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A guerra talvez tenha a vantagem de ser honesta. Não nas suas ciladas, nas suas tácticas, nas suas partes que a compõem, é claro, mas sim no todo que ela é. Um tiro é sempre um tiro; que ameaça e aleija e mata, que marca. A guerra não falseia: quer matar e mata mesmo. É esse o seu propósito e sua consequência. Não se pode censurá-la por isso. Ao menos, não por isso.

A palavra é, por tal, arma mais suja, verdadeiro terrorismo. As palavras são, na sua essência, traição, porque se parecem todas umas com as outras, mesmo quando umas matam e as outras curam. As balas são todas iguais; na sua maldade, é certo, mas todas iguais ainda assim. Coerentes, certas, sem surpresa, estáveis, declarativas, lineares em voo e mesmo antes dele. Nunca ninguém tomou uma bala por mão amiga, nem a explosão de um tiro por cantiga de embalar. Qualquer imbecil sabe que deve fugir de uma bala; os melhores imbecis sabem como fazer a palavra armadilhada passar por oferenda. E os mais geniais também, e não é senão aí que está a corruptora aparência das palavras que tudo submerge e baralha.

Ainda que possa não parecer, sou mais pelas palavras do que pela guerra. Mais: sou pela palavra e não pela guerra, mas ocasionalmente gostaria que a guerra matasse a palavra: a palavra distorcida, desonesta, tortuosa e venenosa. Porque a palavra precisa de fronteiras. Porque a palavra é inimiga de si mesma.

A espiral da guerra pode durar para sempre, mas na sua destruição há ainda produtividade, escape, libertação e foco. A palavra, tão bela, pode mergulhar-nos na apatia, no irritado desespero, na desesperante irritação contida, aniquilada na voz baixa do tolo apaziguamento, do marasmo carinhoso de um filme que se torna mudo de ideias, que aborta toda a possibilidade de futura existência.

Quando a palavra se vicia, que a guerra nos liberte, que o pânico do invisível se faça explodir num grito. E, sobretudo, que por isso ninguém diga se ter perdido a razão. A razão perde-se quando se atraiçoa a palavra, esvaziando-a dos seus significados, ofendendo-lhe a honra que deveria ser sempre a sua. Dou-vos a minha palavra.

Pode dar-se o caso do leitor erradamente pensar que este é um texto sobre nada. Recomendo, num tal caso, e à guisa de médico, que leia um programa eleitoral recente ao almoço e que veja uma entrevista ao primeiro-ministro ao jantar.

Hugo desenho 4sc2Hugo Picado de Almeida

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