correr a cidade de uma ponta à outra, a qualquer horário do sol ou da lua, sem ter de fazer uso do carro. Muito me agradaria não ter problemas de estacionamento, deixar de medir o álcool ingerido e fechar os olhos a todas as responsabilidades que fazer uso de um automóvel acarretam. A cidade, porém, insiste em não o permitir.

O Chiado era zona vermelha, e não sem alguma lógica, durante o dia. Agora é-o também de noite, e às estultas mentes que gerem o parqueamento na cidade faltou inteligência para perceber as implicações da mudança; ficaram-se pela cobrança, e assim evadiram-se do racionalismo que lhes diria imbecil pensar que quem ali estaciona durante a noite, para jantar, ir ao teatro ou sair com os amigos, irá de 2h em 2h ao carro para renovar o estacionamento. Não é apenas nem tanto uma questão de conforto, mas de respeito e bom-senso, e de básica decência pela vida dos cidadãos.

Diz-nos a CML e a EMEL que é mais uma medida para reduzir a circulação automóvel na cidade. Enganem-me que eu gosto, apetecia-me gritar-lhes ao rosto. Até certos limites, mexer no preço serve apenas para alimentar contas bancárias, porque se as condições não estão dadas, parte da população ver-se-á forçada a suportar os custos agravados para manter as únicas opções que lhe são dadas. Resolver o problema do trânsito na cidade faz-se com mais e melhores transportes públicos colectivos, horários de funcionamento alargados, melhores parques de estacionamento seguros em zonas menos congestionadas da cidade ou nas suas franjas, etc.

Enquanto não, os parquímetros, ditadores de passeio, mereceriam apenas o que aos déspotas mais tarde ou mais cedo sempre sucede: um golpe na cabeça que os desfaça em cacos e lhes deixe os ossos nus, em redor dos quais dançarão, exultantes, os populares. No Bairro Alto, essa seria uma noite de júbilo e libertação. Enquanto não, tudo continua a ser feito para, a pouco e pouco, matar a cidade que, por vontades políticas variadas, de hoje e de antanho, se deseja deserta à noite.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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