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Creio já ter chegado à conclusão de que os paradoxos que amiúde atingem a racionalidade — no momento de tal confluência provavelmente despida de sua própria existência — me embevecem. Afinal, assim como nas máquinas mais espectaculares, e para parafrasear Santos Fernando, é o que mais se espatifa que mais satisfaz, é também facilmente dedutível que nos confrontos intelectuais do si consigo mesmo mora a espantosa e interessantíssima brutalidade de ver essa maravilha que é a mente humana entrar em colapso.

Tendo feito a minha tese de mestrado na área dos ecrãs e da vigilância, este é um tema que me desperta especial atenção e interesse, acabando por me deixar levar por links mais ou menos interessantes, mais ou menos sombrios, sobre os que vêem e os que são vistos, muito frequentemente os mesmos, apenas trocando posições nos diferentes momentos dos dias e da vida. A incapacidade para perceber uma tal troca, mais ou menos perpétua, é a responsável por muitas das incoerência e complexidades racionais em torno do assunto.

"Justice Cap" (fonte: OddityMall.com)

“Justice Cap” (fonte: OddityMall.com)

Numa área onde a tecnologia procura superar-se a cada dia, ora em apps que escondem a localização de um telemóvel, ora naquelas que prometem encontrar todos em nosso redor, em ferramentas de hacking que permitem escutar os telemóveis de um país inteiro e aquelas que zelam para que as primeiras não nos apanhem, a mais recente novidade parece ser o “Justice Cap”, um boné equipado com um conjunto de LEDs na pala que torna o seu utilizador impossível de identificar por câmaras de video-vigilância.

Uma tal invenção, se não outras, tem como principal interesse, ao menos, a forma como dá corpo ao antagonismo que se agita no próprio seio da questão. Na descrição do produto podemos ler: «great for someone who’s looking to do some sketchy shit in a low lighted area», e os olhos brilham-nos, deliciados, ao entrever as possibilidades criminosas permitidas por um dispositivo que se distingue pelo uso do substantivo «justiça». Muito mais haveria a explorar nesta singela desadequação, mas não é aquilo que aqui persigo.

Não pretendo, aqui, porque não tenho nem o espaço nem o tempo — sem exasperar o leitor — mas também porque esse não deve ser o meu papel, fazer a apologia quer da vigilância radical quer da liberdade total. Entendo que me cabe, porém, convocar a questão para que cada indivíduo a possa ter defronte da testa, onde é possível analisá-la, por forma a que todos possam responder-lhe por si. Porque se a vigilância nos parece hoje total, quando um avião de 300 toneladas desaparece com mais de 200 pessoas a bordo, todos nos perguntamos como é isso possível dar-se, e clamamos por sistemas mais potentes, redundantes, duplos, triplos, perfeitos, perpétuos. Porque se a vigilância nos parece fundamental para que muitos dos nossos sistemas e sociedades possam funcionar tão eficazmente como funcionam, simultaneamente desejamos que as nossas liberdades sejam à prova da bala e do olhar, garantias fundamentais, inabaláveis, inalienáveis, de nossas vidas à margem da rede que cada vez mais, não sem as suas virtudes mas também não sem os seus vícios, vai coincidindo com a grelha dos meridianos e paralelos que nos mapeiam a superfície terrestre, o espaço das nossas vidas. Da malha digital, cibernética, à malha urbana e àquela das estradas ou das rotas aéreas, tudo é tão livre e móvel quanto observável.

Respostas não há, legislação ulteriormente eficaz e concludente talvez também não, e cada indivíduo se posiciona de forma particular. Se poderia dizer que nos restaria, como apontava Deleuze, procurar zonas de vácuo, de não-comunicação, de margem e de escape, que permitam algum equilíbrio, alguma resposta na busca da reposição homeostática, baixas pressões no quotidiano, sei de diversas pessoas que me afirmam que mais vigilância seria bem-vinda, pois a prioridade está na partilha, no conhecimento total, permanente. Tal como o «Justice Cap», bem vistas as coisas, traduz, talvez quem não queira ser visto, quem queira ficar à margem, impossível de posicionar no tabuleiro social, tenha algo a esconder.

O problema, de uma forma ou de outra, resulta na racionalidade por detrás das acções, oculta na sua manifestação física. E se, historicamente bem perto de nós, ou geograficamente mais ainda, os meios de punição partilham com a prática do crime os mesmos dispositivos, quem se esconde, por entendimento ideológico-social ou por oportunismo judicial,  revela-se semelhante na forma, e aí rasga-se a possibilidade de toda a acção policial. Uma vez mais, e sempre, para o bem e para o mal.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

 

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