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Hoje deparei-me com a liga de cavalheiros de ex-responsáveis pelo Banco de Portugal saltarem em conluio na defesa do ex-governador da instituição, Vítor Constâncio, actual vice-presidente do Banco Central Europeu. Miguel Beleza, Teodora Cardoso, José da Silva Lopes, Artur Santos Silva e Rui Vilar vieram a terreiro salvaguardar a honra do dito, o constante Constâncio, vigilante bancário que progrediu do Banco de Portugal para o Central, Europeu, tão veementes e contundentes foram as provas de habilidade dadas. Afirma a liga que todas as suspeitas e críticas recaídas sobre Vigilante Constâncio «assentam na incompreensão da natureza da supervisão bancária», porque, de facto, isto da coisa banqueira é um meandro científico-financeiro demasiado físico-quântico para o comum dos contribuintes, aos quais apenas se lhes assoma ao córtex cerebral o mecânico e ovino acto de pagar. Pelos erros de uns poucos.

De relembrar que Vítor Vigilante Constâncio era governador do Banco de Portugal, supervisor supremo, à data do rebentamento (2008) do magnânimo e catastrófico escândalo do BPN, fraude que arrombará cerca de 9 mil milhões de euros ao Estado português. O astronómico buraco causado pela sistémica corrupção empregue na constituição genética do BPN passou invisível pelos olhos de Vigilante Constâncio, o ímpio competente, Central Europeu galáctico que reforçou a supervisão do banco do velho continente. Mas, segundo a liga de cavalheiros (que teve um assomo corporativista, deduzo eu), nós, a gentaça das facturas permanentes, é que não temos inteligência para penetrar na «natureza da supervisão bancária», uma ciência oculta plena de esoterismo e redundâncias astrológicas desvendáveis somente para o espírito cartesiano dos doutos da finança, solipsistas do universo da boa da (des)governança. Eles estão certos, certamente sozinhos, e nós estamos errados, nós, as gentes do planeta pagante que não podem (nem devem) confiar nos seus próprios sentidos. Um dia ainda veremos algum bancário visionário ver que afinal o que todos viram não passou de uma visão: vêem? Talvez tenha sido tudo um sonho, vívido, é certo, mas rotundamente irreal e enganador – convenhamos, quem poderia ter visto o buraco? Os buracos não existem, certo? Eu, se fizesse parte da liga de cavalheiros, começaria por explicar precisamente isso, talvez recorrendo a alguns lápis de cera e a duas ou três colagens com cola UHU. Percebe-se: somos demasiado parvos para perceber.

«É irrealista a imagem criada de um supervisor que pudesse acompanhar em tempo real os milhões de operações que ocorrem a cada instante», afirma a liga: eu digo que irrealista é este sistema financeiro desgovernado e tão apetitoso para os «gangsters» especuladores e vendilhões da toxicidade bancária, que engordam à custa da opacidade financeira e da irrealidade dos juros e das transacções efectuadas. Desde 2001 (sete anos antes da bomba rebentar) que o BPN/SLN (Sociedade Lusa de Negócios) vinha sendo investigado, na sequência de processos na Polícia Judiciária, no Ministério Público e na Comissão de Mercado de Valores Imobiliários, mas, imagine-se, Vítor Vigilante e liguilhas, nunca desconfiaram de nada. Os galácticos das finanças, que certificam-nos da nossa «incompreensão da natureza da supervisão bancária», deixaram escapar o galáctico buraco que foi nacionalizado pelo Estado (com Sócrates ao leme, cerca de 5,7 mil milhões de euros injectados) com custos exorbitantes para todo o país. Parece que a ciência financeira é tão rebuscada que se torna inefavelmente trágica: é tão complicada que é impossível («irrealista» dizem-nos) ser inteligível. Eles são mais espertos que nós porque sabem que não se pode saber, e nós, burros, temos a ligeira sensação que até se poderia ter descortinado alguma coisa disto, dado o tamanho do asteróide. Mas não havia nada a fazer – são «milhões de operações que ocorrem a cada instante», logo, o Vítor está ilibado de qualquer responsabilidade. Assim, às três pancadas argumentativas, simploriamente justificado, como um paizinho explica ao filho de 4 anos que o Sol também dorme: por isso é que temos a noite.

A verdade escondida diz-nos que este banco era um alicerce politico-financeiro de um poder mafioso que corroeu sistematicamente o nosso país, uma fraude nacional plena de promiscuidade e de corrupção generalizada: um espelho do nosso funcionamento institucional. Da nossa inapta regulação jurídica e financeira, do nosso compadrio económico e do actuante capitalismo clientelar que deixa roubar em detrimento do colectivo social. O dinheiro dos contribuintes (reformas incluídas) andou a ser jogado na roleta da bolsa (a Caixa Geral de Depósitos tinha várias contas no BPN e o dinheiro das reformas é gerido pela CGD) mas ninguém achou pertinente controlar afincadamente as acções efectuadas com o dinheiro de todos.  O buraco engrandeceu, implodiu-se e ainda suga, mas os galácticos já nos aconselharam a não culpabilizar Constâncio ou o Banco de Portugal: porque tudo vai tão bem…porque haveríamos de responsabilizar alguém pelos desvarios, problemas, erros incomensuráveis, dívidas e corrupções a céu aberto? Nós, os portugueses, temos de começar a questionar os conselhos daqueles que, de um modo ou de outro, fizeram parte da globalidade errónea e ineficiente da nossa configuração política, financeira e económica (o Manifesto dos 74 é outro dos exemplos):

«Devemos ou não seguir os conselhos dos galacticamente estúpidos?»

Bruno Cardoso desenhoBruno Falcão Cardoso

* O autor opta por escrever em desacordo com o Novo Acordo Ortográfico e em respeito para com a Língua Portuguesa.

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